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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Os meus dois informantes continuavam a asseverar o que me diziam sobre a interessante Perpétua Mineira; mas em falta de testemunho mais seguro, limitei-me a tomar notas das informações sem poder aceitá-las como incontestáveis.

Agora, escrevendo as Memórias da Rua do Ouvidor e chegando nelas à época da conjuração dos inconfidentes de Minas Gerais, das perseguições e do terror do vice-reinado do Conde de Rezende, lembrei-me daquelas informações, e tomando-as por base, recorri sem cerimônia aos meus velhos manuscritos e achei logo neles a tradição completa, a tradição-romance de Perpétua Mineira, que passo a contar.

Não asseguro, mas inclino-me a crer, a admitir ao menos o fato da existência de Perpétua Mineira com a saleta de pasto, ou de jantar e ceias, na sua casa da Rua do Ouvidor; admito a probabilidade dos amores de Perpétua e do Tiradentes. O mais vai sair dos meus velhos manuscritos por conta e risco exclusivamente deles e sem responsabilidade do memorista consciencioso.

É tradição-romance de Perpétua Mineira para diante.

Em pequena casa térrea de porta e janela que em princípio do século atual ainda se via, na Rua do Ouvidor ao lado direito e pouco antes da quina da Rua Detrás do Carmo, como triste amostra das acanhadas e rudes construções dos primeiros tempos da cidade, morava uma mulher a quem chamavam Perpétua Mineira.

Perpétua era com efeito o seu nome de batismo; o de família ninguém o conhecia, porque ela não o tinha e a alcunha de mineira lha puseram no Rio de Janeiro pela sua naturalidade da capitania de Minas Gerais.

Era ainda mais infeliz do que se fora órfã, era ou fora enjeitada, e nunca a procuraram os pais. No seio da família caridosa que a recolhera, aprendera ao menos a trabalhar; aos dezoito anos de idade, porém, fora segunda vez enjeitada, expulsa da casa beneficente pelo crime de ter sido seduzida pelo filho mais velho dos seus protetores.

O sedutor apaixonado amante da enjeitada quis, a despeito da oposição de seus pais ricos e presunçosos de nobre sangue, desposá-la, e dar-lhe, como devia, o seu nome; Perpétua, porém, a chorar e a maldizer de sua fraqueza, lembrou quanto por ela tinham feito os caridosos adotadores da inocente e mísera recém-nascida exposta, abandonada à porta de estranhos, e agradecida até ao sacrifício de sua honra, impôs ao filho revoltado obediência aos pais, deu-lhe em despedida um, o último beijo, e, fugindo à capitania do seu berço, veio para a cidade do Rio de Janeiro no ano de 1784, e quase logo foi ocupar a casa da Rua do Ouvidor, que ficou mencionada, e que houve a preço de seis cruzados de aluguel por mês.

Perpétua pôs-se a costurar, foi ela a primeira, não modista, mas costureira da Rua do Ouvidor; tão pouco, porém, rendiam-lhe as costuras, que para viver começou a explorar outro recurso, abrindo ao concurso do público na pequena saleta de sua casa mesa muito asseada, na qual vendia lombo de porco em vários guisados primorosamente preparados, lingüiças e bolos, e diversos acepipes culinários de farinha de milho.

Em linguagem moderna combinada com a antiga, inglesa abrasileirada, a pobre e infeliz Perpétua abriu casa de lunch - à mineira.

Foi daí que começou a sua alcunha Perpétua Mineira.

E sem o pensar ela foi ali na Rua do Ouvidor a precursora de Mme Joséphine, costurando, e do Sr. Guimarães, fazendo lunch à mineira.

De estatura alta, e bem talhada de corpo, Perpétua tinha negros e belos os cabelos e os olhos, o rosto branco e de encantador oval, trazendo nas faces as pulcras rosas de além das serranias do Ocidente.

Apenas lhe amesquinhavam as graças físicas, as mãos trigueiras e ásperas pela rudeza do trabalho e os modos e falas agrestes que denunciavam a sertaneja, pouco afeita aos costumes e aos lavores da sociedade urbana.

Bonita como era, Perpétua adquiriu logo boa freguesia freqüentadora da sua saleta de pasto, onde muitos dos mineiros que vinham à cidade do Rio de Janeiro também e de preferência iam para jantar ou cear à moda da capitania.

Tão jovem que ainda se poderia dizer menina, Perpétua, vivendo só, manteve durante um ano procedimento irrepreensível, foi casta depois de seduzida, bem que não lhe faltassem namoradores e apaixonados entre os fregueses da saleta de pasto.

Mas um dia alguns mineiros chegados da capitania deram à pobre enjeitada a notícia do casamento do seu querido sedutor. Por explicável contradição de sentimentos em alma exaltada, ela, que generosa impusera ao amante obediência à vontade dos pais, ao saber que a obediência se cumprira, sentiu o peso da morte no coração, adoeceu gravemente, foi levada para a Santa Casa da Misericórdia, donde no fim de dois meses saiu restabelecida da moléstia cerebral que lhe ameaçara a vida, mas trazendo alteração lamentável em seu caráter.

(continua...)

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