Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
BRAZ – Madrinha, tudo que Deus faz é por melhor; veja que de três harpias escapou; se se casasse com algum deles sabe o que teria de sofrer?...
VIOLANTE (Encolerizada,) – O que?... O que?... O que?...
BRAZ – Teria de sofrer... et coetera, et coetera, madrinha.
CASIMIRO – E ficamos sem noivo para o banquete do noivado!
BRAZ – Menos essa... já temos um... (Mostrando Mário.) e eis aí outro.
CENA IX
BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE, LAURIANO e, logo depois, PORFÍRIO.
LAURIANO – Minhas senhoras! Meus senhores! (Cumprimento.) IRENE – Vens radioso de alegria...
LAURIANO – Felicitem-me! Acabo de saber que com ótima aprovação nos exames de suficiência, que fiz, estou habilitado para ensinar diversas matérias de instrução secundária e tenho já prévios ajustes para lecionar em quatro colégios: oito horas de trabalho por dia; mas é quase riqueza, e seria riqueza completa (olhando Casimiro e Clemência.) se me fosse dado reparti-la com a escolhida do meu coração...
BRAZ – Et coetera, Casimiro, et coetera! Isso é claríssimo, e cai do céu; não cai do céu dª. Clemência?...
PORFÍRIO (Arrebatado.) – Que é dele?... Que é dele?... Quero abraçá-lo.
CASIMIRO – Quem?
PORFÍRIO – O capitão Jorge de Souza? Que é dele?...
BRAZ (A Clemência.) – Temo-la travada!
CLEMÊNCIA (A Braz.) – Agora pouco importa.
PORFÍRIO – Mas que é do capitão?
CASIMIRO – Estás doido?
VIOLANTE – Que capitão, senhor?... Não sabe que o meu infeliz primo Jorge morreu há dois anos em combate no Paraguai?
PORFÍRIO – Mas ressuscitou: no Paraguai muitas vezes se ressuscita; aqui está a gazetilha do Jornal do Commercio de hoje... (Mostra o jornal.) VIOLANTE – Ressuscitou! Meu primo!...
PORFÍRIO – Estão cambando?... A gazetilha diz que a notícia é dada pela família; aqui está (Lendo.): “O capitão Jorge de Souza, que todos julgavam morto, escapando ao inimigo que o tinha prisioneiro, apresentou-se aos seus bravos companheiros no mesmo dia da vitória do Campo Largo e chegou ontem a esta corte no transporte de guerra”
VIOLANTE – Meu primo! Meu primo!
PORFÍRIO – Mas é de pasmar! Não os entendo... a gazetilha fala na senhora...
VIOLANTE – Em mim?... Essa é boa! Eu em letra redonda por fim de contas.
PORFÍRIO – Aqui está! Diz, que conforme condição expressa do testamento de seu tio e padrinho, a senhora, sua única e universal herdeira, estava obrigada a entregar toda a herança ao filho, o capitão Jorge de Souza, se em qualquer tempo ele aparecesse vivo...
VIOLANTE – Isso é uma grande mentira; não há tal condição no testamento!
PORFÍRIO – Vamos a melhor!... A gazetilha acrescenta que a senhora ontem mesmo apressou-se a fazer plena entrega da imensa fortuna que herdara, ficando em completa pobreza, mas abençoando generosa a chegada de seu primo. (Violante mede Clemência de alto abaixo.) Explique-me esta embrulhada...
CLEMÊNCIA (Abaixando os olhos.) – A titia perdoe... se a gazetilha não está bem redigida... para outra vez escreverei melhor.
PORFÍRIO – Eu fico às escuras!... Que quer dizer isto?
BRAZ – Foi uma aposta que acabou sem vencedora; pois o vencedor foi somente o dinheiro, que conquistou três miseráveis, logo depois fugidos em debandada ao anúncio da pobreza.
PORFÍRIO – Fiquei na mesma; o Braz quando não diz et coetera é ininteligível.
VIOLANTE (A Braz.) – Meu Braz, vexame até aqui! Por fim de contas não sei onde me esconda!
BRAZ (A Violante.) – Espere, que eu a salvo já. (Alto.) Basta de enganar estes pobres meninos: Clemência e Lauriano, Irene e Mário, tendes sido desde alguns dias objetos do nosso inocente divertimento; aqui não há velha noiva ridícula, nem velho com pretensões anacrônicas: ajoelhai-vos diante da tia benfeitora e do pai extremoso!
MÁRIO e CLEMÊNCIA – Como?... Então?...
BRAZ – Mário, eis as dispensas necessárias para que no fim de oito dias estejas casado com dª. Irene; a assinatura de Casimiro nestes papéis esclarece tudo.
MÁRIO – Meu bom pai!... (Recebe os papéis, e vai com Irene beijar a mão de
Casimiro.)
CASIMIRO (A Braz.) – Obrigado, Braz, obrigado. (Aperta-lhe a mão.)
BRAZ – Dª. Clemência, a madrinha nunca pensou em casar-se, quer viver, e vive para seus parentes, e ontem ordenou-me que tivesse pronto para cada um de seus dois sobrinhos um dote de cinqüenta contos de réis.
CLEMÊNCIA – Titia... escuse-me as travessuras... sempre a amei... (Beija-lhe a mão.)
MÁRIO – Com o produto da venda de Hipogrifo, titia, são cinqüenta e dois contos de réis para a minha Irene; não quero porém desigualdades; cedo um conto de réis a Clemência, e beijo-lhe a mão... vem beijá-la também, Irene!...
VIOLANTE (À sobrinha e Irene, que lhe beijam a mão.) – Me deixem!
Baixar texto completo (.txt)Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.