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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

O barão tinha um guarda-livros, que raras vezes me via, e perdia a cor se acertava de encontrar-se comigo. Era novo como eu, tinha uma fisionomia agradável e um acanhamento que me fazia supor que eu, na minha situação, ainda impunha respeito. Conheci então o amor, à força de pensar que sentimento seria o que ele me causava. Era eu quem já o procurava ver de longe, e me retirava, se o guarda-livros me surpreendia a observá-lo duma janela por onde, através do pátio, se via o escritório.

Alguém me denunciou ao barão, quando eu me julgava a resguardo da menor suspeita. O caixeiro foi despedido e a notícia deu-ma o barão com um riso sardônico e do mau intento. ‘Já sei o fim para que tu querias saber escrever’, disse ele. ‘Qual era?, acudi eu. Não respondeu.

Passados dias, achei uma carta no livro que andava lendo, emprestado pela mestra. Era do guarda-livros. Quem trouxera esta carta? Seria isto uma velhacaria traiçoeira do barão?! Não era. A mestra fora-me dada por informação do caixeiro e, a instâncias dele, me trouxe a carta, que não ousara entregar directamente.

Não me afligiu a temeridade do moço, que eu amava. Recebi a carta, agradeci-a à mestra, e respondi-lhe sem artifício, dizendo-lhe sinceramente que o amava; mas que entre mim e ele estava uma eterna barreira, levantada pela minha vergonhosa posição. Mulher que não amasse com toda a candura e inexperiência do que são verdadeiras vergonhas não escreveria tal carta. A mulher experimentada na infâmia finge sempre que não a incomoda a consciência de que a tem e nega aos outros o direito de cuidarem que ela se imagina infame. Penso eu que é verdade isto, pelo que tenho aprendido de mim própria.

O guarda-livros respondeu-me admirando-se que eu visse tal barreira entre nós, quando ele meditava em me fazer sua esposa. Desde que li esta segunda carta, senti-me doida de esperanças felizes; apaixonei-me pelo homem, que me não via ás nódoas da desonra: não era já amá-lo, era adorá-lo na minha imaginação.

E, ao mesmo tempo, tamanha aversão me fazia o outro de quem o meu corpo era escravo que já mal podia dissimulá-la.

Conseguiu Augusto que eu lhe falasse, quando saísse a passeio. Mandei pôr os cavalos à sege quando o barão estava fora. Apeei-me em S. Pedro de Alcântara e desci ao jardim, onde Augusto me esperava. Balbuciou a repetição do que me tinha escrito, sem ousar tocar-me a trêmula mão, nem eu ousava oferecer-lha. Conheci que a minha riqueza o humilhava, lembrei-me então que aquele rapaz, se me visse numa pobre casa com modestos trajos, havia de amar-me expansivamente! Que falsos juízos forma o coração que se não vendeu o corpo. Que grande bem seria poder a mulher despojar-se da pureza da alma quando se desonra!

O barão teve aviso de que eu me encontrara com o guarda-livros. Nada mais natural! Como cuidaria eu que os criados me não espreitassem! Cegava-me a razão, o amor e o desejo impetuoso da liberdade. Já se me não dava que ele o soubesse e me expulsasse. Jussara até comigo de lhe dizer a verdade, provocando-me o barão a dizê-la.

Foi o que sucedeu. À primeira queixa do homem assanhado pelo ciúme respondi que certíssimamente amava Augusto; que queria passar do crime faustoso para a virtude na pobreza; que era muito infeliz na vida que tinha; e que só com amor se podia suportar a vergonha de ser banida da sociedade.

Espantou-se do meu desembaraço o barão e cobriu-me de injúrias; das injúrias passou às lágrimas; das lágrimas tornou aos insultos; e quando eu menos podia esperar uma vilania sem nome, deu-me uma bofetada. Levei as mãos ao rosto e quase perdi os sentidos. Quando abri os olhos, desvariados de angústia, o barão estava ajoelhado aos meus pés e dizia: ‘Eu não sou, há muito, teu marido porque não posso sê-lo, porque nunca te disse que sou casado e que tenho a mulher no Brasil. Espera que ela morra, e então serás minha mulher. A sociedade te respeitará então o título, a riqueza e a virtude de me teres sido fiel.’

Não sei que mais lhe ouvi, que parecia aumentar o sentimento de abominação agravado pelas súplicas depois do insulto. Afastei-me e escrevi-lhe, a despedir-me. Devia de ser-lhe nova e aflitiva surpresa quando viu a minha carta escrita com boa letra e rancorosa eloquência com que eu lhe atirava ao rosto a desestima em que o tinha, já convertida em desprezo.

Dum arremesso, entrou no meu quarto. Trazia um par de pistolas aperradas: tive-lhe medo e horror quando ele gritou: ‘Uma para te matar e outra para mim!’ ‘Que mal fiz eu para morrer?!, exclamei com ânsia de quem quer e pede a vida.

V

- Menti-lhe para me livrar das baixezas suplicantes e das ameaças. Prometi deixar Augusto e ficar na companhia do barão. Pediu-me que escrevesse uma carta ao caixeiro, segundo ele ma ditasse. Recusei. Ameaçou-me de novo; vendo-me, porém, resistente e já disposta a morrer, tornou às branduras e desistiu da carta, como coisa inútil depois da minha promessa.

No mesmo dia, brindou-me com um alfinete de diamantes e mandou-me preparar para irmos viajar. O meu plano estava formado: respondi a tudo que sim.

(continua...)

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