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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Restaurando a sua saleta de pasto, Perpétua Mineira não zelou mais e como dantes o seu proceder honesto, e ainda o repetirei casto depois do erro: fingida ou realmente alegre, faceira e garrida escapou apenas às abjeções do vício venal, mas desceu às baixezas da impudicícia por amores, cuja duração era marcada pela sua inconstância e pelo seu capricho.

A jovem mineira parecia feliz; era tão fácil e freqüente o riso em seus lábios, que às vezes até ria fora de propósito; além disso, notava-se que ela, tendo mandado preparar no quintalzinho de sua casa canteiros de jardim, só cultivava nesses canteiros perpétuas, a flor do seu nome; exclusivamente, porém, perpétuas roxas, a flor das sepulturas ou da morte.

Entretanto, Perpétua Mineira adquiriu celebridade imodesta na cidade do Rio de Janeiro, e entre os seus sucessivos amantes contou o Belo Senhor, e dizem que (muito às escondidas e com imposição de segredo) o Vice-Rei Luís de Vasconcelos, que foi sempre muito mais cauto do que o Marquês de Lavradio.

Por fim, em 1787, apareceu-lhe em casa José Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que já não era moço, nem distinto por beleza varonil, mas que impressionava a quase todos por arrebatamentos apaixonados, pelas expansões francas e ardentes do sentimento, pela coragem, pelo entusiasmo fácil, e até pelas leviandades e estouvamentos de seu ânimo imprudente, e a que faltava sobretudo o bom-senso.

O Tiradentes inflamou-se de amor pela bela Perpétua, e esta perdidamente se apaixonou por ele.

Capricho ou predileção de mineira?...

É quase ou de todo insensato pretender arrasar segredos de sentimento.

Perpétua amou o Tiradentes, amou-o terna e fiel, e desde então ria-se ainda; mas só a propósito: nenhum outro homem pôde mais passar além da saleta de pasto para o interior da casa, nem mesmo (dizem) aquele que a horas mortas de noite às vezes entrava misterioso.

Pode-se amar deveras mais de uma vez na vida?... pode haver outro depois do primeiro amor que enche e perfuma completa e perfeitamente o coração?...

Perpétua não ousaria responder, porque depois do seu primeiro amor amava ternamente o Tiradentes; mas, cumpre dizê-lo, amante estremecida e fiel do Tiradentes, ela continuou sempre a cultivar no seu quintalzinho perpétuas e exclusivamente perpétuas roxas.

As ligações de Perpétua e do Tiradentes duravam com interrupções longas pelas ausências deste, mas com exemplar fidelidade respeitadas por ela já há dois anos, quando em 1789 aquele conspirador indiscreto chegou à cidade do Rio de Janeiro e no fim de alguns dias, na véspera de sua volta para Vila Rica, revelando à amante o segredo da conspiração mineira, em terna despedida, pediu-lhe que colhesse e lhe desse uma perpétua, a flor do seu nome, como lembrança de amor.

A bela jovem cortou um basto anel de seus cabelos, e, dando-o ao Tiradentes, disse-lhe:

- Dou-te melhor lembrança: a perpétua não, não! olha: só tenho perpétuas roxas, as flores da morte.

O Tiradentes beijou e guardou o anel de cabelos, mas exigiu com tanta insistência a flor, que a amante colheu e entregou-lhe uma perpétua, dizendo:

- Leva-a, é porém de mau agouro. Sê feliz! Adeus! Qualquer que seja o teu destino, eu te amarei perpétua. Lembra-o bem: perpétua!...

No mesmo ano o Tiradentes tornando ao Rio de Janeiro, mas já perseguido para ser preso, como em Minas o tinham sido os outros conspiradores, não ousou ir à casa de Perpétua Mineira, mas ainda assim caiu em poder dos agentes do governo.

A generosa e exaltada amante, a pobre Perpétua Mineira, sonhou, imaginou planos doidos para salvar o Tiradentes, facilitando-lhe a fuga dos cárceres subterrâneos da ilha das Cobras, para onde o tinham levado, e, desatinada e vaidosa, começava a calcular com repugnantes traições ao seu amor, com sublimes sacrifícios já para ele horríveis, contando com o poder dos seus encantos a fazer milagres no coração de Luís de Vasconcelos, aliás severo e inflexível no cumprimento do seu dever, quando a 4 de junho de 1790 o vice-reinado passou ao Conde de Rezende.

Adeus, embora ilusórias, vaidosas esperanças de Perpétua Mineira!...

O Conde de Rezende chegava carrancudo, ameaçador, e temendo conspirações a tramar-se em toda a cidade, e para mais se agravarem suas turvas suspeitas, e as sinistras prevenções do seu ânimo, logo na noite de 20 de junho, incêndio violento devorou a casa onde a Câmara Municipal celebrava suas sessões e tinha o seu arquivo (casa do Teles na Praça de Pedro II, até à quina da Rua do Mercado).

O Vice-Rei passou a noite em ânsias, vendo no incêndio ensejo preparado para pronunciamento revolucionário, ao mesmo tempo que o povo só via na horrível fogueira mau agouro do novo governo.

Não foi possível ao Conde de Rezende descobrir a origem do incêndio; mas por isso mesmo o atribuiu aos revolucionários, e multiplicou precauções aterradoras.

(continua...)

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