Por Eça de Queirós (1940)
Não é de espantar que o mesmo exército concorresse para essa revolução. O exército conhece as suas altas qualidades e está descontente pela má direcção que o leva aos desastres» Além disso, para a multidão de oficiais, moços, entusiastas, instruídos, apaixonados de ideias modernas, esta campanha é um complemento de educação liberal.
Em primeiro lugar, acostumam-se a ver de perto os vícios da administração. As falsificações dos comissariados, a vergonhosa qualidade das rações, a insuficiência dos socorros sanitários, a desorganização das ambulâncias, das pagadorias, de tudo; os hospitais apinhados, a imbecilidade visível dos generais – não são condições favoráveis para aumentar o respeito pelo regime autocrático. Além disso, o país em que operam é um ninho de republicanos, de socialistas, de descontentes. Belgrado, Bucareste, etc.», fervilham de espíritos revolucionários: o contacto com esse mundo, com a multidão de correspondentes, de jornalistas, a leitura mais assídua dos periódicos, etc., são outras tantas ocasiões de fazer no espírito dessa mocidade militar um lento trabalho de oposição ao regime que os governa tão mal! E esta classe enérgica voltaria à Rússia cheia de esperanças de emancipações e de ideias de democracia.
Talvez as pessoas que me lêem creiam que isto são hipóteses fantasmagóricas. Pois bem, que me expliquem então este facto, que vários correspondentes ingleses testemunham. Há semanas dava-se num teatro de Bucareste uma representação a que assistiu grande número de oficiais. Uma actriz francesa tinha que dizer uma canção num dos actos da peça: no momento em que a orquestra preludiava e ela ia gorjear o seu couplet, uma voz gritou:
– A Marselhesa. A Marselhesa!
E imediatamente, numerosos oficiais russos, fardados, esqueceram-se, gritando com frenesi:
– A Marselhesa, A Marselhesa!
Ora justamente, A Marselhesa é proibida em Bucareste. Grande embaraço nos bastidores. A mocidade militar berrava, uivava, gania:
– A Marselhesa, A Marselhesa!
Alguns bancos começavam a perder os pés e as travessas. O chefe da orquestra, assustado, fez um sinal: A Marselhesa rompeu, a actriz segue cantando com grande vigor e os oficiais, delirantes, fazem uma ovação à cantora–e à cantiga!
No outro dia o teatro foi fechado a pedido do grão-duque Nicolau!
As câmaras encerraram-se sem ter feito nada de glorioso: e, a respeito de câmaras e de constitucionalismo, deixem-me contar-lhes o caso da eleição de Lord Burghley, que é um exemplo curioso do valor que tem em Inglaterra a representação parlamentar. E mais uma ilusão a perder sobre esta pobre Inglaterra!
O circulo de Northamptonshire fica vago pela morte do ministro da Marinha, Mr. Ward Hunt. No círculo, um dos grandes personagens é o marquês de Exeter – o qual, nesta circunstância, tratou de fazer nomear, segundo a tradição das velhas famílias inglesas, seu filho primogénito, Lord Burghley. Os influentes do circulo (os influentes conservadores, naturalmente) aplaudiram a escolha: não trataram de saber se Lord Burghley tinha aptidões, prática ou conhecimento qualquer das coisas públicas; era um lorde, filho de um pai conservador, rico, deveria possuir um dia grandes propriedades no circulo, podia votar – era o que bastava! Quer, porém, a etiqueta eleitoral que o candidato faça um discurso de profissão de fé aos seus eleitores nas vésperas de eleição. Sucede tambén que Lord Burghley é um rapaz de vinte e oito anos, foi militar e até agora a sua ocupação tem sido valsar, folgar, caçar e cumprir os deveres gentis de um janota de Londres.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.