Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Perpétua por ter sido amante do Tiradentes, e porque recebia mineiros a jantar e a cear em sua saleta de pasto, foi objeto de incessante espionagem, e teve a casa por vezes varejada, de modo que em breve temerosos e espantados quase todos os freqüentadores da saleta de pasto dela desertaram, e a Rua do Ouvidor cobriu-se com o véu da tristeza e anuviou-se pelo medo.
Mas a corajosa Perpétua deixou-se ficar em sua casa à espera...
À espera de que?... ela nem podia ter notícias do Tiradentes, considerava como os seus companheiros do infortúnio em segredo nas masmorras da ilha das Cobras.
E todavia ela esperou quase dois anos... esperou até abril de 1792.
A 19 deste mês, o Belo Senhor, que nunca a abandonara, embora Perpétua desde que amara o Tiradentes só lhe permitisse inocentes relações, foi triste anunciar-lhe a horrível sentença proferida pela alçada no dia antecedente.
A pobre moça nem pôde chorar nos primeiros momentos, e convulsa e como atônita, murmurou estupidamente:
- Eu lho disse: foi a perpétua roxa!...
- Que perpétua roxa?... perguntou o Belo Senhor a temer que a infeliz moça começasse a delirar.
- Eu o sei... e ele o sabe: respondeu a amante do Tiradentes.
Horas depois Perpétua Mineira, que não pudera chorar, pálida e abalada por estremecimentos nervosos, tornou-se muda e ficou de novo à espera... ficou alerta.
Não se alimentou, nem dormiu, ficou à espera...
Às onze horas da noite de 20 de abril Perpétua Mineira ouviu sinistro ruído de gente aliás silenciosa quê descia pela Rua Direita, e saiu para ver o que era.
Todas as casas estavam fechadas.
Perpétua Mineira chegando à Rua Direita apoiou-se à parede da quina da Rua do Ouvidor.
E viu... e ouviu...
Viu quase na sombra... viu mal distinto lúgrube préstito de soldados e de presos, e ouviu o tinir das correntes...
Viu pelos ouvidos os soldados em sua marcha compassada e regular, e os presos no gemer das cadeias...
Quando presos e soldados foram em fúnebre silêncio passando diante dela, a mísera e exaltada mulher, adivinhando entre aqueles o amante, que não podia distinguir na escuridão, disse alto, bastante alto para ser ouvida, mas com voz pungente:
- Perpétua!...
As cadeias de um dos condenados retiniram, agitadas por forte tremor, aliás apenas momentâneo.
O Tiradentes tinha reconhecido a voz de Perpétua.
No outro dia, 21 de abril, José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, subiu à história subindo à forca no campo do Rosário.
Quando o seu corpo caiu no patíbulo sob os pés do carrasco, os repiques festivos dos sinos das igrejas e as aclamações oficiais obrigadas abafaram profundíssimo gemido de dor, e a comoção geral não deixou ver, ou o instinto generoso do povo escondeu o crime de um corpo de mulher que tombara como sem vida.
Essa mulher, porém, não estava morta; levaram-na, ou ela tornou a si, e pôde retirar-se... fugir...
A cidade obedeceu à imposição de manifestações de festa e de exultação até as luminárias que se apagaram às dez horas da noite.
Depois reinou na cidade silêncio sepulcral.
Pouco depois da meia-noite uma mulher alta e envolta em negra mantilha avançou misteriosa pelo campo do Rosário até chegar à forca ainda em pé.
O campo estava solitário, era profunda a escuridão... e na escuridão a forca se escondia, como o remorso que se abisma no fundo enegrecido do seio em torturas...
Chegada junto da forca, a mulher tirou das amplas e protetoras dobras de sua mantilha uma lanterna furta-fogo e curvando-se, com os olhos abaixados para o chão, pôs-se a andar em torno do patíbulo e como a procurar algum objeto... sonhado...
A mísera sonhara achar... mas não achou uma - perpétua roxa...
Achou... vestígios de sangue que a terra absorvera...; finalmente, porém, achou... quase um trapo... um pedaço de lenço branco e ensangüentado.
Perpétua, porque era ela, recolheu o pedaço de lenço e, examinando-o à luz da lanterna, descobriu em um dos ângulos as letras J.J.S.X. bordadas à seda...
Ela tinha bordado essas mesmas letras em um lenço do Tiradentes.
Perpétua Mineira beijou dez vezes o pedaço de lenço ainda úmido de sangue, depois guardou-o no seio e sobre o coração.
Quase logo apagou a lanterna, largou-a no chão e pôs-se a caminhar em retirada do campo do Rosário.
Mas então Perpétua Mineira vacilava em sua marcha, e sentia-se extenuada de forças. É que ela não se alimentava nem dormia desde 19 de abril, e já há uma hora tinha começado o dia 22.
A saleta de pasto da Rua do Ouvidor não se tornou a abrir.
Desde a noite de 21 de abril Perpétua Mineira desaparecera e não se soube o destino que levara.
Houve quem dissesse que se encontrara na estrada de Minas Gerais e junto de poste, onde se deixara exposto um dos quartos do corpo de Tiradentes, o cadáver de uma mulher.
CAPÍTULO 8
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.