Por Eça de Queirós (1925)
prietarios sem ideal e sem emoção, ignorando os poetas, occupados com o preço da carne e o adubo das terras, exasperava-o, dando-lhe desejos vagos de uma Revolução, em que o poder, o dinheiro, pertencessem aos genios e ás almas delicadas.
Occupava-se então, para não perder a communicagão intellectual @om o Cenaculo, em compor para o Pensamento uma longa elegia, intitulada A Morte e dedicada á memoria do pae. Mas Damião, que passava o verão em Coimbra, devolveu lhe o manuseripto, com uma carta, dizendo que o CenacuZo decidira não publicar o Pensamento durante as ferias ; talvez mesmo, no anuo seguinte, agora que o Taveira estava formado, o Pensamento se tornasse uma Revista puramente philosophica e scientifica, d'onde os poetas lyrieos, como na Republica de Platão, seriam excluidos, «a não ser que, deixando a preoccupação estreita da dôr individual, se lançassem na sympathia mais larga da humanidade martyrisada . . . » Censurava-lhe a poesia cheia de lamentações cahoticas e lamartinianas » ; acon.selhava-lhe um livro forte e democratico : a morte — dizia — é uma transformação banal da substancia, e não comporta adjectivos tão espantados, verbos tão plangentes e essas fileiras d'interjeigões, que parecem renques de cyprestes. Só a vida é interessante porque é phenomeno unico.
Escreva paginas vivas t
Aquelle fim do Pensamento, cortando a sua ultima communicação com a vida intellectual, desolou-o. Assim se completava o isolamento da sua alma. De resto, sentia-se vazio d'idéas, d'imagens, de rimas. Attribuia aquella esterilidade ao meio dormente, á ausencia de conversas, d'excitação inspiradora. A falta de livros amargurava-o. Os que tivera, vendera-os em Coimbra quando vira o fim das libras do leilão, e não podia obter outros, porque os proprios cigarros que fumava no quintal, longe da tia Ricardina, tão avessa ao tabaco, comprava-os com alguma placa que lhe dava a boa Sabininha.
O seu tedio era tão grande que se puzera a desejar, como um acontecimento, a apparição aos serões, do Vasco e de D. Galathea, que então convalescia do seu ultimo parto. Sabininha fallara-lhe de D. Galathea como d'uma « verdadeira belleza » e, por aquelle nome litterario, pelo que ouvira do seu amor dos romances, do seu talento no piano, viera a conceber uma mulher d'olhos tristes e alma impressionavel, soffrendo da existencia mesquinha da aldeia e sonhando amores elevados. Mas foi uma desillusão quando elles vieram um domingo. D. GaIathea era quasi uma quarentona, grossa e branca, de buço forte, com uns seios, umas ancas, que sob o vestido leve de cassa clara, lhe davam a apparencia flacida d'urn odre mal cheio. Atravessara o largo em chinelos, com fitas verdes no cabello, um cartucho de rebuçados na mão —e a sua conversa sobre o leite da ama e os cuidados em que estava com o sarampo do Pedrinho, e a canastra de marmelos que comprara n'essa tarde, revoltou Arthur, que fez d'ella esta definição irreverente : uma vacca !
O Vasco, esse, pareceu-lhe odioso. Pouca gente lhe tinha visto o rosto todo : com a testa e os olhos sempre cobertos pela pala enorme do bonet de panno, o queixo e a bocca constantemente abafados n 'um cache-nez roxo, mostrava apenas a Oliveira d'Azemeis um nariz bicudo e lustroso. Vivia n'uma irritação permanente. E todo o dia era pela botica um passeiar furioso, fungando, fazendo estalar violentamente os nós dos dedos, com sacudidelas deses peradas da cabeça, como a fugir ao ferrão d'um moscardo invisivel, mastigando em secco, dentro do cache-nez, como se a vida lhe soubesse mal, Ninguem explicava na Villa aquelle azedume hypocondriaco.
Os serões das Corvellos, porém, pareciam calmal-o : mostrava então as repas grisalhas que lhe córiam o craneo estreito e o cache-nez, alargado, descobria um queixo molle, que lhe fugia para as cordoveias do pescoço. a cabeça, emergindo-lhe assim dos agasalhos, com aquella longa saliencia do nariz agudo, lembrava a d'um passaro pelado.
Arthur comprehendeu immediatamente que o Vasco era um ciumento : via-o mudo, de queixo rilhado, os olhinhos de chlorotica amarellada cravados anciosamente, ora n'elle, ora na grossa Galathea ; e quando esta, requebrando-se, o interrocrava sobre os seus passeios aos arredores, a sua visita á fabrica de vidro do Côvo, o Vasco, retido a distancia pela tagarellice da Ricardina, sondava de olhos faiscantes a escuridão debaixo da mesa, no terror de que já houvesse um terno roçar de joelhos. Emfim, quando trouxeram o chá, veio bruscamente plantar-se entre ambos, como um aspero muro erriçado de pregos. Então Arthur indignou-se, Ser suspeitado, elle, com a delicadeza fina dos seus gostos idealistas, de desejar aquela matrona de carnes molles ! . . . E para evidenciar bem o seu desdem pela Galathea, pelas palestras caturras, por toda a Villa — subiu para o seu quarto, foi estirar-se na cama, gemendo interiormente da solidão do seu coração. D'ahi a pouco, a voz da tia Sabina dizia de fóra :
— Tu estás incommodado Vai-se fazer um quino.
Elle veio abrir :
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.