Por Eça de Queirós (1925)
— Orça a barlavento ! Senhor segundo tenente, abra as escotilhas da proa . f — e uma trombeta soou : traiará, traiará, rá, rá, á . . ,
E então, d'um porta-voz, que appareceu fóra da janella, sahiu um vozeirão :
— Cerre os traquetes ! Fogo ! Boum ! Boum ! Boum ! Traiará, traiará, rá, rá, á , . .
Era Albuquerquezinho, de chapéu armado, com mandando do peitoril da janella, a sua fragata de guerra !
Começou então para Arthur uma vida desgracada, em que os dias se seguiam como as paginas brancas d'um livro que se vae tristemente folheando. Toda a manhã, as duas senhoras faziam a sua meia na sala, com as janellas cerradas, o soalho re gado, n'um silencio em que errava a sussurragão das moscas.
Ás vezes, para o distrahir, Sabina levava-o ao quintal, vêr a creação : mostrava-lhe os coelhos novos pulando sobre as camadas de couves molhadas, de nariz franzido, as orelhas direitas, fitando os olhinhos vermelhos como rubis ou negros como vidrilhos nas côdeas que ella trazia ; e em torno d'ella era um correr de pintainhos, redondos como bolas de pennugem, um koé-koé de patos, um despedir de bufos dos dous perús entufados. Mas o cheiro da capoeira, da coelheira, o bafo morno e acre dos pellos e das pennas enjoavam Arthur ; detestava os bacorinhos, com a pelle côr de rosa, a suar de gordura, fossando até aos olhos, grunhindo de gozo, na lavagem das gamellas. Só não desgostava do velho gallo, o Pimpão, de cauda flammante e passadas pomposas : muito atrevido, o Pimpão plantava-se deante d'elle, erguendo a crista sanguinolenta, fitando-o de lado com o seu olho rutilante, e de repente, batendo as azas, estendendo o pescoço onde corriam reflexos d'esmaltes vermelhos e azues, lançava o seu toque de clarim ; gallos n'outros quintaes respondiam ; e as gallinhas iam dando em redor, no matto estradado, picadellas subtis e vorazes.
Mas Arthur declarava que não lhe agradavam senão pombas e pavões —e subia para casa, bocejando, emquanto a tia Sabina, magoada d'aquella indifferença, ficava a olhar desconsoladamente a gua bicharada
Depois do jantar, dadas as graças, era a sesta : tudo parecia adormecer n'uma lassidão entorpecida, até os moveis e as moscas. E Arthur, estirado sobre a cama, olhava vagamente as taboas do tecto, ruminando pensamentos saudosos d'amor, de celebridade, ouvindo fóra, nas suas gaiolas de vime, arrulharem as rolas. Ao fim da tarde, as senhoras iam tomar o fresco para o fundo do quintal, ao pé da estatueta da Forfima„ emquanto o Albuquerquezinho fazia navegar no tanque do poço o seu bote cheio de soldados de chumbo ; e n'aquelle repouso das folhagens, cangadas da ardencia do dia, ouviase a agua de rega murmurar ao lado, no pomar do Freitas. E alli ficavam até tarde, esquecidas, até que alguma estrellinha tremeluzia no alto e os morcegos esvoaçavam em torno da Fortuna. A essa hora, Arthur entrava do seu passeio triste pela estrada d'Ovar ou do Côvo e o serão começava, com as janellas, por onde entravam borboletinhas brancas, abertas á escuridão tepida do
Era aquella a hora peor. As meias das duas senhoras, as paciencias do Albuquerquezinho, os quartos que eahiam plangentemente da torre de S. Francisco, davam-lhe um tedio teciturno. As tias imaginavam que eram saudades do papá :
— Não maluques n'isso, — diziam — quem lá está, lá está.
Arthur detestava-as, por não comprehenderem a elevação espiritual da sua melancolia.
Depois, o Albuquerquezinho tomara affeição a Arthur e queria mostrar-lhe a sua esquadra. Eram dous grossos cadernos de papel em que elle collava em fila os navios e paquetes recortados nos annuncios dos jornaes, com os nomes escriptos a tinta vermelha: Valoroso, Relampago, Fragata Sabina, Nelson . . . Havia as esquadras de todos os paizes da Europa, e, como não cessava de recortar, tinha agora esquadras de terras exoticas : a frota da Laponia, a frota da Cafraria, a frota da Arabia . . .
— Hein, meu amigo ! Qu'esquadra . . . E tudo ás minhas ordens ! — dizia, mostrando os galões da manga. — Dá-me muito que fazer . . .
— De certo, snr. Alinirante, de certo !
Ao fim do serão, subindo para o seu quarto, erguia os braços para o céu n'uma accusação muda ! Quando acabaria aquella vida ? Quando voltariam noites como as do CenacuZo ? Pela janella aberta entrava a paz escura da Villa adormecida, Olhava então as casas apagadas, os telhados fazendo na sombra sombras mais densas : áquella hora, toda uma burguezia dormia, roncando de barriga para o ar ; nenhum d'aqueles seres lêra Alfred de Musset ou comprehenderia os sonhos que lhe revoavam na alma como bandos d'aves captivas ; a obtusidade d'aquelle montão de logistas e de pro-
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.