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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

No largo do Rocio era grande o movimento. Os cafés regurgitavam — era o povo dos domingos: o operário, o caixeiro, o marujo, aproveitando, com ânsia, o dia de folga. Vinham do campo, chegavam dos subúrbios fartos, alegres; uns que haviam apostado, com felicidade, nas corridas; outros que se haviam banqueteado, num canto rústico de arrabalde, à sombra da latada verde e iam acabar a noite no teatro, aplaudindo atrizes, cobrindo o palco de flores, rindo, saciando um desejo refreado durante uma longa semana no quarto estreito do armazém ou no cubículo da oficina.

Rapazolas passavam em turmas com grandes ramos ao peito, chuchando imensos charutos, fazendo algazarra. E triste, encostado a uma esquina, com uma pequenita sonolenta ao lado e um cão estirado aos pés, um velho cego, de compridas barbas brancas, com um realejo suspenso ao pescoço, tendo sobre a tampa um pires, voltava maquinalmente a manivela, moendo a Marselhesa.

Anselmo parava à porta de todas as casas, espiava e via um povo diferente do que ali costumava aparecer nos dias comuns. Nem um só dos rapazes: era uma gente nova, desconhecida, como se houvesse chegado de longe, caminhando, logo ao pisar a terra, em grande necessidade de expansão e de movimento, para as casas de prazeres onde bebesse e, calmamente, seguramente, comentasse os perigos de que saíra, os sustos que havia sofrido, as privações por que havia passado.

O homem das empadinhas urrava desesperado: "Empadinhas de camarão...

estão quentes!" e, à porta do teatro, o povo apinhava-se, apertava-se, avançando arrastadamente, comprimido. Entrou.

O porteiro ruivo pediu-lhe o bilhete; ele, porém, lembrando-se do que lhe havia dito Ruy Vaz, atirou, com orgulho, o título de um jornal e passou.

Havia enchente. O jardim fervilhava e era um rumor confuso de vozes altas, estrondosas gargalhadas, estouros de garrafas. Cocottes, às duas, às três, de braço dado, iam e vinham; na platéia e nas torrinhas, era um bater estrepitoso de pés e de bengalas. Na orquestra os músicos afinavam os instrumentos quando a campainha retiniu e houve como uma inundação de luz e um grande "oh!" encheu o teatro com a expansão de todas aquelas almas ansiosas.

Subiu o pano. Anselmo, junto à orquestra, entalado entre os curiosos, muito espichado, procurava descobrir Amélia, mas a atriz não havia ainda aparecido, o coro apenas vozeirava. Rompeu uma salva de palmas... Seria ela? esticou-se: não, era o Vasques, todo de amarelo, com um girassol à cabeça. Mas uma pancada metálica de gongo vibrou sonoramente, espiou e sorriu, com o coração à boca. Era Amélia, de fada, iluminada por um jorro de luz, num carro tirado por dois cisnes. Vestia túnica recamada de pedrarias, à cabeça o diadema encimado por uma estrela que cintilava, em punho a vara mágica, braços nus, as pernas no maiô muito justo, coturnos nos pés... Divina!

Ele esforçava-se por conseguir tomar a frente ao grupo para que ela o visse, mas não podendo vencer a barreira humana, resignou-se a ficar em pontas de pés, angustiado, suando, a ouvir, com delícia, as palavras proféticas que ela ia dizendo aos da corte do rei, um monarca pançudo e ridículo, que caminhava aos saltinhos agarrado aos ministros... E com outro estrondo metálico Amélia desapareceu.

Que mais tinha ele a fazer ali naquela espécie de lugar? Retirou-se, com a mão no bolso, apalpando o dinheiro, receoso de que algum gatuno astuto o levasse, deixando-o desprevenido para a ceia.

No jardim encontrou o Duarte, a rir, num grupo de mulheres. Chamou-o à parte e, narrando-lhe a aventura em que estava empenhado, pediu o seu auxílio, mas o poeta estava in albis, tinha apenas o níquel da passagem. Olharam-se; de repente, porém, o autor das Boêmias disse com segurança:

— Espera-me aqui. Vou ver uns casos. E foi-se. Anselmo, posto que ardesse em sede, não se atrevia a tocar no dinheiro que reservava avaramente para a ceia. Foi ao balcão e, não sem vexame, pediu um copo de água. Começava o terceiro ato. O estudante já estava resignado à sua fortuna módica, quando o Duarte reapareceu esbaforido:

— Ah! meu amigo, que trabalhão! — e passou-lhe um rolinho sorrateiramente, segredando: Tens aí dez. Mas não te metas mais em complicações aos domingos. O domingo é um dia impossível: as nossas carteiras não aparecem, ficam repousando nas chácaras, de paletó branco e chinelas. Faze tudo quanto quiseres da segunda-feira ao sábado e descansa ao domingo, porque o Senhor mandou e porque não há meio de arranjar-se um níquel. Suei para conseguir essa miséria: tive de ir à rua da Candelária recorrer a um amigo. Felizmente encontrei-o à porta tomando fresco.

— Achas que com vinte e cinco posso fazer alguma coisa? — perguntou Anselmo.

— Isso é uma fortuna, homem de Deus! Podes até mandar abrir meia garrafa de champanhe e comprar um maço de cigarros para mim. Vou contigo.

— Tu! — exclamou o estudante aterrado.

— Tens ciúme?

— Não, não é ciúme, mas a quantia... para três.

(continua...)

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