Por Domingos Olímpio (1903)
— Quase morro... – respondeu ela, comprimindo os quadris magoados – Nunca mais... me meto em outra... Credo!... Quem de uma escapa...
— Que houve?... Que te aconteceu?...
— Um horror!...
— E o respônsio?...
— A Rosa rezou...
— O ladrão não é Alexandre...
— Não sei...
— Fala, mulher, pelo amor de Deus. É preciso que a gente esteja a te espremer...
— Ainda tenho a cabeça meia atordoada e as pernas lassas... Sinto ainda uma dor aqui nas cadeiras...
Teresinha gemia as palavras e contorcia-se em requebros lascivos e dolentes. Depois, fixando, com esforço, as idéias, que lhe giravam dispersas no cérebro, como reminiscências de fatos remotos, fez a narrativa dos episódios da bruxaria, com minúcias exageradas, tocadas do forte colorido de fetichismo e alucinação.
— Quando vi, minha negra, as horrendas figuras crescerem dançarem como demônios do inferno, são os ladrões – disse comigo – mas não lhes pude divisar bem as feições, tantas e tão feias era as caretas que me faziam. Parecia um bando de papangus.
— E não os reconheceu?...
— Qual!... Aquilo foi, por força, arte do cão... Que horror!.. Disse-me a Rosa que esperasse com fé... Vamos ver...
— Descansa... É possível que, depois de assentares o juízo, te lembres melhor...
— Ninguém me tira da cabeça que aquela esconjurada, meu Deus perdoaime, botou-me coisa ruim no corpo...
— Não pensa nisso, criatura... Você está nervosa.
— Isto é doença de moça rica...
— Doença não quer saber de branco nem de preto, não respeita fortuna nem pobreza... Venha cá – acrescentou, empolgante, com o olhar áspero e desconfiado – Você viu alguma coisa, mas não que ser franca...
Teresinha fez com a cabeça um gesto negativo, e sentou-se acabrunhada. Luzia continuava a contemplá-la ansiosa. Seus olhos reluzentes de aflição, exprimiam a esperança no milagre e a revelação anelada para restaurar a honra de Alexandre, e restituí-lo à liberdade...
Quanto tempo teria ainda de esperar? Quantos dias e quantas noites seria ainda o mísero obrigado a passar entre aquelas quatro paredes infectas?... E se não fosse possível salvá-lo; se a justiça descobrisse provas contra ele; se, na verdade, fosse o culpado de tão feio crime?!...
Tais dúvidas empanavam, como nuvens fugaces, o atribulado espírito de Luzia.
Alexandre teria energia para suportar a prisão, o vilipêndio da pena infamante; ela, porém, não se podia conformar com a idéia de reconhecê-lo criminoso, acusado de ladrão e maculado para sempre. Preferiria vê-lo morto, estirado no chão, fulminado por um corisco.
— Ninguém me tira da cabeça – acentuou Teresinha, emergindo da prostração que a subjugara – que aquilo é obra de soldado...
— Também eu – ajuntou Luzia – já pensei nisso... Um homem, como Alexandre, não teria astúcia para tanto... Além disso haviam de, por força, desconfiar dele...
— Com efeito... Era preciso ser muito besta para furtar coisas do armazém, fazendas, mantimentos, dinheiro...
— Sim, coisas que davam logo na vista... Quem só vive do trabalho, que mal dá para o de-comer e arranjar um molambo para cobrir, não poderia esconder semelhante furto... Quando aparecesse com roupa nova ou fizesse gastos...
— É mesmo. Perguntava-se: onde foi o fogo, onde arranjou isso?... Quem cabras não tem e cabrito vende... Eu, por mim, não se me dava de jurar que não foi Alexandre... Gente que tem furto na consciência não olha direito para os outros... Cara de ladrão não me engana...
— Ah! Teresinha!... É Santo Antônio quem está falando pela tua boca... Os anjos digam amém...
— Tanto hei de teimar que descobrirei tudo... Não é a primeira nem será a última vez que eles fazem das suas e botam a culpa nos outros...
Ocorreu, então, a Luzia o que lhe havia dito Alexandre, aludindo em termos vagos, a uma intriga que não queria revelar diante do outros presos. O Promotor também lhe falara, com meias palavras de uma pequena complicação, naturalmente alguma coisa desfavorável, algum indício de culpa... Que seria?... Que intervenção diabólica frustara o milagre, perturbando a visão de Teresinha, lhe ofuscando a memória? Quem sabe se ela não vira o ladrão e, por natural delicadeza, se esquivava de lhe patentear a dolorosa realidade para não a magoar, privando-a do inefável conforto da esperança com a desilusão e a tristeza esmagadora de deparar a verdade fria e implacável?!
A razão é a luz; a dúvida é a treva, congeminação de contrastes engendrados pela mesma causa. Felizes os irracionais, porque não duvidam.
Apesar da sua energia máscula, ela se sentia aniquilada, num colapso de nervos enrijados à contínua tensão de tantas amarguras e cuidados, vexames, a pobreza, duras privações de haveres, a moléstia da mãe, o pressentimento de perdê-la a qualquer momento e a obsessão do soldado, além da orfandade, o desamparo pela prisão de Alexandre, a única pessoa que a poderia ajudar a viver.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.