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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Cá me vai no coração, meu Fidalgo... Ora essa! Pois consentia eu que V. Exa. se levantasse?Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do paizinho de V. Exa., que Deus haja, conheço bem a Torre!... E sempre me esperancei de trazer nesta quinta uma lavoura a meu gosto, de consolar!

Durante o café, esquecido dos jornais, Gonçalo gozou a excelência daquele negócio. Duzentos mil réis mais de renda. E a Torre tratada pelo Pereira, com aquele amor da terra e saber de lavra que transformara o chavascal do Monte-Agra numa maravilha de seara, vinha e horta!... Além disso, homem abastado, capaz de um adiantamento. E eis aí mais uma evidência do valor da Torre, esse afinco do Pereira em a arrendar, ele tão apertado, tão seguro... Quase se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos. Enfim, a manhã fora fecunda! E, realmente, nenhum acordo firmado o colava ao Casco. Entre eles apenas se esboçara uma conversa, sobre um arrendamento possível da Torre, a debater depois miudamente, numa base nova de novecentos e cinqüenta mil réis... E que insensatez se ele, por escrupuloso respeito dessa conversa esboçada, recusasse o Pereira, retivesse o Casco, lavrador de rotina - dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada ano deperecendo, mais cansada e chupada!...

- Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a égua selada das cinco para as cinco e meia.Sempre vou à Feitosa... Hoje é o dia!

Acendeu um charuto, voltou à livraria. E, imediatamente, releu o final magnífico: "De mal com o Reino e como Rei, mas de bem com a honra e comigo!" - Ah! como ali gritava a alma inteira do velho português, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira de almaço entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas... Quantas manhãs, às frescas horas da alva, o velho Tructesindo se encostara àquelas ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor, semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-homem. E o Pereira, nesse tempo colono ou servo, só abordava a seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas não lhe pagava um conto cento e cinqüenta mil réis de sonora moeda do Reino. Também, que diabo, o vovô Tructesindo não precisava... Quando as sacos rareavam nas arcas, e as acostados rosnavam por tardança de soldo, o leal Rico-homem, para se prover, tinha as tulhas e as adegas dos Concelhos mal defendidos - ou então, numa volta de estrada, o ovençal voltando de recolher as rendas reais, o bufarinheiro genovês com os machos ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contara o papá) ainda negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes chumbadas aos pilares, e na abóbada a argola de onde pendia a polé, e no lajedo os buracos em que se escorava o potro. E, nessa surda e úmida cova, ovençal, bufarinheiro, Clérigos e mesmo burgueses de foro uivavam sob o açoite ou no torniquete, até largarem agonizando o derradeiro morabitino. Ah! a romântica Torre, cantada tão meigamente ao luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafara!...

E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra, contra a tronco de uma faia. É que descortinara a gato da Rosa cozinheira, trepado, de unhas fincadas num ramo, arqueando a espinha, para assaltar um ninho de melros.

Quando nessa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca, parou a égua ao portão da Feitosa - um velho todo esfarrapado, com longos cabelos caídos pelos ombros e imensas barbas espalhadas pelo peito, imediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodelas de chouriço, bebendo de uma cabaça, para o avisar que o Sr. Sanches Lucena e a Sra. D. Ana andavam por fora, de carruagem. Gonçalo pediu ao velho que puxasse o ferro da sineta. E, entregando um cartão ao moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um S e um L entrelaçados sob uma coroa de conde:

- O Sr. Sanches Lucena, bem?

- O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...

- O quê? Esteve doente?

- Pois o Sr. Conselheiro, aqui há três ou quatro semanas, andou muito agoniado...

- Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitíssimo!

Chamou o velho que repicara a sineta para o recompensar com um tostão. E, interessado por aquelas barbaças e melenas de mendigo de Melodrama:

- Vossemecê pede esmola por estes sítios?

O homem ergueu para ele os olhos sujos, avermelhados da poeira e da sal, mas risonhos, quase contentes:

- Também me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus, lá me fazem muito bem.

- Então quando lá voltar diga ao Bento... Você conhece o Bento?

Se conhecia! E a Sra. Rosa...

- Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças, homem! Você assim, com essas calças, não andadecente.

O velho riu, num riso lento e desdentado, mirando com gosto os sórdidos farrapos que lhe trapejavam nas canelas, mais denegridas e secas que galhos de inverno:

(continua...)

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