Por Machado de Assis (1876)
Vicente era o escravo que, como sabemos, se afeiçoara, primeiro que todos, a Helena; Estácio designara-o para servi-la. A notícia do passeio não lhe agradou. O tempo andava com o passo do costume, mas à ansiedade do mancebo afigurava-se mais longo... Estácio chegava à janela, ia até ao portão da chácara, com ar de aparente indiferença, que a todos iludia, a começar por ele próprio. Numa das vezes em que voltou à casa, achou levantada D. Úrsula; falou-lhe; D. Úrsula sorriu com tranqüilidade.
Que tem isso? disse ela. Já uma vez saiu a passeio com o Vicente e não aconteceu nada.
Mas não é bonito, insistiu Estácio. Não está livre de um ato de desatenção.
Qual! Toda a vizinhança a conhece. Demais, Vicente já não é tão criança.
Tranqüiliza-te, que ela não tarda. Que horas são?
Oito.
Dez ou quinze minutos mais. Parece-me que já ouço um tropel...
Os dois estavam na sala de jantar; passaram à varanda, e viram efetivamente entrar no terreiro Helena e o pajem. Helena deu um salto e entregou a rédea de Moema ao pajem que acabava de apear-se. Depois subiu a escada da varanda. Ao colocar o pé no primeiro degrau, deu com os olhos no irmão e na tia. Fez-lhes um cumprimento com a mão, e subiu a ter com eles.
Já de pé! exclamou abraçando D. Úrsula.
Já, para lhe ralhar, disse esta sorrindo. Que idéia foi essa de bater a linda plumagem? É a segunda vez que você se lembra de sair sem o urso do seu irmão.
Não quis incomodar o urso, replicou ela voltando-se para Estácio. Tinha imensa vontade de dar um passeio, e Moema também. Apenas hora e meia.
Aquele dia foi o de maior tristeza para a moça. Estácio passou quase todo o tempo no gabinete; nas poucas ocasiões em que se encontraram, ele só falou por monossílabos, às vezes por gestos. De tarde, acabado o jantar, Estácio desceu à chácara. Já não era só o passeio de Helena que o mortificava; ao passeio juntava-se a carta. Teria razão a tia em suas primeiras repugnâncias? Como ele fizesse essa pergunta a si mesmo, ouviu atrás de si um passo apressado e o farfalhar de um vestido.
Está mal comigo? perguntou Helena com doçura.
Ao ouvir-lhe a voz, fundiu-se a cólera do mancebo. Voltou-se; Helena estava diante dele, com os olhos submissos e puros. Estácio refletiu um instante.
Mal? disse ele.
Parece que sim. Não me fala, não se importa comigo, anda carrancudo... Seria por eu sair de manhã?
Confesso que não gostei muito.
Pois não sairei mais.
Não; pode sair. Mas está certa de que não corre nenhum perigo indo só com o pajem?
Estou.
E se eu lhe pedir que não saia nunca sem mim?
Não sei se poderei obedecer. Nem sempre você poderá acompanhar-me; além
disso, indo com o pajem, é como se fosse só; e meu espírito gosta, às vezes, de trotar livremente na solidão.
Naturalmente a pensar de coisas amorosas... acrescentou Estácio cravando os olhos interrogadores na irmã.
Helena não respondeu; tomou-lhe o braço e os dois seguiram silenciosamente uns dez minutos. Chegando a um banco de madeira, Estácio sentou-se; Helena ficou de pé diante dele. Olharam um para o outro sem proferir palavra; mas o lábio de Estácio tremera duas ou três vezes como hesitando no que ia dizer. Por fim o moço venceu-se.
Helena, disse ele, você ama.
A moça estremeceu e corou vivamente; olhou em volta de si, como assustada, e pousou as mãos nos ombros de Estácio. Refletiu ela no que disse depois? É duvidoso; mas a voz, que nessa ocasião parecia concentrar todas as melodias da palavra humana, suspirou lentamente:
Muito! Muito! Muito!
Estácio empalideceu. A moça recuou um passo, e, trêmula, pôs o dedo na boca, como a impor-lhe silêncio. A vergonha flamejava no rosto; Helena voltou as costas ao irmão e afastou-se rapidamente. Ao mesmo tempo, a sineta do portão era agitada com força, e uma voz atroava a chácara:
Licença para o amigo que vem do outro mundo!
CAPÍTULO X
Estácio dirigiu-se ao portão. Abriu-o; um moço que ali estava entrou precipitadamente. Era Mendonça. Os dois mancebos lançaram-se nos braços um do outro. Helena, a alguma distância, presenciou aquela efusão, e não lhe foi difícil adivinhar quem era o recém-chegado.
A efusão cessou, ou antes interrompeu-se, para repetir-se. Quando os dois rapazes se julgaram assaz abraçados, tomaram o caminho da casa. Helena, que estava um pouco adiante deles, foi apresentada a Mendonça. Ao ouvir que era irmã de Estácio, Mendonça ficou espantado. Cortejou cerimoniosamente a moça, e os dois seguiram até à casa, onde pouco depois entrou Helena.
Mendonça era da mesma estatura que Estácio, um pouco mais cheio, ombros largos, fisionomia risonha e franca, natureza móbil e expansiva. Vestia com o maior apuro, como verdadeiro parisiense que era, arrancado de fresco ao grand boulevard, ao Café Tortoni e às récitas do Vaudeville. A mão larga e forte calçava fina luva cor de palha, e sobre o cabelo, penteado a capricho, pousava um chapéu de fábrica recente.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.