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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Eu carecia de um amigo, e não tinha nenhum a quem mostrasse as secretas dores, que escondera de todos. Tive ânsias de uma alma que me escutasse. Lembraram-me todos os que mais tinham convivido comigo. Sem excepção de um só, eram todos fúteis e incapazes de me pouparem à sua zombaria, se me vissem chorar. Sufoquei-me, atirei-me aos braços da minha algoz fantasia, deixei-me dilacerar pelo abutre da soberba, soberba de não ser ridículo em nenhuma das minhas desgraças.. "Passaram três dias. Na minha banca estavam três cartas fechadas e fragmentos de outras, que eu destinara a Teodora. Abri as canas, reli-as, tive pejo e tédio de mim, rasguei-as e fui embriagar-me.

"Porquê? Porque não havia eu de ser o que seria todo o homem abrasado de amor, ou sequioso de vingança? Que tinha que eu, condoendo-me ou escarnecendo-a, lhe perdoasse? Se alguém se rira de mim abandonado dela, que maior vitória queria eu senão a de fazer risível o marido da mulher castigada por sua mesma abjecção? Esta filosofia hedionda, com que se pavoneia a filáucia de muitos sujeitos, celebrados pela inveja e admiração de outros miseráveis do mesmo formato, quem me privou de a seguir, e aproveitar num caso de vida, em que a minha cura não podia esperar-se da religião, da moral, ou da volubilidade de meu carácter? Não lhe respondi; é o que sei dizer do meu inflexível pundonor dos dezanove anos. Era uma feroz vingança que me infligia à conta do cobarde quebranto em que me deixara a aparição da mulher vil, arreiada com as pompas da felicidade.

"O meu segundo ano de Coimbra foi um continuado suicídio. Desbaratei a saúde em toda a espécie de desregramento e libertinagem. Não dei nos olhos da academia, porque, naquele ano de 1846, a fermentação da guerra civil absorvia os espíritos alvorotados dos académicos. Fechou-se a Universidade em Maio, quando eu, extenuado de insónias e empeçonhado de bebidas estimulantes, caí de cama, com o sincero desejo e alegre esperança de que me não levantaria mais.

"Escondi de minha mãe aquele estado enquanto me não assaltou o remorso de a não chamar ao meu leito e confessar-me da vileza de alma que me levara a destruir a minha vida por meios tão ignominiosos. Foi esta vergonha que me salvou. Pedi com ânsia e lágrimas aos médicos que me salvassem. Disseram-me que fosse para a Madeira recobrar vigor e viajasse depois um ano nos países temperados e arborizados. A meu ver, a ciência queria dizer no seu receituário que eu estava em vésperas de encetar uma viagem barreiras adentro da eternidade.

"Confiei na juventude, na vontade de viver, e ergui-me. Saí de Coimbra para o Porto. Tentei o meu espirito, animando-me a procurar as montanhas saudosas, os meus queridos pinheirais de Ruivães, os regatos cristalinos, orlados de verduras, em que minha mãe me via criança, a colher boninas para lhas entretecer nos cabelos. A minha alma amava então estas coisas com o transporte arroubado e sereno dos tísicos; é que o invólucro já lhe não empecia o filtrar-se nela o calor da luz ideal, aquele calmo ambiente em que se degela o sangue coalhado no coração.

"Venceu o desejo da vida. Isto que, um ano antes, se me antolhou feio e inabitável aformoseou-mo então o anelo de viver. Até a cor do céu, de onde me choveram as alegrias dos dezasseis anos, me sorria e chamava. Nem já o temor de me encontrar com Teodora pôde conter-me. Que importava? Eu cuidei que a porção de minha essência, cativa do amor dela, se tinha caldeado e vaporado ao fogo, de onde eu saíra refundido, e muito estranho ao homem do outro tempo.

"Surpreendi minha mãe, sentada à sombra da carvalheira da porta, relendo as minhas últimas cartas, escritas com a ternura da alma alumiada pela alva de um melhor dia. Ao contacto do peito da virtuosa, senti exuberância de saúde, de alegria e de unção religiosa. Então me considerei estreado em nova existência.

"Esperava eu que se abrisse a Universidade para ir a Coimbra repetir o 2º ano, cujas disciplinas nem sequer as tinha visto no índice dos compêndios. Minha mãe dissuadia-me de voltar a Coimbra, dando como desnecessária a formatura a quem não havia de ganhar a vida por ela. Eu, porém, desejava instruir-me; dava-me como necessário recolher ideias que ao depois me aligeirassem no estudo os anos de toda a vida, que eu designara passar na casa onde meu pai tinha vivido a sua, com todas as. ditas da paz. Minha boa mãe transigiu. A doce criatura, acusando-se sempre de motora da minha desgraça, obrigara-se a expiar pela abnegação e condescendência. E, demais, ela temia que, alguma hora, me reaparecesse a visão de Leça.

"Que pressentimento! "Dias antes da minha destinada partida, fui às Taipas despedir-me de meu tio Fernão, que estava em Caldas. Ao entardecer saí com minha prima Mafalda a passear na carvalheira. Já era escuro quando nos fizemos na volta de casa. Ao atravessarmos a alameda dos banhos, acercou-se de nós um vulto de mulher rebuçado numa capa alvacenta. Mafalda apertou-me o braço convulsivamente. O vulto parou em frente de nós, e disse num tom irónico: "Consintam que os contemple na sua felicidade: é um prazer dos felizes verem-se admirados."

(continua...)

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