Por Raul Pompéia (1880)
O padre Jorge abaixou a cabeça mostrando que sabia a que fato se referira o amigo.
— Os criminosos eram sete negros, prosseguiu Eustáquio. Eu os prendi, porém os tratantes se evadiram.
"Então teve princípio uma cruel perseguição contra mim, e Branca, que pouco sabia das minhas ocupações de subdelegado, mostrou-se receosa de uma correria de índios. Eu, porém, lembrei-me logo dos negros evadidos; contudo, não acreditando que os quilombolas tivessem motivos para me odiar, embora eu houvesse usado de violência para prendê-los, participei dos receios de Branca. O tempo veio mostrar que eram infundadas as nossas apreensões, e ficamos crentes de que éramos perseguidos por algum desses velhacos que não amam muito a polícia zelosa.
"Estava eu, pois, quase convencido de que os negros fugidos não eram os meus perseguidores, quando, depois do assassinato de um dos policiais que me serviam, deparei com um cadáver que pareceu-me ser de um dos tais negros. As minhas primitivas suspeitas renasceram; mas, eu, incerto ainda, guardei-as comigo... Depois daqueles doas anos...
— Sim, completou o padre Jorge, daqueles dous anos de sossego.
— Os meus inimigos, prosseguiu o marido de Branca, se manifestaram de novo. Há menos de três semanas, Branca e Rosalina... e ante-ontem esta menina pela segunda vez...
— Eu sei...
— Bem, com os meus inimigos apareceu ultimamente um devotado defensor da minha causa e esse defensor, quando, na picada, salvou a Branca e a Rosalina, matou um negro, que eu não vi..., mas quem era possível que ele fosse?... Mais um fato a justificar as minhas desconfianças. Entretanto... ante-ontem o golpe do meu protetor não abateu um negro... mas um branco.
"Fiquei nadando em um mar de dúvidas. Senti o meu espírito se revoltar. Que culpa pretendiam fazer-me expiar? Quem eram os infames que me perseguiam? Tive a idéia de ir procurá-los. O aviso, de que vos falei hoje, me decidiu... eu partir e... tenho agora a solução da questão.
"Vós me perguntastes se eu não os conhecia. Conheço-os, são aqueles perversos que escaparam das mãos da polícia, há pouco mais de dous anos, e outros que a eles se uniram pelo interesse único que pode ligar dous bandos de salteadores... São uns miseráveis! Uns miseráveis, que, vós o sabeis, têm intenção de roubar-me, assassinar-nos a mim e a Branca e de..."
O padre Jorge, tapando com os dedos a boca do amigo, não o deixou acabar. Rosalina estava perto.
Alguns segundos de silêncio seguiram-se às últimas palavras de Eustáquio. Depois o padre Jorge, inclinando a cabeça para o peito, recaiu nas suas meditações.
— Tudo, tudo, disse então Eustáquio, suspirando, tudo se esclarece, exceto o mistério que encobre o meu protetor!...
O padre Jorge, com a cabeça caída, olhou para o amigo por dos óculos, e um sorriso expressivo correu-lhe pelo rosto.
Eustáquio, que não arredara os olhos do sacerdote, exclamou:
— Padre Jorge, vós conheceis!... Dizei-me quem é por favor!... Quem é esse ente misterioso que me tem protegido com tanto desinteresse. Debalde procuro na minha memória alguma cousa... Uma boa ação, que me houvesse granjeado o merecimento de uma dedicação como a que ele tem testemunhado...
Nessa ocasião Branca e Rosalina saíam da alcova abraçadas. O padre Jorge, indicando a menina, disse:
— Estás vendo aquela criança?... Deus não esquece os atos de caridade.
— Explicai-vos, disse Eustáquio. Rosalina... A que aludis?... Eu amparei-a, mas...
— Deus o viu... É por ela que alguém te protege. — Padre Jorge, não sei quem...
Branca e Rosalina se tinham aproximado. Eustáquio atraiu a si a menina, passou-lhe carinhosamente a mão pelos lindos cabelos negros e beijou-lhe a fronte. Rosalina sorrindo voltou o rosto com ademanes de pombinho. Depois, ouvindo Eustáquio falar, ergueu para ele os olhos redondos que lhe brilhavam no moreno fugitivo do semblante.
— Por ventura, dizia ele, seu pai...
— Meu pai?! gritou ela de repente. Está vivo! oh!... então tenho dous pais para amar!...
— Coitadinha murmurou o padre Jorge, vendo a alegria que se apossara de Rosalina.
— Eustáquio, continuou ele, tu desejas saber quem 6 que te tem defendido...
vou dizer-to; porém hás de prometer-me uma cousa: não procurar o teu defensor e esperar paciente que ele de modo próprio se apresente.
— Prometo!
— Tenho a tua palavra... Vou falar...
Eustáquio, Branca e Rosalina chegaram-se para o padre e esperaram com ansiosa curiosidade que ele falasse.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.