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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

O livreiro Jacinto é que está desanimado...

Gostava muito mais de ver o senhor Afrânio tomar para orago o senhor

Deiró.

Para um homem do mundo, como o senhor Afrânio constitui, ao que nos disseram, uma boa recomendação.

O mais original da novata academia de Salvador é que ela não se contentou com quarenta membros.

Criou mais um, como contrapeso ou como se chama, em linguagem de varejista ou quitandeiro: “quebra”.

E, para esse fauteuil “de quebra”, a academia da Bahia escolheu o senhor Arlindo Fragoso, cujo patrono é Manuel Alves Branco.

E preciso observar que não foi o senhor Arlindo quem escolheu o padrinho; foilhe imposto.

A Academia Brasileira começou com escritores, por patronos, também escritores; e vai morrendo suavemente em cenáculo de diplomatas chics, de potentados do “silêncio é ouro”, de médicos afreguesados e juízes tout à fait.

A da Bahia, vindo depois, não quis percorrer as etapas da sua antecessora. Começou logo com um sarapatel de todos os diabos e... esqueceu-se de Caetano Lopes de Moura , o primeiro editor do Cancioneiro do Vaticano ou D’El Rey Dom Denis, como ele batizou o códice da biblioteca papalina.

Cozinha baiana...

A.B.C., Rio, 31-3-1917.

CARTA FECHADA – MEU MARAVILHOSO SENHOR ZÉ RUFINO

Eu lhe escrevo esta carta, com muito desgosto, pois interrompo a série de impressões que vinha escrevendo sobre o país da Bruzundanga. Mas vossa excelência merece semelhante interrupção. Vossa Excelência é

o mais cínico dos sujeitos que se fizeram ministro de Estado. Nem o Calmon, que se fez agora cadete, para ver se arranja um lugar de ministro de qualquer coisa, é igual a vossa excelência.

Ministro, meu caro e excelentíssimo senhor Zé Rufino ou Chico Caiana, é um cidadão investido de certas e grandes autoridades para prever as necessidades públicas; ministro, Rufino, não é um reles especulador!; ministro, Chico da Novilha, é alguma coisa mais do que um simples agiota.

Agora você (mudo de tratamento), fez-se ministro para ser caixeiro de um reles sindicato de judeus belgas e mais ou menos franceses, para esfomear o Brasil e ganhar dinheiro.

É muito justo que vocês queiram ganhar dinheiro; é muito justa essa torpe ânsia burguesa de ajuntar níqueis; mas o que não é justo, é que nós, todo o povo do Brasil, dê prestígio a você, ministro e secretário de Estado, para nos matar de fome.

O Amaral, aliás diretor, como está no cabeçalho, ali do Correio da Manhã, com o seu receituário enciclopédico, já disse que você trata de coisas práticas. É a mesma coisa que um ladrão, meu amigo, disse-me uma vez! “Só trato de coisas práticas.”

Não preciso, portanto, ter a grande ciência do Amaral, a sua estadia na Europa, o seu saber em inglês e arte de fórmulas, para dizer que o Zé Rufino é a primeira coisa deste mundo.

Nasci sem dinheiro, mulato e livre; mas se nascesse com dinheiro, livre e mesmo mulato, fazia o Zé Rufino meu feitor da fazenda.

Não há destino que lhe caiba mais; vai-lhe como uma luva do Formosinho.

Bezerra, alvar, mais do que ignorante, autoritário, babosão, um lugar desses lhe vinha a calhar.

A República do Brasil não podia ter ministro mais representativo.

Um secretário de Estado, um auxiliar do seu presidente, cuja única cogitação é auxiliar a judiaria dos falsos produtores do açúcar para empobrecer o seu povo, só deve merecer medalhas e recompensas.

O Amaral naturalmente vem com algarismos e negócios de economia política, para afirmar que o Rufino tem direito a fazer semelhante coisa quando ministro de Estado.

Eu, porém, não tenho medo nem dos algarismos nem dos negócios do Amaral; e, se o Azevedo quiser, estou disposto a responder-lhe em qualquer terreno.

Amaral estudou essas coisas de sociologia, não como médico, mas como boticário. O que ele sabe não é anatomia, não é patologia, não é terapêutica, não é botânica, não é química. Ele sabe o formulário; e, como tal, acha o Rufino um homem extraordinário, prático, tão prático que está achando meios e modos de matar a nossa gente pobre de fome.

O açúcar, produção nacional, a mais nacional que há, que é vendida aos estrangeiros por 6$000 à arroba, é vendida aos retalhistas brasileiros por mais de 1O$000.

Sabem quem é o chefe de semelhante bandalheira? É o Zé Rufino Bezerra Cavalcanti – Cavalcanti, com “i”, porque ele não é mulato – graças a Deus!

Semelhante tipo, semelhante ministro de Estado, de mãos dadas com belgas e outros vagabundos mais ou menos franceses, é que merece a admiração enternecida do Amaral e do seu amigo Edmundo ou, como chamam lá os seus criados, doutor Edmundo.

Amaral, tu és notável, tu tens talento, tu és doutor, tu possuis tudo para ser um grande homem. Não sei se tu tens vícios; eu os tenho; mas tu não tens – é sinceridade.

(continua...)

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