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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Guaraciaba tanto tinha de meiga e singela, como de alegre e trêfega; ela se aprazia por vezes em perturbar com encantadoras travessuras as graves e profundas cismas de seu amigo. Ora lesta e subtil como uma lebre sumia-se entre as moitas da floresta, sem que Itajiba o pressentisse; este dando por sua falta, olha inquieto para todos os lados , chama-a gritando seu nome uma e muitas vezes, aplica o ouvido aos ecos; mas Guaraciaba não responde, nem aparece em parte alguma. No auge da inquietação Itajiba perplexo não sabe nem o que pensar nem o que fazer, quando sente por detrás uma ligeiras mãozinhas a lhe tapar os olhos.

— Guaraciaba! lhe diz ele sorrindo, que susto me causaste! oh! não brinques mais por essa forma, que me fazes mal.

— Perdoa-me, Itajiba; quis distrair-te de teus cuidados. Estavas tão triste e pensativo! parece que tens muita saudade dos teus e do teu pai!

— Não; pura e formosa filha de Oriçanga, quando estou junto a teu lado, que me importa o resto do mundo?...

Outras vezes com pena das pobres avezinhas, em que Itajiba fazia a mira, ou lhe espantava a caça, ou lhe fazia perder o tiro tocando-lhe o braço no momento de despedir a seta.

Uma vez ambos atravessavam o rio em uma canoa, que Itajiba remava; estavam ainda longe da barranca oposta, quando Guaraciaba súbito dá um grito, salta na água e desaparece. Itajiba pálido de susto pensa que algum monstro do rio, algum jacaré ou sucuri, a arrebatou; sem perder um momento salta na água com a faca em punho, mergulha e surge de novo à tona da água, torna a mergulhar e a surgir, e nada vê senão a canoa rodando rio abaixo sem governo.

Em desesperada ansiedade estava resolvido a morrer naquelas águas antes do que sair delas sem Guaraciaba, quando uma gargalhada vibrante e harmoniosa como o canto da siriema retroa no barranco vizinho. Era Guaraciaba, que de propósito se lançara ao rio, e de um mergulho ganhara a margem. Itajiba ganha de novo a canoa, e dirige-se para o barranco.

— Ó querida e formosa Guaraciaba, diz ele ao chegar entre risonho e grave, por piedade, não brinques mais assim. Olha que um dia, assim como hoje tomei um gracejo teu pela realidade, poderei tomar a realidade por gracejo e faltarte no perigo.

Um dia a alegria e contentamento, que sempre reinavam nas partidas de caça dos dois selváticos amantes, foram perturbados por um triste, posto que bem simples incidente. Itajiba avistara pousadas sobre um galho de uma alta canjerana duas lindas e grandes juritis de luzidia plumagem, que se beijavam e se afagavam com os encarnados biquinhos, arrulhando de prazer; imediatamente embebe a seta e curva o arco.

— Pobrezinhas! exclama Guaraciaba correndo a estorvá-lo, não as mate, não; deixa-as.

Mas o tiro tinha partido sibilando, e as duas amantes pombas caíram varadas no coração pela mesma seta.

Uma nuvem de tristeza cobriu o coração de Guaraciaba, que nesse dia não brincou nem sorriu mais, um funesto pressentimento a afligia, e aquele acontecimento parecia-lhe um presságio sinistro, mas não sabia de quê, Itajiba em vão procurava dissipar a triste preocupação de sua amiga, já zombando daquela pueril apreensão, já procurando desvanecê-la com razões sérias. Guaraciaba resolveu-se a consultar os pajés sobre a significação daquele nefasto acontecimento. O primeiro a quem se dirigiu respondeu-lhe abanando a cabeça:

— Ah! filha de Oriçanga, semelhante sucesso não pode ser de bom agouro. Resguarda bem teu coração das chamas do amor: teu coração e o daquele a quem amares não poderão ser unidos senão pela morte.

— Em que te pode afligir um fato tão simples, ó bela e mimosa filha do mais poderoso dos caciques? disse-lhe o venerando Andiara, a quem consultou depois.

Essa seta traspassando ao mesmo tempo duas inocentes pombas é o amor unindo para sempre duas almas puras.

Esta engenhosa e consoladora explicação calou no espírito de Guaraciaba, e nesse mesmo dia se desvaneceram todos os seus sombrios pressentimentos.

(continua...)

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