Por Eça de Queirós (1875)
Era então no Inverno. As grandes chuvas com os sudoestes não cessavam; a áspera estação oprimia os pobres. Viam-se naquele ano famílias esfomeadas indo à câmara pedir pão. O Tio Cegonha vinha sempre ao meio-dia dar a lição; o seu guarda-chuva azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia, na sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixavase sobretudo do frio das mãos, que o impedia de ferir com justeza o teclado, e não o deixava escrever no cartório. '
- Prendem-se-me os dedos, dizia tristemente.
Mas quando a S. Joaneira lhe pagou o primeiro mês das lições, o velho apareceu muito contente, com urnas grossas luvas de lã.
- Ah, Tio Cegonha, como vem quentinho! disse-lhe Amélia.
- Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias de lã. Deus a abençoe, minha menina, Deus a abençoe!
E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lágrimas. Amélia tomara-se a "sua rica amiguinha". Já lhe fazia confidências: contava-lhe as suas necessidades, as saudades da filha, as suas glórias na Sé de Évora, quando diante do senhor arcebispo, vistoso na sua sobrepeliz escarlate, acompanhava o Lausperene. Amélia não se esqueceu das meias de lã do Tio Cegonha. Pediu ao chantre que lhe desse umas meias de lã.
- Ora essa! para quê? para ti? disse ele com o seu riso grosso.
- Para mim, sim, senhor.
- Deixe falar, senhor chantre! disse a S. Joaneira. Olha a idéia!
- Não deixe falar, não! dê, sim?!
Lançou-lhe os braços ao pescoço; fez-lhe olhinhos doces.
- Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanças! há-de ser o diabo!... Pois sim, aí tens. - E deu-lhe dois pintos para umas meias de lã.
No dia seguinte tinha-os ela embrulhados num papel, que dizia por fora em letras garrafais: Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discípula.
Uma manhã, depois, viu-o mais amarelo, mais chupado:
- Ó Tio Cegonha, disse de repente, quanto lhe dão lá no cartório?
O velho sorriu-se:
- Ora, minha rica menina, quanto me hão-de dar? uma bagatela.
Quatro vinténs por dia. Mas o Sr. Neto faz-me algum bem...
- E chegam-lhe quatro vinténs?
- Ora! como hão-de chegar?
Sentiram-se os passos da mãe; e Amélia, retomando gravemente a atitude de lição, começou a solfejar alto, com um ar profundo.
E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a mãe a dar de almoçar e de jantar ao Tio Cegonha nos dias de lição. Assim se estabeleceu entre ela e o velho uma grande intimidade. E o pobre Tio Cegonha, saindo do seu frio isolamento, acolhia-se àquela amizade inesperada, como a um conchego tépido. Encontrava nela o elemento feminino que amam os velhos, com as carícias, as suavidades de voz, as delicadezas de enfermeira; achava nela a única admiradora da sua música; e via-a sempre atenta às histórias do seu tempo, às recordações da velha Sé de Évora que ele amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se falava de procissões, ou de festas de igreja:
- Para isso Évora! em Évora é que é!
Amélia aplicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua vida; já tocava contradanças e antigas árias de velhos compositores; a Sra. D. Maria da Assunção estranhava que o mestre lhe não ensinasse o Trovador.
- Coisa mais linda! dizia.
Mas o Tio Cegonha só conhecia a música clássica, árias ingênuas e doces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos doces tempos freiráticos.
Uma manhã o Tio Cegonha encontrou Amélia muito amarela e triste. Desde a véspera queixavase de "mal-estar". Era um dia nublado, muito frio. O velho queria ir-se embora.
- Não, não, Tio Cegonha, disse ela, toque alguma coisa para eu me entreter.
Ele tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente melancólica.
- Que lindo! que lindo! dizia Amélia, de pé junto ao piano.
E quando o velho deu as últimas notas:
- O que é? perguntou ela.
O Tio Cegonha contou-lhe que era o começo de uma Meditação feita por um frade seu amigo.
- Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
Amélia quis logo saber a história; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu xale:
- Diga, Tio Cegonha, diga!
Era um homem que tivera em novo uma grande paixão por uma freira; ela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de saudade, fizera-se frade franciscano...
- Parece que o estou a ver...
- Era bonito?
- Se era! Um rapaz na flor da vida, rico... Um dia veio ter comigo ao órgão: "Olha o que eu fiz", disse-me ele. Era um papel de música. Abria em ré menor. Pôs-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que música! Mas não me lembra o resto!
E o velho, comovido, repetiu no piano as notas plangentes da Meditação em ré menor.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.