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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

— É um precioso e sagrado manitó, que me legaram meus pais, respondeu-lhe Gonçalo, é ele quem me protege, e noite e dia vela sobre meus passos, e quem leva minhas rogativas até o trono do Grande Tupá. Sem ele há muito teria sucumbido aos imensos trabalhos e perigos que me têm atribulado a existência.

Dizendo isto Gonçalo levou aos lábios respeitosamente a santa imagem, e a apresentou à filha de Oriçanga, para que fizesse o mesmo. Guaraciaba imitou-o com gesto tímido, e disse:

— Eu também quisera ter um lindo manitó como este; mas dar-se-á caso que ele também me proteja, como protege a ti?

— E por que não, uma vez que o veneres com sincero amor e respeito, e invoques com fé viva a sua proteção? Se ele atende à rogativa do infeliz foragido, a quem as paixões e os desatinos da mocidade arrojaram num pego de desgraças, muito mais piedoso ouvido prestará sem dúvida à tímida súplica da casta e formosa virgem do deserto. Tu o terás um dia, eu to prometo, e sentirás os salutares efeitos de sua miraculosa proteção.

Guaraciaba, que desde a primeira vista sentira pelo jovem estrangeiro uma súbita e viva afeição, ingênua e singela como todas as filhas da floresta, abandonava-se sem escrúpulo a esse sentimento, de que apenas tinha consciência e nem procurava dissimulá-lo. Sua união com Inimá, a quem ela não votava nem ódio nem afeição, era apenas um projeto de família, de que ouvia falar desde o berço, e do qual na infantil singeleza de sua alma não compreendia ainda nem a importância nem o alcance, e assim a inocente dando folgas a essa paixão, que começava a germinar com intensidade em seu coração, mal pensava que criava um insuperável obstáculo à sua união com o jovem cacique. Não assim Gonçalo, que não podendo ser insensível a tão casto e tão sincero amor da virgem indiana, bem previa que esse amor devia tornar-se um dia a origem de tristes complicações e fatais conflitos, e olhava com inquietação para o futuro, que antevia eriçado de dificuldades e perigos; por isso quase sempre uma nuvem de tristeza pairava em sua fronte grave e pensativa.

CAPÍTULO V

O TRANSVIO

Logo que Itajiba mais vigoroso se achou em estado de encurvar um arco e ensaiar seus passos pelas sendas da floresta, Guaraciaba, para distraí-lo de sua inação e dos cuidados que pareciam atormentá-lo, convidou-o a um passeio e caçada de aves pelas selvas circunvizinhas. Itajiba teve logo ensejo de mostrar sua maravilhosa destreza em atirar a flecha, com grande prazer de Guaraciaba, que saltava de contente conduzindo para a sua taba uma chusma de avezinhas de variadas cores, derribadas pelas certeiras flechadas de Itajiba.

As roupas velhas e dilaceradas, que Gonçalo trouxera consigo, já não podiam servir a Itajiba; tendo de ser adotado na tribo dos Chavantes forçoso lhe era que se trajasse à maneira dos selvagens. Guaraciaba, auxiliada por suas companheiras, incumbiu-se de vesti-lo e armá-lo com todo o esplendor do luxo selvático. Uma túnica, que lhe descia até os joelhos, enfeitada de penas de brilhantes cores, lhe rodeava a cintura; um carcás formado de pele de uma monstruosa jibóia lhe pendia dos ombros recheado de mortíferas setas.

Em vez do chapéu de couro sombreava-lhe a fronte um diadema de plumas ondulantes de vistosas e brilhantes cores. Um rico tacape e um bem trabalhado arco, que Guaraciaba despendurou da sala de armas de seu pai, foram por ele empunhados. Em forma de manto a pele mosqueada de um enorme jaguar lhe caía pelas espáduas. A estes trajos selváticos Itajiba, pouco afeito a trazer os membros expostos aos rigores do tempo, ajuntou uns borzeguins ou polainas de pele de sucuri, impenetrável à umidade, agasalhou os ombros e o peito com uma espécie de gibão estreito feito de macias e finas peles, apertou o seu cinturão de couro de lontra, ao qual prendeu a sua larga faca, e com estes trajos pareceu aos olhos de todos garboso e belo como um verdadeiro príncipe das florestas.

Os passatempos e caçadas de Itajiba e Guaraciaba repetiam-se todos os dias, e o tempo assim lhes corria suave, como as ondas serenas do pátrio rio à sombra dos arvoredos seculares, e sua mútua afeição, alimentada por aqueles solitários entretenimentos, de dia em dia se aumentava, sem que eles se apercebessem, e se expandia como a flor ignorada e sem nome, que exala seus perfumes na solidão. À medida que cresciam as forças de Itajiba, esses passeios foram-se alargando a maiores distâncias, já deslizando vagarosamente em uma leve piroga ao longo das umbrosas ribanceiras, já pelas veredas escondidas da floresta; e pelo caminho Itajiba fazia cair aos certeiros tiros de seu arco a arara azul ou encarnada, a alva garça, rainha dos lagos, o róseo colhereiro, cujas penas são tão estimadas, o tucano de enorme bico, cujo peito rubro é procurado para enfeite da túnica das virgens, o jaó, o inhambu, a capoeira, cujas carnes são tão tenras e saborosas, e mil outras aves, de cujas lindas penas Guaraciaba com suas hábeis mãos compunha vistosos ornatos para as armas de seus guerreiros.

(continua...)

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