Por Camilo Castelo Branco (1864)
"Reconheci a voz de Teodora. Mafalda sentiu o tremor de meu braço e reconheceua também de instinto. "Desviei-me do caminho trilhado para seguir avante. Teodora deixou cair a dobra da capa, em que ocultava meio rosto, e disse num tom arrogante: "Veja, Sr. Afonso de Teive! Veja, que ainda sou formosa! O coração está esmagado; mas a face ainda conserva as graças que poderiam arrebatar maior alma que a sua."
"Deteve-se alguns segundos arquejantes; eu ouvia-lhe o latejar do alto seio no frémito de seda do comete. Depois, com um gesto de arremesso, lançou-me aos pés um volume e afastou-se a passo rápido. "Levantei o objecto arremessado e conheci que eram papéis e um objecto de mais solidez; deviam de ser as minhas canas. O restante que seria?!
"Mafalda ia murmurando: "Que mulher, Santo Deus! Que ousadia!... Eu bem desconfiava que era ela. Quando tu estavas a dormir esta tarde, vi passar esta mesma criatura, assim encapotada sobre um grande cavalo, com um criado de farda. Tua mãe tinha-me dito como a vira em Leça, e meu pai descreveu-ma tão pelo miúdo, que a adivinhei. Não to disse, e pedi a Deus que te levasse depressa daqui...." "Não receies, minha boa prima", disse eu a Mafalda, "que esta mulher na minha vida, já agora, apenas pode ser um estorvo de três minutos, quando eu passeio nas Caídas." Minha prima replicou: "Não te iludas, meu primo: esta mulher é a tua sina maldita."
"Sorri-me e fui examinar o pacote. Eram as cartas cintadas com uma fita preta, e desta fita pendia uma pequena chave; era também uma caixinha de tartaruga fechada. Entendi que a chave pertencia à caixa. Abri-a; e vi uma trança de cabelos, com três flores ressequidas compostas entre as madeixas, como se as estivessem enfeitando. Reconheci as três flores: tinha-lhas eu levado do jardim de minha mãe, em dia dos seus anos. "Tirei a trança e, insensivelmente, a contemplá-la, achei que a tinha perto dos lábios. Circunvaguei os olhos, a examinar que me não vissem. Estava sozinho e fechado... Beijei os cabelos de Teodora, meu amigo! Peço-te desculpa de não corar agora: consinto, porém, que, se alguma vez escreveres esta história, ponhas seis pontos de admiração, quando chegares aqui, e discorras o melhor que souberes e puderes acerca da miséria do bruto que chora, e beija tranças de cabelos, do bruto que ri de seu mesmo vilipêndio, do bruto, enfim, chamado homem.
"Ia depor as madeixas no cofre, receoso de alguma surpresa, e então vi um papel dobrado no fundo da caixinha. Era uma cana. Escondi-a sofregamente. fechei os cabelos, escondi o cofre e as minhas canas no saco de noite e, palpitante de comoção, saí do meu quarto e fui respirar no escuro de uma varanda, onde presumia não encontrar alguém.
"Apenas sorvi um hausto de ar, que me chegou ao coração impregnado das auras balsâmicas da minha mocidade, ouvi um respirar alto e tremente.
"Fui à extrema da varanda e vi minha prima, com as faces entre as mãos, repuxando ao seio os soluços com ansiada violência. Chamei-a carinhosamente. Interroguei-a. Quando bem a compreendi, não sei dizer-te que entranhado compungimento me cortou a alma! Caíram-me nas mãos as lágrimas de Mafalda... Perguntei-lhe porque chorava. Respondeu-me: "São as primeiras lágrimas: é por ti que as choro, meu primo. Deus deixate perder - -. Não há ninguém que te possa salvar daquela mulher." E, desprendendo-se das minhas mãos, fugiu a soluçar.
"Eu levantei os olhos ao Céu e disse, em meu espirito, com tenor quase infantil: "Não deixeis que eu me despenhe no mesmo abismo de onde a Vossa misericórdia não tem querido salvar-me!"
"E cuidei que o Céu se abria à minha oração com um milagre. "A imagem de Teodora passou ante mim; via-a repulsiva, abjecta, vilíssima e prostituída. Súbito, num disco luminoso, desenhou-se-me o vulto angelical de Mafalda, com a face em lágrimas, humilde como uma santa e ao mesmo tempo altiva como a virtude sem nódoa.
"Amei então minha prima; todas as estrelas do céu ma estavam bem-fadando para mim; todos os rumores da noite diziam comigo um hino ao Senhor que me descativara das ciladas da mulher fatal, que no descaro mesmo da sua audácia me fascinara e com aqueles cabelos tecera o baraço de estrangulação da minha dignidade.
"Fui, fervoroso de ternura, em busca de minha prima. Encontrei-a à cabeceira do leito de seu pai. Chamou-me o tio para os pés da sua cama. Sentei-me com inquieta alegria. O velho achou-me outro em olhar, em tom de voz, em ar de rosto. Queria saber o segredo da transformação. Perguntava a Mafalda se o sabia. A menina sorria com aquela distinta angústia que lacera a alma sorrindo, porque as lágrimas só servem para exprimir os sofrimentos comuns.
"Assisti ao chá de meu tio, pedi-lhe a bênção e recolhi-me ao meu quarto. Minha prima despediu-se de mim sem me fitar no rosto. A sua natural altivez sofria, depois que a surpreendera chorando, provavelmente. Este resguardo aumentou a divinização de Mafalda.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.