Por Bernardo Guimarães (1869)
Gonçalo, prevenido por Guaraciaba de que teria de contar ao pai dela a história dos acontecimentos de sua vida , já tinha fantasiado em seu espírito a narração que devia fazer ao velho cacique. Não lhe era preciso inventar muitas fábulas, mas somente disfarçar certas circunstâncias de sua vida mudando o nome de algumas pessoas e lugares e ocultando a sua verdadeira nacionalidade, para tornar interessante a sua narração. Assim pois misturando às vezes a história real de sua vida, cheia de incidentes e trabalhos, com algumas fábulas por ele mesmo ideadas, disse que pertencia à bela e formidável tribo dos Guaicurus, que habitavam as remotas regiões banhadas pelos rios Paraná e Paraguai. Seu pai era um cacique afamado naquelas paragens por seu grande valor e poderio. Esse cacique à testa de seus valentes guerreiros montados em grandes e velozes cavalos, percorriam as campinas de seu país natal com a rapidez do tufão, e causavam estragos e devastações imensas nos estabelecimentos dos brancos de quem se tinham tornado implacáveis inimigos. Enfim, depois de uma guerra desastrosa, ele, seu pai e toda a sua família tinham caído prisioneiros em poder dos brancos; depois tinham sido conduzidos por seus senhores a Goiás, onde foram vendidos e longo tempo gemeram vítimas de bárbaro e violento cativeiro, e onde vira seu pai sucumbir ao peso de maus tratamentos e excessivos trabalhos. Enfim crescendo em forças e idade, e não podendo por modo algum resignar-se a suportar o jugo infame da escravidão, conseguira evadir-se, e se refugiara nas matas do Alto Tocantins. Acolhido entre os Coroados, que habitavam essas regiões, em breve adquiriu a estima e apreço dos principais da tribo, que o escolheram para comandar uma expedição que tinha de marchar a exercer vinganças e depredações nas povoações dos imboabas. Aproveitou-se com sofreguidão dessa ocasião para vingar a morte de seu pai, matando com a própria mão o seu algoz e reduzindo a cinzas suas fazendas. Em muitas outras ocasiões teve de prestar os mais importantes serviços aos Coroados, quer expondo intrepidamente a sua vida na guerra, quer ensinando-lhes diversos ofícios e artes, que aprendera durante o seu cativeiro entre os brancos, quer enriquecendo-os com instrumentos, armas e mil outros despojos de imenso valor, que saqueava das fazendas que destruía. Mas enfim seus próprios feitos e serviços suscitaramlhe uma multidão de inimigos, excitando a inveja e descontentamento de muitos, que tinham ciúme do brilho e lustre que seu nome ia adquirindo entre eles. Seus rivais não ousavam guerreá-lo abertamente, mas urdiam-lhe ciladas de todo o gênero, e moviam-lhe uma perseguição traiçoeira, à qual teria inevitavelmente sucumbido, se não tivesse fugido ocultamente a favor da noite em uma canoa confiando sua vida à mercê da corrente do rio sagrado, que o tinha conduzido até
ali, afrontando novos trabalhos e perigos em busca de um asilo em qualquer canto do mundo. Chegando àquelas paragens eles Chavantes tomando-o por um inimigo, ou imboaba, o tinham atacado tão bruscamente e com tal sanha, que o colocaram na necessidade de defender-se com encarniçamento até o último trance.
Enfim nenhuma inimizade ou indisposição tinha com os Chavantes, de cujo poderio tinha muitas vezes ouvido falar, e cuja bravura ecoava até as mais remotas regiões. Esperava que dali em diante não o considerassem mais como um inimigo, nem como um estrangeiro, porém sim como um companheiro de mais, um aliado fiel, que não aspira a outra coisa mais do que a ter ocasião de expor sua vida e derramar seu sangue pela causa dos valentes Chavantes, e de seu bravo e poderoso chefe.
Gonçalo entremeara nesta narração os inúmeros e variados episódios de sua vida agitada e aventureira, envolvendo-os em circunstâncias estranhas e fantásticas; pintava com modéstia, porém com animação e calor, os renhidos combates em que tinha suplantado seus inimigos e rivais, os rudes trabalhos e arriscadas aventuras por que tinha passado, as proezas que praticou comandando os Coroados em suas correrias pelas fazendas dos brancos, e assim teve por largo tempo presa a atenção do cacique e mais ouvintes, que absortos e enlevados não se fartavam de escutá-lo.
— Bem! Disse o velho caudilho apenas Gonçalo deu por terminada a sua narração; os teus infortúnios me tocam, e tuas palavras parecem-me ser inspiradas pelo espírito da verdade. Itajiba, tu és um bravo, e as façanhas que tens praticado são dignas dos mais valentes caciques. Mas antes de seres adotado em nossa tribo, como pareces desejar, é mister que proves com os teus feitos e com serviços reais, que não com meras palavras, a força de teu braço, a valentia de teu ânimo, e a lealdade de teu coração. Por agora porém cumpre que continues o teu curativo, e que recuperes completamente com o sangue vazado por tantas e tão graves feridas a saúde e as forças de que haverás mister para te sujeitares a essas provações, e mostrares o que podes e sabes fazer. Não serás mais tratado como prisioneiro; és livre; as florestas e as campinas te são francas; podes por elas vagar e caçar a teu sabor, como se estivesses em teu país natal, pois que essa formosa criatura, a quem por felicidade tua soubeste inspirar interesse e piedade, garante a sinceridade de tuas palavras, e a minha Guaraciaba, que conversa com os manitós celestes, e escuta as falas dos sagrados pajés, não costuma iludir-se.
Gonçalo ou Itajiba, como se chamou durante o tempo que esteve entre os Chavantes, restituído à liberdade, e tratado com o mais carinhoso desvelo na taba do velho Oriçanga, sentia de dia em dia renascerem-lhe as forças e vigorar-se-lhe a saúde. Viu com prazer que todas as suas armas lhe tinham sido fielmente conservadas. Mas suas armas de fogo se lhe tornavam daí em diante completamente inúteis, pois estavam vazias, e nenhuma munição lhe restava para de novo carregá-las; isto causava-lhe bastante pesar, pois essas armas com suas temerosas detonações e seu maravilhoso mecanismo seriam um objeto de assombro para aqueles selvagens e mais um meio para atrair seu respeito e admiração, e dar a Gonçalo ainda mais prestígio entre eles.
Notou ainda mais, com íntima satisfação, que lhe tinham deixado intacto o sagrado talismã objeto de seu fervoroso culto, a imagem de sua celestial protetora em todos os trabalhos e perigos da vida. A curiosa Guaraciaba não pôde deixar de perguntar-lhe o que significava aquele objeto com aquela linda imagenzinha de ouro, que sempre trazia pendente ao pescoço.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.