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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

Então, achando-se apenas com o menino e o dono da casa, pediu a Otávio o objeto que lhe dera Rosalina. Examinou-o por momentos e depois, possuindo-se de uma tristeza, mais inexplicável do que a alegria que a precedera, falou gravemente a Otávio, que o observava admirado:

— Meu filho, a menina de cujas mãos recebeste este objetozinho não é filha do subdelegado, como disseste... É a filha de um pobre homem que morreu para salvar-me a vida.

— Oh! meu pai...

— É verdade, Otávio... Tens certamente na memória o fato a que me refiro.

"Um dia, íamos atravessando o Amazonas..."

— Oh! bem me lembro!... Uma horrível borrasca se desencadeara... Fomos abalroados por um tronco de árvore que sobrenadava... Caíste fora da embarcação... Era impossível lutar com as ondas... íeis morrer... o mísero lançou-se ao rio!... agarrou-vos... conseguiu repor-vos sobre a embarcação... salvou-vos!... Mas as águas revoltas o envolveram... eu vi uma mão agitar-se por instantes fora d'água... era o adeus supremo do infeliz!... Ele sumiu-se...

Otávio enxugou com as costas da mão uma lágrima que lhe pendia dos

cílios.

— Exatamente, meu filho. Pois esse homem dedicado consagrava-me verdadeiro afeto, e, seis dias antes do fatal desastre que findou a sua existência, ele, adivinhando talvez que tinha de morrer em breve, quis dar-me uma lembrança da sua amizade.

"Sr. Henrique, me disse ele, peço-lhe que aceite este objeto, a que eu dou um apreço imenso, e por isso vô-lo ofereço"...

Henrique Dugarbon meteu dois dedos em um bolso, tirou uma mãozinha de coral inteiramente igual à que lhe entregara Otávio e, apresentando-a ao menino, disse:

— Aqui está o que ele me deu... O bom homem amava este objeto porque lhe recordava uma filha que tinha em S. João do Príncipe, com sua mulher. Essa menina chamava-se Rosalina e a inicial do seu nome estava riscada sobre o fragmento de coral querido do seu pai, que lhe dera um brinco semelhante, tendo também riscado a inicial do nome dele.

Estas cousas me foram referidas pelo meu pobre amigo ao fazer-me entrega desta mãozinha de coral. Agora, vê...

Ele chamava-se Antônio... eis aqui a letra A riscada no objeto que te deram. A sua filhinha chamava-se Rosalina... R é a letra que tem a lembrança que me deu o dedicado Antônio... Rosalina é também o nome da criança que vimos em casa do subdelegado!

— Sim, meu pai! Ela disse-me que se chamava Rosalina!

— Otávio, aquela criança é tua irmã!... Eu sou seu pai ante a minha consciência! O pobre Antônio, sacrificando-se por mim, confiou-ma sem o declarar. Eu devo ser agora seu pai.

Quando acabou de falar, Henrique Dugarbon, bastante comovido, pareceu refletir por um momento e, voltando-se para o amigo, que de parte assistira, sem entender, o diálogo dos dons estrangeiros, travado em francês, pediu-lhe em português, que desse informações acerca da mãe da protegida do subdelegado.

Soube que, havia bastante tempo, uma espécie de mendiga exalara o derradeiro suspiro nos braços da miséria, deixando ao desamparo uma filhinha, que Eustáquio de... acolhera. Contou então ao seu informante a história do fim trágico que levara o pai da orfãzinha.

— Se não fosse o Sr. Eustáquio, observou Otávio, a pobre menina estaria tão abandonada, coitadinha!...

Esta observação de Otávio atraiu o pensamento do viajante francês para as condições em que se achava Rosalina. Henrique estava pronto para consagrar àquela criança uma dedicação toda paternal... Rosalina encontrara generosos protetores, mas... quem sabe se não careceria ela alguma vez de proteção mais forte?... Os benfeitores da menina tinham um inimigo talvez terrível... Cumpria pois que ele, Henrique Dugarbon por amor de Rosalina se armasse para defendê-los. Ocorreu-lhe a idéia de suspender por algum tempo as suas excursões e entregar-se a essa defesa; a vida sedentária, porém, não convinha à sua natureza. Depois de haver obtido do amigo em cuja casa ia deixar o seu filho Otávio a promessa de que empregaria todos os meios ao seu alcance para afastar os perigos que ameaçassem a família do subdelegado Eustáquio. ele terminou as suas despedidas e. reunindo-se aos seus quatro camaradas, partiu para o norte.

No momento em que Henrique Dugarbon estreitava consigo a Otávio. o menino. elevando-se à altura de um homem, proferiu no íntimo d'alma um juramento solene.

Quem tivesse o dom de ouvir os pensamentos, teria percebido o seguinte:

"Juro-vos, meu Deus, pelo vosso nome e pela alma do desditoso sertanejo que morreu por meu pai, que a segurança de Rosalina será garantida!"

Tais foram os fatos referidos por Otávio na revelação que fez ao padre Jorge. Tais foram os fatos cuja narração o padre repetiu a Eustáquio, Branca e Rosalina.

(continua...)

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