Por Eça de Queirós (1900)
- Rotinhas, rotinhas... Mas o se Dr. Júlio diz que me ficam assim bem. O Sr. Dr. Júlio, quando lápassa, sempre me tira o retrato na máquina. Ainda na semana passada... Até com uns pedaços de grilhões dependuradas do pulso, e uma espada erguida na mão... Parece que para mostrar ao Governo.
Gonçalo, rindo, picou a égua. Pensava agora em alongar por Valverde: depois recolheria por Vila-Clara, e tentaria o Gouveia a partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que ele na véspera, na Assembléia, convidara o Manuel Duarte e o Titó. Mas ao atravessar a "Cruz das Almas", onde a estrada de Corinde, tão linda, com as suas filas de álamos, cruza a ladeira de Valverde, parou - notando ao fundo, para o lado de Corinde, como o confuso esbarro de uma carrada de lenha, e uma carriola de açougue, e uma mulher de lenço escarlate bracejando sobre a albarda dum burro, e dois lavradores de enxada às costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou - a mulher trotando no seu burrinho, logo sumida numa volta de arvoredo; a carriola solavancando num rolo leve de poeira; o carro avançando para a "Cruz das Almas" a chiar tardamente; os cavadores descendo para uma chã através das leiras de feno... Na estrada só restou, como desamparado, um homem de jaqueta ao ombro, que se arrastava penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:
- Que foi?... Vossemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma face arrepanhada, quase desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de suor:
- Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes, meu Fidalgo! Ora o que há de ser? Desgraças destavida!
E, gemendo, contou a sua história. - Desde meses padecia duma chaga num tornozelo, que não secara, nem com emplastros, nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora andava arriba, na fazenda do Sr. Dr. Júlio, a consertar um socalco, para ajudar um compadre também doente com maleitas - e, zás, desaba um pedregulho, que topa na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa naquela lástima!... Até rasgara a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o lenço.
- Mas assim não pode andar, homem! Donde é vossemecê?
- De Corinde, meu Fidalgo. Manuel Solha, do lugar da Finta. Até lá, sempre me hei-de arrastar.
- E então, dessa gente toda, que aí estava há bocado, ninguém o pode ajudar?... Uma carriola,dois latagões..,.
Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna, arrancou um grito ao Solha. Mas sorriu, arquejando... Que queria o Fidalgo? Cada um, neste mundo, tem a sua pressa... Enfim, a rapariga do burro prometera passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos seus rapazes aparecesse na estrada com uma eguazita que ele comprara pela Páscoa - e que, por desgraça, também mancava!...
Imediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:
- Bem! Então, égua por égua, já vossemecê tem aqui esta...
O Solha embasbacou para Gonçalo:
- Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavalo, e V Exa. a pé?
- Gonçalo ria:
- Homem, com essas discussões de "eu a pé" e "você" a cavalo", e "faz favor" e "não senhor", éque perdemos um tempo precioso. Monte, esteja quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valeta da estrada, sacudindo a cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilégio;
- Isso é que não, meu senhor, isso é que não! Antes eu acabasse aqui à míngua, com a chagaem bolor!
Gonçalo bateu o pé, com autoridade:
- Monte, que mando eu! Vossemecê é um lavrador de enxada, eu sou um Doutor formado emCoimbra, sou. eu que sei, sou eu que mando!
E o Solha, logo submisso ante aquela força deslumbrante do Saber superior, agarrou em silêncio a crina da égua, enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de sangue.
Depois, quando ele repousou no selim com um ah! consolado:
- Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na gratidão e no assombro daquela caridade:
- Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na égua do Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a pé pela estrada!
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou pela quinta do Dr. Júlio, que agora se arrojara a obras e plantações de vinha. Depois, como o Manuel Solha conhecia o Pereira Brasileiro (que pensara em arrendar as terras do Dr. Júlio), conversaram sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da Cortiga. Já sem embaraço, direito no selim, no gosto daquela intimidade com o Fidalgo da Torre, o Solha esquecia a chaga, a dor que adormentara. E à estribeira do Solha, atento e sorrindo, o Fidalgo estugava o passo na poeira branca.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.