Por Eça de Queirós (1912)
Um tão grande popularidade inquietou o sobrinho do príncipe, que, tendo o seu tio fugido da peste, com o seus tesouros e concubinas, governava a cidade,e queria, por ambição do poder, ganhar as simpatias do povo. Mas a sua face lívida e dura, sobre um corpo enfezado e corcunda, desagradava às mulheres por sua fealdade, aos soldados por sua fraqueza. Um dia em que ele seguia uma procissão, com as relíquias de S. Teódulo, o povo, à sua passagem, permaneceu com o joelho apenas dobrado. Logo atrás, porém, entre o povo, vinha Cristóvão, como uma torre entre casebres. Um mercador rico dera-lhe vinte varas de pano de Flandres, para um saio: e todo ele sorria na sua simplicidade, agitando duas palmas verdes que as confrarias dos Irmãos Hospitaleiros lhe tinham dado, como emblema da sua caridade. Ao vê-lo, o povo, que se apertava contra as portas fechadas, rompeu a gritar seu nome entre bênçãos: “Bom Cristóvão! Cristóvão grato ao Senhor!” Uma dama atirou-lhe a flor que tinha no seio. Os velhos baixavam a cabeça como na passagem de um justo.
O conde, adiante, tornara-se mais pálido. E nessa noite dizia, sentado à lareira, desapertando o gibão: “Quem me livrará daquele monstro que transvia o povo!” Os guardas, tendo combinado baixo a um canto, vieram, cercando a sua alta cadeira de espaldar, animar por adulação o seu secreto pensamento. Não era conveniente, na verdade, que um ser disforme, dos que se mostram ns feiras, ganhasse assim raízes no coração do povo... De resto, a sua força seria depressa domada com fortes correntes de ferro. E não havia, fora da cidade, um despenhadeiro, onde se poderia lançar o corpo do imenso bruto? E quando, na manhã seguinte, Cristóvão começava o seu almoço junto da catedral, um pajem veio, sorrindo, e convidou-o a ir à presença do príncipe, que lhe queria dar ouro, e vestidos que conviessem a um homem tão serviçal.
Pensando que os vestidos serviriam a cobrir os presos, que a miséria trazia nus, Cristóvão sacudira as mãos, onde a broa se esfarelara, e obedeceu ao pajem, que corria para lhe seguir as passadas.
Apenas Cristóvão entrara no palácio, as grossas portas, eriçadas de ferros, foram fechadas. O conde, que estava num balcão, gritou agitando o povo emplumado: “Eh Cristóvão!” E como ele movia um passo, sorrindo, com a face erguida para o balcão, de onde pendia um veludo franjado de ouro – dois soldados meteram-lhe bruscamente entre as pernas uma trave, e Cristóvão tombou no lajedo. Logo, de todas as portas, romperam homens inumeráveis, que cobriram o imenso corpo deitado, como as formigas cobrem um tronco. Num momento foi amarrado com grossas correntes e ferro: e para que nenhum grito dele saísse, uma mordaça tapou-lhe a boca. Depois todos, recuando vivamente, contemplaram em silêncio o gigante vencido. O príncipe desceu para ver, com damas, cujas caudas eram como longas tiras de tapete sobre o pátio. E os pajens cuspiam sobre a sua face barbuda. Ele pensava no Senhor que fora flagelado – e mais nos pobres que ele servia, e que decerto nesse dia sentiriam a sua falta. Todo o dia ficou assim cercado de lacaios, de cozinheiros, que deixavam o serviço para o vir ver. E no coração de alguns havia compaixão.
A noite desceu, escura, sem uma estrela. Então Cristóvão abriu os olhos. Os cães de fila, soltos, rondavam o pátio. A sentinela dormia, à porta, encostada à lança: e das altas ogivas do palácio vinha um clarão, e um rumor de violinos. Então Cristóvão retesou os músculos – e com grande ruído todas as correntes estalaram. Diante da grande forma erguida, os molossos fugiram, latindo. A sentinela, largando a lança, fugiu. E Cristóvão, de um só golpe de ombros fazendo estalar a porta, saltou o fosso, entrou nas ruas desertas. Mas de repente parou, pensando que se revelasse a traição do conde, o povo, os soldados, que o não amavam, lhe fariam mal, e, se a calasse, o conde, decerto o faria matar. Assim se ficasse, ou o seu sangue correria, ou correria o sangue dele por sua causa. E então Cristóvão dirigiu-se à grande porta da cidade. À luz de um retábulo da Virgem os soldados jogavam os dados. E vendo Cristóvão, perguntaram-lhe se o príncipe lhe dera uma bolsa, ou panos para um vestido. Cristóvão murmurou:
— O príncipe deu mais que eu esperava.
E passou, penetrou nos caminhos, deixando para sempre a cidade onde fora bom aos aflitos.
XI
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.