Por Domingos Olímpio (1903)
Teresinha ficou só no sítio de mistério e esconjúrio. Seus olhos esgazeados acompanhavam os movimentos sensuais do gato, que entrou a caminhar de um para outro lado, farejando e chamando a feiticeira com plangentes miados. Havia, no ambiente enfumarado, sombras adejantes, a atravessarem céleres, os traços luminosos das frestas, como enormes pássaros negros. Toda ela tremiam em arrepios aflitivos. Um formigueiro subia-lhe pelas pernas frias, entorpecidas. Gelado suor colava-lhe às têmporas, as loiras madeixas. Arfava-lhe o seio, angustiado por mortal compressão. Quis gritar, mas a voz esbarrou na garganta, embargada por um nó. Fixou o olhar fascinada no brilho do copo e viu se moverem nele, como em uma câmara clara, confusas figuras humanas, mulheres e homens, arrebatados por um furacão, com doidos volteios de dança macabra. Ao mesmo tempo, experimentava a impressão de alar-se do chão, sorvida pelo enorme e poderoso hausto de colossal boca invisível. Cresciam as figuras; tinham feições de pessoas conhecidas; riam com esgares ferozmente sarcásticos; envolviam-na; arrastavam-na no galope diabrino... Ela desmaiava de gozo, à deliciosa sensação de adejar no espaço, subtraída à gravitação, como um floco de nuvem, alma sem corpo.
Em plena alucinação, não perdera, todavia, os sentidos e a idéia, fixada e dominante em seu cérebro conturbado: o crime imputado a Alexandre e a infamação do castigo. As suspeitas, que lhe haviam cavado largo sulco no espírito, se acentuavam com o testemunho dos olhos, porque via, nos vultos cabriolantes em redor, autores e cúmplices do delito, indicados por Santo Antônio. O responsório produzira o apetecido efeito. Quando, entretanto, empregava enorme esforço por apreender bem os traços dos semblantes deformados por horríveis caretas, tênue fumaça, de cheiro inebriante, começou a invadir o quarto. As figuras mais se adelgaçaram, imergiram outras nos rolos vaporosos, para surgirem, depois, mais confusas, mais disformes e misturadas, até desaparecerem em treva densa.
Teresinha despertou, sacudida por forte acesso de terror, e vomitou um bolo de saliva efervescente.
As velas ardiam, lacrimejantes, ao lado do pequenino santo. De um fogareiro de barro, cheio de brasas amortecidas, subia tênue fio de fumo, cheiroso, dum azul delido. Rosa Veado, de joelhos, fitava nela os olhinhos fulvos como os do gato negro, que ressonava, então, estirado na esteira.
— Não se assuste... – observou baixinho, a feiticeira – O incenso consagrado foi-lhe aos grogomilhos...
— Vosmecê não saiu daqui?... – perguntou a moça, com voz magoada e débil, esfregando os olhos lacrimosos e congestos.
— Saí, sim. Fui buscar o fogareiro e o incenso...
— E não viu?!...
— O quê?!...
— Eles... pelo ar...
— Vi, mas foi você, de queixos cerrados e olhos esbugalhados, sem responder às minhas perguntas... Que rapariga medrosa!... Credo!... Nem que lhe houvesse aparecido alguma visagem!...
— Pois vi mesmo... Estou bem certa... Dê-me uma pinga d'água... que tenho uma coisa... aqui... na boca do estômago. Um entalo...
— Tome um golinho deste copo...
— Deste, não!... – atalhou vivamente Teresinha, com um gesto de repugnância – Não quero, está enfeitiçada... Ai... que tenho as pernas bambas, sem ossos...
— É o que eu digo. Tudo isso é medo... Bem se vê que você nunca assistiu a respônsio. Daí, bem pode ser que o glorioso Senhor Santo Antônio tivesse feito o milagre...
— Fez... fez... Eu vi tudo, muita coisa; mas não lembro bem... Espere... Era uma porção de gente maluca; era... Oh! tenho a cabeça a andar à roda e besoiros nos ouvidos...
Rosa Veado apagou as velas, guardou-as com o santo e conduziu Teresinha, que mal podia caminhar, vacilante, trêmula, para fora do quarto. À impressão violenta da claridade e do ar livre, ela esfregou, de novo, os olhos, e espreguiçou-se fatigada, em contorções felinas...
— Quando estiver com o juízo assentado – ponderou a feiticeira - há de recordar tudo... Agora é esperar com fé, e verá como a coisa se descobre, quando menos pensar. Quando pilhar uma ocasião, farei a adivinhação da urupema, que nunca falhou... Deixe por minha conta... Já sei que, nessa história, anda metida alguma mulher...
Confusa, envergonhada, todos os seus membros desmantelados, Teresinha partiu perseguida pelos olhares matreiros do mulherio da vizinhança, mal podendo arrastar as pernas trôpegas e doloridas, com as articulações a estalarem de perras e as virilhas traspassadas por alfinetadas pungentes.
Quando se viu longe da casa da Rosa, murmurou, irada e suspeitosa:
Aquela bruxa me botou quebranto...
CAPÍTULO Xi
Contra a expectativa de Luzia, Teresinha regressou desanimada e lânguida, sem a natural vivacidade e rapidez de movimentos, que lhe assinalavam a índole instável, a indiferença, quase inconsciente, da torpeza a que a fatalidade a arrastara. Tinha amortecidos e sombrios os olhos faceiros, e a comissura dos lábios, sempre arqueada pelo hábito do sorriso desdenhoso e irônico, se dilatava, desgraciosa, em torvo traço de sofrimento.
— Então?... – inquiriu Luzia, com ânsia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.