Por Gregório de Matos (1696)
Mandai-me, Senhores hoje
que em breves rasgos descreva
do Amor a ilustre prosápia,
e de Cupido as proezas.
Dizem, que da clara escuma,
dizem, que do mar nascera,
que pegam debaixo d'água,
as armas, que Amor carrega.
Outros, que fora ferreiro
seu Pai, onde Vênus bela
serviu de bigorna, em que
malhava com grã destreza.
Que a dous assopros Ihe fez
o fole inchar de maneira,
que nele o fogo acendia,
nela aguava a ferramenta.
Nada disto é, nem se ignora,
que o Amor é fogo, e bem era
tivesse por berço as chamas
se é raio nas aparências.
Este se chama Monarca,
ou Semideus se nomeia,
cujo céu são esperanças,
cujo inferno são ausências.
Um Rei, que mares domina,
um Rei, o mundo sopeia,
sem mais tesouro, que um arco,
sem mais arma, que uma seta.
O arco talvez de pipa,
a seta talvez de esteira,
despido como um maroto,
cego como uma Topeira.
Um maltrapilho, um ninguém,
que anda hoje nestas eras
com o cu à mostra, jogando
com todos a cabra-cega.
Tapando os olhos da cara,
por deixar o outro alerta
por detrás à italiana,
por diante à portuguesa.
Diz, que é cego, porque canta,
ou porque vende gazetas
das vitórias, que alcançou
na conquista das finezas.
Que vende também folhinhas
cremos por cousa mui certa,
pois nos dá os dias santos,
sem dar ao cuidado tréguas;
E porque despido o pintam,
é tudo mentira certa,
mas eu tomara ter junto
o que Amor a mim me leva.
Que tem asas com que voa
e num pensamento chega
assistir hoje em Cascais
logo em Coina, e Salvaterra.
Isto faz um arrieiro
com duas porradas tesas:
e é bem, que no Amor se gabe,
o que o vinho só fizera!
E isto é Amor? é um corno.
Isto é Cupido? má peça.
Aconselho, que o não comprem
ainda que Ihe achem venda.
Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palácios entra:
Este, que o juízo tira,
Este, que roubou a Helena,
este, que queimou a Tróia,
e a Grã-Bretanha perdera:
Este, que a Sansão fez fraco,
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento
é assunto dos Poetas:
Faz o sisudo andar louco,
faz pazes, ateia a guerra,
o Frade andar desterrado,
endoudece a triste Freira.
Largar a almofada a Moça,
ir mil vezes à janela,
abrir portas de cem chaves,
e mais que gata janeira.
Subir muros, e telhados,
trepar cheminés, e gretas,
chorar lágrimas de punhos
gastar em escritos resmas.
Gastar cordas em descantes
perder a vida em pendências,
este, que não faz parar
oficial algum na tenda.
O Moço com sua Moça,
o Negro com sua Negra,
este, de quem finalmente
dizem, que é glória, e que é pena.
É glória, que martiriza,
uma pena, que receia,
é um fel com mil doçuras,
favo com mil asperezas.
Um antídoto, que mata,
doce veneno, que enleia,
uma discrição sem siso,
uma loucura discreta.
Uma prisão toda livre,
uma liberdade presa,
desvelo com mil descansos,
descanso com mil desvelos.
Uma esperança, sem posse,
uma posse, que não chega,
desejo, que não se acaba,
ânsia, que sempre começa.
Uma hidropisia d'alma,
da razão uma cegueira,
uma febre da vontade
uma gostosa doença.
Uma ferida sem cura,
uma chaga, que deleita,
um frenesi dos sentidos,
desacordo das potências.
Um fogo incendido em mina,
faísca emboscada em pedra,
um mal, que não tem remédio,
um bem, que se não enxerga.
Um gosto, que se não conta,
um perigo, que não deixa,
um estrago, que se busca,
ruína, que lisonjeia.
Uma dor, que se não cala,
pena, que sempre atormenta,
manjar, que não enfastia,
um brinco, que sempre enleva.
Um arrojo, que enfeitiça,
um engano, que contenta,
um raio, que rompe a nuvem,
que reconcentra a esfera.
Víbora, que a vida tira
àquelas entranhas mesmas,
que segurou o veneno,
e que o mesmo ser Ihe dera.
Um áspide entre boninas,
entre bosques uma fera,
entre chamas Salamandra,
pois das chamas se alimenta.
Um basalisco, que mata,
lince, que tudo penetra,
feiticeiro, que adivinha,
marau, que tudo suspeita
Enfim o Amor é um momo,
uma invenção, uma teima,
um melindre, uma carranca,
uma raiva, uma fineza.
Uma meiguice, um afago
um arrufo, e uma guerra,
hoje volta, amanhã torna,
hoje solda, amanhã quebra.
Uma vara de esquivanças,
de ciúmes vara e meia,
um sim, que quer dizer não,
não, que por sim se interpreta.
Um queixar de mentirinha,
um folgar muito deveras,
um embasbacar na vista,
um ai, quando a mão se aperta.
Um falar por entre dentes,
dormir a olhos alerta,
que estes dizem mais dormindo,
do que a Iíngua diz discreta.
Uns temores de mal pago,
uns receios de uma ofensa
um dizer choro contigo,
choromingar nas ausências.
Mandar brinco de sangrias,
passar cabelos por prenda,
dar palmitos pelos Ramos,
e dar folar pela festa.
Anel pelo São João,
alcachofras na fogueira,
ele pedir-lhe ciúmes,
ela sapatos, e meias.
