Por Machado de Assis (1891)
-Talvez nos estejamos a incomodar com um simples efeito de vinhos. Olha que ele não mandou o seu quinhão ao vigário; cabeça fraca, um pouco de abalo, e entornou o que tinha dentro. . . Sim, eu não nego que lhe possas ter causado certa impressão, como tantas outras senhoras. Há dias foi a um baile no Catete, e voltou encanto das senhoras que lá vira, de uma principalmente, a viúva Mendes...
Sofia interrompeu-o
-Por que é que não convidou essa beleza a ver o Cruzeiro?
-Não jantou lá, naturalmente, e não havia jardim nem lua O que eu quero dizer é que o nosso amigo não estaria em si. Talvez se ache agora arrependido do que fez, envergonhado, sem saber como se há de explicar, ou se não explicará nada....É muito possível até que se ausente...
-Era melhor.
- ...Se o não chamarmos, concluiu Palha.
- Mas para que chamá-lo?
-Sofia, disse-lhe o marido, sentando-se ao pé dela. Não quero entrar em minudências; digo só que não permito que alguém te falte ao respeito...
Houve uma pequena pausa; Sofia olhava para ele, esperando.
-Não permito, e ai daquele que o fizesse, assim como ai de ti se o consentires; sabes que sou de ferro, a este respeito, e que a certeza da tua amizade ou,-vá logo tudo,-do amor que me tens é que me tranqüiliza. Pois bem, nada me abala relativamente ao Rubião. Crê que o Rubião é nosso amigo. devo-lhe obrigações.
-Alguns presentes, algumas jóias, camarotes no teatro, não são motivos para que eu fite o Cruzeiro com ele.
-Prouvera a Deus que fosse só isso! suspirou o zangão.
-Que mais?
-Não entremos em minudências... Há outras cousas... Conversaremos depois... Mas fica certa que nada me faria recuar, se visse no que contaste alguma gravidade. Não há nenhuma. O homem é um simplório.
-Não.
-Não?
Sofia levantou-se; também não queria entrar em minudências. O marido pegou-lhe na mão, ela ficou de pé e calada. Palha, com a cabeça reclinada nas costas do sofá, olhava sorrindo, sem achar que dizer. Ao cabo de alguns minutos, ponderou a mulher que era tarde, que ia mandar apagar tudo.
-Bem, tornou o Palha depois de breve silêncio; escrevo-lhe amanhã que não ponha aqui os pés.
Olhou para a mulher esperando alguma recusa. Sofia coçava as sobrancelhas, e não respondeu nada. Palha repetiu a solução; e pode ser que desta vez com sinceridade. A mulher então com ar de tédio
-Ora Cristiano. . . Quem é que te pede cartas? Já estou arrependida de haver falado nisto. Contei-te um ato de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações,- aos poucos ou de uma vez.
-Mas como se hão de cortar as relações de uma vez?
-Fechar-lhe a porta, mas não digo tanto; basta, se queres, aos poucos . . .
Era uma concessão; Palha aceitou-a; mas imediatamente ficou sombrio, soltou a mão da mulher, com um gesto de desespero. Depois, agarrando-a pela cintura, disse em voz mais alta do que até então
-Mas, meu amor, eu devo-lhe muito dinheiro.
Sofia tapou-lhe a boca e olhou assustada para o corredor.
-Está bom, disse, acabemos com isto. Verei como ele se comporta, e tratarei de ser mais fria... Nesse caso, tu é que não deves mudar, para que não pareça que sabes o que se deu. Verei o que posso fazer.
-Você sabe, apertos do negócio, algumas faltas... é preciso tapar um buraco daqui, outro dali... o diabo! É por isso que... Mas riamos, meu bem; não vale nada. Sabes que confio em ti.
-Vamos, que é tarde.
-Vamos, repetiu o Palha dando-lhe um beijo na face.
-Estou com muita dor de cabeça, murmurou ela. Creio que foi do sereno, ou desta história. . . Estou com muita dor de cabeça.
CAPÍTULO LI
BANHADO, barbeado, meio vestido, Palha lia os jornais, à espera do almoço, quando viu entrar a mulher no gabinete, um tanto pálida.
-Estás pior?
Sofia respondeu com um gesto dos lábios, que tanto negava como afirmava. Palha acreditou que, pelo dia adiante, passaria o incômodo a agitação da véspera, o jantar tarde. . . Depois, pediu que lhe deixasse acabar de ler um artigo relativo a certo negócio da praça. Era uma briga entre dous comerciantes, a propósito de uns saques; na véspera escrevera um deles, hoje vinha a resposta do outro. Resposta completa, disse ele acabando a leitura; e explicou longamente à mulher a questão dos saques, o mecanismo da operação, a situação dos dous adversários, os boatos da praça, tudo com o vocabulário técnico. Sofia ouvia e suspirava; mas para o despotismo da profissão não há suspiros de mulher, nem cortesia de homem. Felizmente, o almoço estava na mesa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.