Por Camilo Castelo Branco (1862)
Passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra. Tinha uma mestra, que me ensinava as atitudes senhoris nos camarotes e recebia dessa mesma lições para entrar na carruagem, apanhando a cauda dos vestidos com elegância, e saltando dela garbosamente para o banco almofadado que me oferecia o lacaio. Numa das minhas primeiras idas a S. Carlos, vi minha irmã num camarote com mais duas senhoras. Dei um grito de surpreendida e indiquei-a ao barão. ‘Não olhes para lá, disse-me ele, ‘tua irmã, se é aquela, deve ser o que são as companheiras: são três prostitutas que ali estão.’ Baixei os olhos, como obrigados pelo peso das lágrimas e da vergonha. Vergonha e lágrimas! Que mais valia eu que minha irmã, e quem era mais digna de lágrimas que eu!
Um dia recebi um bilhete de minha irmã, dando-me os parabéns da minha felicidade e pedindo-me que a não desprezasse por ter sido menos feliz que eu na carreira que a mãe nos dera a ambas. Mostrei esta carta ao barão, e ele, com soberba irritação exclamou: ‘Não lhe respondas; proibo-to, sob pena de ficarmos mal.’ - Começa o barão... - atalhei eu. - Começa o segundo acto da minha tragédia - disse Marcolina.
IV
- Fui um dia ao Campo Grande: ia sozinha na carruagem. Apeei para passear entre as árvores e vi ao longe duas senhoras correndo para mim. Conheci minha irmã e corri para ela. Abraçámo-nos a chorar. Contoume em breves palavras a sua vida. Era a minha, com a diferença das pompas. Vivia com um mercador de panos, que aborrecia; mas sujeitava-se por não ver outro caminho por onde achasse mais honesto modo de vida. Praguejou contra a mãe, analisando ao mesmo tempo os meus anéis e pulseiras com olhos cobiçosos.
Quando assim estávamos entretidas, apareceu de súbito o barão; encarou-me com desabrimento e disseme: ‘Já para casa!’ Não repliquei, nem mesmo olhei para minha irmã. O barão arguiu-me severamente; e, dizendo-lhe eu que a minha vida não era mais honesta que a da outra desgraçada, mostrou-se muito ofendido com ser comparado ao mercador de panos. Arrependi-me de dizer tal, porque ouvi insultos da sua vaidade ferida com tão pouco. Desde esse dia, comecei a sentir os espinhos da minha posição. Caí numa modorra de tristeza, mais dolorosa que a miséria. Se ia ao teatro, era violentada: se me vestia, a capricho do barão, fazia-o tão contrariada que ele rompia em desatinos contra mim, dizendo-me que eu já o não amava... como se eu o tivesse amado algum dia! O ódio a minha mãe recrescia, quanto mais eu entrava na consciência da minha perdição e no preço das galas com que eu insultava a virtude honesta. A minha grande desgraça, senhor, era eu não poder destruir os sentimentos da dignidade, talvez herdados de meu pai, que fora honrado. As mulheres na minha posição começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco das torpezas.
Um dia, estava eu à janela, e vi passar minha mãe com a filha mais nova. Retirei-me, quando ela me ia acenar com a mão; mas ficaram-me os olhos na criança, e escondi-me a chorar. O barão encontrou-me a enxugar as lágrimas; contei-lhe a causa; e ele, querendo consolar-me, disse-me que minha mãe e irmãs estavam vivendo fartas e com decência à minha sombra, e ajuntou que, enquanto eu me portasse bem, não lhes faltaria nada. Pedilhe que me deixasse ter na minha companhia a mais nova de minhas irmãs. Não quis, nem mesmo concedeu que ela me visitasse alguma vez. Ora isto, e muitas outras contradições que fazem o desgosto da vida íntima, conseguiram desvanecer pouco e pouco a amizade que eu cheguei a dar-lhe, mais por amor da piedade com que me tratou na minha pobre casa que pela opulência com que me tinha na sua. Entrei a pensar no modo de me resgatar do cativeiro; porém, não via nenhum que não fosse aumentar o meu infortúnio.
Lembrei-me de ir para uma terra da província ensinar meninas; mas eu escrevia tão mal, e lia tão pouco, que de certo me rejeitariam. De prendas de costura, apenas sabia dar um ponto, visto que minha mãe não pudera nem quisera dar-me educação, nem tive mestra, senão quatro meses, enquanto se me não romperam os vestidinhos que me dera minha madrinha.
Pedi ao barão que me desse uma mestra de escrita e de leitura e me mandasse ensinar algumas prendas para me entreter.
Anuiu a tudo, menos ensinar-me a escrever, dizendo que o saber escrever era causa de muitas mulheres se perderem.
Irritou-me muito esta objecção; mas aceitei o consentimento de aprender a marcar, bordar e talhar vestidos de senhoras. Felizmente a mestra escrevia sofrivelmente, e ensinou-me às escondidas, com grande aproveitamento.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.