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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Não lhe bastavam para tormento constante, as próprias aflições? Para que se mortificar com a sorte dele? Não era seu parente; nada os ligava, a não ser recíproca troca de favores, a gratidão, orvalhando o gérmen da simpatia instintiva e um projeto vago, a proposta de se aliarem pelo matrimônio.

Quem sabe – pensava ela – se, em vez de partir de impulso do coração, não fora feita por generosidade, compaixão, ou desejo sensual de possuí-la, onerá-la com a responsabilidade da família, filhos, que aumentariam os vexames já oprimentes, para depois, como tantos outros, abandoná-la, infligir-lhe a abjeção de ser preterida por outra mulher, crime que os homens cometem como um direito do sexo, ou divertimento cruel, igual ao de matar rolas e desmanchar ninhos?!

Culpado e punido, ficaria livre de penar por ele, do compromisso de gratidão e das conseqüências funestas do triste consórcio de dois pobres. Sozinha no mundo, poderia, com a graça de Deus, e os seus músculos, trabalhar para viver, ou emigrar para a praia em busca da proteção e amparo do padrinho José Frederico.

Tais pensamentos, bons e maus, perversos ou generosos, acudiam, em tumulto, disparatados e contraditórios, ao seu cérebro perturbado pela dúvida. Acariciava-os ou lutava para expungi-los; e vinha-lhe, por fim, o remorso de haver pecado por soberba, por falta de caridade, julgando mal Alexandre, quando, em verdade, os sofrimentos dele repercutiam no seu coração com dobrada intensidade, como se ele fora parte de seu ser, porção de sua alma.

Seria isso bem-querer, como imaginava; duas criaturas confundidas de corpo e alma em harmonia ininterrupta de afetos e idéias, vivendo da mesma nutrição moral, dos mesmos anelos, eternamente ligados no prazer e na dor, na vida e na morte?!

Sentia-se incapaz de amar; carecia-lhe a fraqueza sublime, essa languidez atributiva da função da mulher no amor, a passividade pudica, ou aviltante da fêmea submissa ao macho, forte e dominador, irresistível, como aprendera na intuitiva lição da natureza; essa comovente timidez de novilha ante a investida brutal do touro lascivo, sem prévios afagos sedutores, sem carícias de beijos correspondidos, como nos idílios das rolas mimosas. Não; não fora destinada à submissão. Dera-lhe Deus músculos possantes para resistir, fechara-lhe o coração para dominar, amando como os animais fortes: procurar o amor e conquistá-lo; saciar-se sem implorar, como onça faminta caindo sobre a presa, estrangulando-a, devorando-a. Não era mulher como as outras, como Teresinha, para abandonar a família, o lar, a honra, por um momento de ventura efêmera, escravizando-se ao homem amado, contente do sacrifício, orgulhosa do crime, insensível ao vilipêndio, sem olhar para trás onde ficaram os tranqüilos afetos, para sempre perdidos; e, por fim, consolada à torpeza do repúdio infame, à margem da estrada da vida, como um resíduo inútil, condenado a vis serventias, trapo que foi adorno cobiçado, molambo que vestiu damas formosas, casca de fruto saboroso e aromático.

Não; não fora feita para amar. Seu destino era penar no trabalho; por isso, fora marcada com estigma varonil: por isso, a voz do povo, que é o eco da de Deus, lhe chamava Luzia-Homem.

CAPÍTULO XII

A velha dormia tranqüilamente, e as duas moças continuavam a conversar no alpendre.

Queria você muito bem ao Cazuza? – perguntou Luzia a Teresinha, de súbito emergindo de um vago cismar.

— Se queria!... – respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, mãe e irmã de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me tão feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei insensível como uma pedra, vivendo por viver, rolando à toa pelo mundo...

— Nunca teve inclinação para outro?

(continua...)

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