Por Raul Pompéia (1880)
— Na noute de 13 deste mês, começou ele, o calor que fazia não me deixava conciliar o sono. Eu levantei-me pelas onze horas e saí da casa. em busca de ar fresco. Pus-me a vagar pelas vizinhanças da minha morada. Alguns minutos depois ouvi um rumor estranho. Àquela hora a noute estrelada ainda carecia de lua, mas não estava escura. Eu vi um vulto passar correndo a alguns passos de distância do lugar onde eu estava. Quem seria? Acabava ele de entrar na povoação, ou ia sair dela?
"Com a curiosidade despertada, eu encaminhei-me rápido para a viela onde vira o vulto desaparecer. Avistei-o ainda andando depressa e voltando repetidas vezes a cabeça. Ele deu com a minha presença, pois que, afrouxando os passos, saudou-me:
"— Boa noute, senhor padre.
"Eu conheci-lhe a voz.
"— Boa noute, meu filho, respondi.
"E, admirado de ver o menino a tais horas fora de casa, continuei:
— Está passeando... Não é?
— Estou, como o senhor, disse-me ele.
"A explicação dada não era muito aceitável. Eu porém não pedi-lhe outras e, depois de vê-lo entrar na sua habitação, voltei para a minha...
"Disse que o tal vulto era um menino. Era-o de fato... Um rapazinho louro, que está em S. João do Príncipe pouco mais há de dous anos... O filho de um naturalista francês, que lá o deixou quando passou pela povoação e que agora percorre o norte desta província, à cata de plantas desconhecidas ou raras, dando expansão ao seu gênio, que ele mesmo chama aventuroso."
— Otávio Dugarbon! gritaram uníssonos Eustáquio. sua mulher e Rosalina. — Sim, Otávio Dugarbon, confirmou o padre Jorge. Era ele.
"No dia seguinte, pelas seis horas da manhã, eu o vi de novo. Chamei-o. Ele veio à minha casa. Beijou-me respeitosamente a mão e me interrogou com os olhos. — Você quer saber, disse-lhe eu, depois que nos assentamos, porque o chamei. Não é?" — Sim senhor, respondeu ele.
— Eu tenho desejo de saber o que fazia você, ontem à noute, fora de casa... Diga a verdade... Eu não creio na tal história de passeio com que me quis iludir ontem.
"Otávio abaixou o rosto, que lhe enrubescera e ficou calado, olhando para as mãos.
"Julguei que o houvesse ofendido.
"— Está zangado comigo? perguntei-lhe, suavizando mais a voz. Não está
.... Então fale...
"O menino encarou-me com os olhos úmidos e, extremamente perturbado, murmurou:
"— Não posso...
"É fácil imaginar quão grande era o meu interesse em descobrir o segredo do menino. Não sei que voz íntima me dizia que esse segredo estava por qualquer forma relacionado com os fatos que têm sucedido nesta casa... Aquela obstinação de Otávio em calar-se vinha sobretudo me aguilhoar de modo insuportável a curiosidade. Devo ainda lembrar que o filho do francês, fazendo-se meu amigo logo após a sua chegada em S. João do Príncipe, juntara a essa amizade uma veneração e uma confiança que me enterneciam. Só um motivo fortíssimo o poderia coagir a ocultar-me qualquer cousa.
— Vamos, meu filho. Pedi-lhe. Fale... Porque não me faz este favor.
Otávio fez então um movimento de resolução e falou:
"— Senhor padre, eu não devo ter segredos para com o ....mas um receio me tem impedido de ser inteiramente franco nas conversas...
— O que é que receia, Otávio?
— Senhor padre, eu fiz um juramento, cujo o cumprimento aliás não implica más ações, contudo...
— Receia que eu não o deixe cumprir?!
Otávio guardou silêncio. Neste silêncio adivinhei uma resposta afirmativa e acrescentei:
"— Otávio, os juramentos proferidos em um momento de irreflexão e cujo cumprimento está acima das nossas forcas não obrigam..."
"— Mas o meu juramento... eu posso cumpri-lo!... E, até, já o tenho cumprido em parte."
"— Então o que receia?... De modo nenhum me oporei aos seus atos... pelo contrário! eu os facilitarei como puder..."
"'— Muito lho agradeço, disse-me ele. Vou revelar-lhe tudo..."
O padre Jorge repetiu então o que lhe referira Otávio, isto é, aquilo que os seus ouvintes mais ansiavam por conhecer, para que se certificassem de que não era inexata uma suposição que as palavras do sacerdote já lhes haviam inspirado...
Quando Henrique Dugarbou ao retirar-se de S. João do Príncipe se despedia do filho, viu na mão do menino um pequeno objeto. Era o brinco de coral com que a protegida do Eustáquio mimoseara o seu amiguinho de uma tarde.
— Onde achaste isto, Otávio? perguntou o viajante com estranha vivacidade.
Otávio, não tendo mostrado a seu pai o presente que recebera e acreditando que ia ser censurado, respondeu timidamente:
— Foi a filhinha do subdelegado.
Estas palavras foram trocadas à porta da habitação de um amigo de Henrique Dugarbon, onde tinha de ficar Otávio.
À resposta do menino, a fisionomia do viajante deixou transparecer inexplicável alegria.
Henrique Dugarbon, ficando à sua espera os quatro homens que o deviam acompanhar nas suas viagens, entrou de novo na habitação, puxando Otávio pelo pulso.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.