Por Eça de Queirós (1940)
Sampetersburgo recomeçava os seus te Deum, o czar reescrevia as suas listas de funcionários, a Europa estremecia. Pensava-se em intervir. Positivamente, santo Deus!, o fim da Turquia chegou!... A Áustria, assustada com o novo vizinho que se instala, começa a mobilizar: a Inglaterra manda três mil homens para Malta e fala em ocupar Galípoli: a Grécia agita-se, como um abutre que esvoaça sobre um ferido que vai morrer, e o sultão faz à pressa as suas malas, para passar para a Ásia, de volta aos lugares originários da sua raça – com o Alcorão, o serralho, o estandarte do Profeta e o seu cozinheiro francês!
De repente, sem se saber como também, os Russos sofrem o desastre medonho de Plevna; no dia seguinte, são batidos em Lotcha; no outro dia, em Osman Bazar. Osman Paxá acossaos contra o Danúbio; o general Gurko, que passava os Balcãs, é derrotado; o exército que ocupava a Bulgária tem de evacuar aos pedaços; cercos importantes são levantados, campos formidáveis desfeitos. E o que se tinha passado na Arménia repetiu-se no Danúbio! A invasão que falhou na Ásia, falhou na Europa! Sampetersburgo engole os seus te Deum, o czar rasga as listas, a Áustria respira e desmobiliza, o sultão desfaz as malas – e os Turcos, espantados, olhando em roda de si, acham-se vitoriosos na Ásia e na Europa!
A que se deve esta prodigiosa aventura? A muitas causas, creio eu. Mas a primeira, a principal, a causa-mãe, é que os Russos desprezaram os Turcos de mais: não lhes supunham – nem coragem, nem estratégia, nem armamento, nem dinheiro, nem actividade, nem dedicação. Entenderam que um punhado de russos podia ir e comer províncias como bagos de uvas. Portanto mandavam forças incompletas, dividiam-nas, dispersavam-nas, iam para diante, à tonta, com uma bravura de guerrilha e uma imprudência de estudantes quando de repente se encontraram diante de exércitos mais numerosos, com generais mais hábeis, planos mais definidos; o resultado é a derrota!
Acresce a isto que no exército russo tudo é mau, excepto o soldado e a arma. Os generais são estúpidos, a administração é corrupta. Quando o soldado se bate, é sacrificado pela inépcia dos chefes, quando se não bate, é esfomeado pela fraude do comissariado. O que se conta dos planos dos grão-duques que comandam é tão atroz como o que se diz dos administradores que fornecem. O desastre de Plevna é um erro idiota do grão-duque: mandar milhares de soldados atacar posições elevadas, entrincheiradas, ocupadas por artilharia e por um número superior de gente – é o mesmo que condenar soldados à morte em conselho de guerra. Por outro lado, deixá-los um e dois dias sem ração, sem água, ou com mantimentos podres e água insalubre, sem tendas e sem provisões – e o mesmo que espalhar voluntariamente num exército os germes de uma epidemia. Em qualquer dos casos, é crime!
O que perdeu a Rússia, nesta campanha de quatro meses, foi o excesso impaciente de ambição: quiseram fazer ao mesmo tempo muitas coisas brilhantes: atravessar o Danúbio, cercar Rustchuk, invadir a Bulgária, passar os Balcãs, investir Sistova. Para todas estas empresas tiveram que dividir o exército, fraccioná-lo, enfraquecê-lo. Em lugar de conservar na mão um grosso cacete sólido, desfizeram-no numas poucas de frágeis bandines.
Os Turcos, bons estratégicos, reuniram fortes massas e foram quebrando e destruindo uma a uma estas forças dispersas. Os Russos, reconhecendo agora o seu erro, concentram-se no Danúbio e preparam-se para uma acção mais concreta. Mas e tarde: o Inverno adianta-se, e esta campanha de Verão, com os sacrifícios que custou, os milhões que absorveu, as vidas que destruiu – está perdida: é como uma bola de sabão quebrada, que produz nada, nada, nada!
De quem é a culpa? Do regime russo, incontestavelmente do absolutismo. Num país em que nada depende do mérito e tudo depende da posição do nascimento, o resultado é este: em lugar de dar o comando a um estratégico, dá-se a um grão-duque idiota, porque é grão-duque; em lugar de confiar a administração a uma inteligência, confia-se a um príncipe, porque é príncipe. O grão-duque é batido sempre e o príncipe desorganiza tudo. É lógico. E todos os correspondentes ingleses, os mais hábeis, os mais experientes de coisas militares, são acordes em dizer que, se a administração militar continua nas mesmas mãos inábeis e se os planos da campanha continuam a ser feitos pelos grão-duques, a Rússia pode sofrer a desfeita histórica de ser posta fora dos domínios turcos, à coronhada!
Em Sampetersburgo começa-se a murmurar com muito despeito da direcção da campanha. E é bem possível que um desastre militar fosse a origem de uma transformação social. O Russo é já bastante instruído para saber perfeitamente que vive sob um regime odioso. As conspirações repetidas que, de tempos a tempos, vêm abortar nas mãos da Polícia são as explosões impacientes e extemporâneas de um forte sentimento, que trabalha surdamente a massa da nação. Esta guerra actual foi considerada sem entusiasmo: viam-se muito bem os sacrifícios que ela custava, sem se ter uma grande fé nas vantagens que ela traria.
Mas, depois de começada, naturalmente, o grande orgulho nacional exaltou-se e interessouse. Se a Rússia agora se visse derrotada pelo Turco, isto é, pelo seu inimigo de raça e de religião, pelo desprezado Turco, atribuiria logo a derrota aos erros do Governo e aos vícios do regime, e uma grande revolução seria provável.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.