Por Lima Barreto (1921)
– Estuda, mas esses estudos agora estão muito puxados. Imagina tu que ele tem de estudar, decorar um livro enorme, cheio de números e, ainda por cima, em francês.
– Como se chama?
– Não sei. Tem um nome difícil. O autor é um tal Calle ou coisa que valha.
Tratava-se das Tábuas de Callet que tinham inspirado a piedade do pobre matuto pela vadiação do filho.
As conversas de trem são quase sempre interessantes. A mania dos suburbanos é discutir o merecimento deste subúrbio em face daquele. Um morador do Riachuelo não pode admitir que se o confunda com um do Encantado e muito menos com qualquer do Engenho de Dentro.
Os habitantes de Todos os Santos julgam a sua estação excelente por ser pacata e sossegada, mas os do Méier acusam os de Todos os Santos de irem para o seu bairro tirar-lhe o sossego.
Uma senhora dizia à outra, no trem:
– Jacarepaguá é muito bom. Gosto muito.
– Mas tem um defeito.
– Qual é?
– Não tem iluminação à noite.
– Você diz bem que é só à noite, pois de dia tem o Sol.
As duas riram-se e, como nenhuma delas tivesse pretensões intelectuais, não houve zanga alguma entre elas.
Os hábitos de sociedade, parece, ainda não estão cientificamente estabelecidos entre nós.
Julgo que se fossem analisar muitos deles à luz da metafísica, da teologia dogmática e da teoria dos raios catódicos , muitos deles seriam condenados.
Lembro-me mesmo de um caso elucidativo que um meu amigo me contou. Um outro amigo dele encontrou-o na rua e apresentou-o à mulher, ali mesmo.
Havia o movimento habitual da via pública, capaz de distrair, o mais atento. Para conversar qualquer coisa, o meu amigo narrou uma história de um acidente de bonde de que ia sendo vítima.
– Imaginem que quase morri.
Nisto a esposa do camarada do meu amigo voltou-se, pois estava olhando para um dos lados, e perguntou naturalmente:
– Não morreu?
Careta, Rio, 11-12-1915.
MAIS UMA
Temos agora, neste nosso extraordinário Brasil, mais uma academia de letras: a da Bahia.
A primeira coisa que logo chama a atenção de quem lê a lista dos seus membros e respectivos patronos, é o ar de família que apresenta a novel instituição sábia.
Monizes de Aragão há lá quatro, quase a décima parte da academia efetiva, além de dois outros Monizes, mas não de Aragão, que devem ser primos dos primeiros.
Isto unicamente entre os membros; não falamos aqui nos patronos.
Castro Rebelos, há dois, o Afonso e o Frederico; e assim por diante.
Se fosse no Ceará, com o exemplo político dos senhores Accióli ou Barroso, a coisa estaria explicada; mas em São Salvador, não se sabe bem onde foram os baianos buscar padrão para semelhante oligarquia.
Os patronos são em grande número completamente estranhos a coisas de letras. O senhor Teodoro Sampaio tomou para epônimo André Rebouças. Estamos a apostar que, se Rebouças, com o seu caráter e honestidade intelectual, pudesse falar de lá da Eternidade, havia de protestar, asseverando que era engenheiro, pura e simplesmente, e não literato de qualquer espécie.
A Bahia, terra de tantas inteligências e tão brilhantes tradições literárias, não podia consentir que tivessse sido ou seja governada senão por intelectuais e literatos.
Entre os membros da sua academia, estão o senhor Seabra, o J. J. , o senhor Severino Vieira , antigos governadores, e o atual.
Noblesse oblige.
Notamos a falta do senhor José Marcelino e do senhor Araújo Pinho.
Quanto aos patronos, há descobertas surpreendentes. Por exemplo: os senhores alguma vez ouviram dizer que o conselheiro Zacarias fosse homem de letras? Pois saibam agora que a academia da Bahia diz que foi; e até está servindo de patrono ao senhor Seabra, na imortalidade baiana.
Está certo.
E o barão de Cotegipe? E o Manuel Vitorino? E o Fernandes da Cunha?
Escapou, entre os heróis epônimos da academia, com certeza por inadvertência, o conselheiro Saraiva. É de admirar, pois reza a tradição que ele lia com especial agrado a Revue des Deux Mondes...
O senhor Miguel Calmon esqueceu-se um pouco do seu avoengo, visconde de
Turenne, e tomou como patrono um outro mais próximo: o marquês de Abrantes.
O antigo ministro da Viação e atual escrivão dos expostos da Santa Casa anda sempre a duas amarras. Quando se trata de coisas da Bahia, tem como antepassado o nosso conhecido marquês de Abrantes; mas, em se tratando de informações de sua genealogia que tenham repercussão lá fora, é de Tour d’Auvergne, da casa dos duques de Bouillon, de que ele descende.
O diabo é que não sabemos onde fica a literatura do marquês de Abrantes.
O senhor Almáquio Dinis é também imortal na Bahia. Ainda bem que ele, de alguma forma, realizou o seu sonho dourado. Parabéns, doutor!
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.