Leques, fitas, e manguitos,
rendas da moda francesa,
sapatos de marroquim,
guarda-pé de primavera.
Livre Deus, a quem encontra,
ou Ihe suceder ter Freira;
pede-vos por um recado
sermão, cera, e caramelas.
Arre lá com tal amor!
isto é amor? é quimera,
que faz de um homem prudente
converter-se logo em besta.
Uma bofia, uma mentira
chamar-lhe-ei mais depressa,
fogo salvaje nas bolsas,
e uma sarna das moedas.
Uma traça do descanso,
do coração bertoeja,
sarampo da liberdade,
carruncho, rabuge, e lepra.
É este, o que chupa, e tira
vida, saúde, e fazenda,
e se hemos falar verdade
é hoje o Amor desta era
Tudo uma bebedice,
ou tudo uma borracheira,
que se acaba co dormir,
e co dormir se começa.
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve temor de artérias.
Uma confusão de bocas
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
A DOUS IRMÃOS FULANOS DA CRUZ, QUE FORAM PREZOS POR FURTAREM HUM
ESPADIM A HUM SURDO DA PRAYA, TENDO JA FURTADO HUMAS SALVAS, QUE
PEDIRAM EMPRESTADO PARA TIRAREM A ESMOLLA PARA N. SENHORA DA
PALMA DE QUE FORAM DEGRADADOS PARA ANGOLLA.
1 As cruzes dos dous ladrões,
ou os dous ladrões das cruzes
com capa dos arcabuzes
armaram aos taralhões:
mas vendo, que estas ações
lhes não tinha a pança cheia,
a vil canalha plebéia
por comer à tripa forra,
sem recear a masmorra
meteu-se, e chegou a ceia.
2 Consumando o seu intento
por infames malfeitores,
à sentença dos maiores
foram para um aposento:
e se o seu merecimento
é castigo temerário,
pena é muito ao contrário,
que quem calvários só quer
os não mandam padecer
noutras cruzes ao calvário.
3 E fora mui justa lei,
que a qualquer ladrão previsto,
inda chamando por Cristo,
lhe não valesse o pequei:
e se hoje o memento mei
não acode a um patifão
por judaica geração,
se tira por conseqüência,
que é por sua violência
cada qual mui mau ladrão.
4 Porém o seu pensamento
antevendo a perdição
com capa de devoção
cuidou ir a salvamento:
e pedindo a bom intento
os dous duas salvações
foram em tais conjunções,
se bem careciam dalvas,
que dando-lhe as culpas salvas
se ficaram bons ladrões.
5 As salvas foram pedidas,
e sendo enfim emprestadas,
depois de Ihas terem dadas,
foram salvas, e perdidas:
e com ser às escondidas
o pedido, que as assola,
triunfando vão para Angola,
pois se levanta a sua alma
tirando a esmola da Palma
com o Santo, e com a esmola.
6 Outros crimes mais atrozes
têm os dous Judas malvados,
que justamente culpados
os publicam muitas vozes:
porque os delitos ferozes
no seu inútil estado
os criminam de contado,
e são no erro inaudito
um Judas para o bendito
inimigo do Louvado.
7 Vendo ao pobre varão
de grave espadim à cinta,
conhecendo-o pela pinta
o tomam de guarnição:
e andando de mão em mão
foi o espadim consumido
pelo valor atrevido,
e o mesmo espadim achado
para eles foi deparado,
e para ele foi corrido.
8 Pelas cruzes foi tomado,
e o que a todos mais atonta,
é, que não foi pela ponta
por um, ou outro Soldado:
mas como o valor mostrado
era em passos tão ligeiro,
chegou ao Cabo primeiro,
para levar tudo ao punho,
que só por força tem cunho,
ou cruzes o seu dinheiro.
9 Suspenso o mundo, e absorto
pasma em tal desassossego
maltratar um surdo a um cego,
que o seu direito é ser torto:
pois quando viu Cristo morto
com a lança o investiu,
e ele de cego sentiu
de então toda a vista ter,
Longuinhos viu por não ver,
e ele chegou, porque viu.
10 E se pelo atrevimento
de tão grandes desaforos
merecem dous mil estouros,
não é castigo violento:
que se fora a meu contento,
os queimaram logo logo,
e não satisfaz meu rogo
ter sentença de água fria,
quem somente merecia,
que lhe pusessem o fogo.
11 Porém, Senhores, porém
é escusado o falar,
nem mais pareceres dar,
já que remédio não tem:
e se do degredo vêm
e sai seu intento à luz,
vinguem-se logo de um plus,
que se governa até o cabo,
guarde-se a cruz do diabo,
não o diabo da cruz.
MANAS, DEPOIS QUE SOU FREIRA.
MOTE
É do tamanho de um palmo
com dous redondos no cabo.
1 Manas, depois que sou Freira
apoleguei mil caralhos,
e acho ter os barbicalhos
qualquer de sua maneira:
o do Casado é lazeira,
com que me canso, e me encalmo,
o do Frade é como um salmo
o maior do Breviário:
mas o caralho ordinário
É do tamanho de um palmo.
2 Além desta diferença,
que de palmo a palmo achei,
outra cousa, que encontrei,
me tem absorta, e suspensa:
é, que dizcorrendo a imensa
grandeza daquele nabo,
quando o fim vi do diabo,
achei, que a qualquer jumento
se lhe acaba o comprimento
Com dous redondos no cabo.
AS TRÊS IRMÃS FORMOSAS DAMAS PARDAS, QUE MORAVAM NO AREYAL.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.