Por Gregório de Matos (1696)
13 Que vista, quem rendas tem,
galas vistosas por traça,
suposto que bem mal faça,
inda que mal, fará bem:
mas que vista, quem não tem
mais que uma pobre sarjeta,
que lhe vem pela estafeta
por milagre nunca visto!
Será: porém sendo isto
efeitos são do cometa.
14 Que não veja, o que há de ver
mal no bem, e bem no mal,
e se meta cada qual,
no que não se há de meter:
que queira cada um ser
Capitão sem ter gineta,
sendo ignorante profeta,
sem ver, quem foi, e quem é!
Será: mas pois se não vê,
efeitos são do cometa.
15 Que o pobre, e rico namore,
e que com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que Ihe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas ao intento
efeitos são do cometa.
16 Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e os outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
NECESSIDADES FORÇOSAS DA NATUREZA HUMANA.
Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma Freira, que me desentupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas Ihe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei, por quem ma vaze toda Europa?
Amigo. quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da sua mão sua cachopa.
A HUMA DAMA QUE SE DESVIAVA DE LHE FALAR.
MOTE
Busco, a quem achar não posso.
Amo sem poder falar,
morro, porque quero bem,
o calar morto me tem,
quero, mas quero calar:
porque enfim hei de penar
sendo toda vida vosso,
pois por mais que me alvoroço
largando as velas à fé,
morro, meu amor, porque
Busco, a quem achar não posso.
A HUM LIVREYRO QUE COMEU HUM CANTEYRO DE ALFACES.
Levou um livreiro a dente
de alfaces todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desenquadernadamente:
porém eu digo, que mente,
o que nisso o quer culpar;
antes é para notar,
que trabalhou como um Mouro,
que o meter folhas no couro
também é enquadernar.
ELEGE PARA VIVER O RETIRO DE HUMA CHACARA, QUE COMPROU NAS ARGENS
DO DIQUE, E ALI CONTA, O QUE PASSAVA RETIRADO.
Por bem-afortunado
Me tenho nestes dias,
Em que habito este monte a par do Dique,
Vizinho tão chegado
Às Taraíras frias,
A quem a gula quer, que eu me dedique.
Aqui vem o Alfenique
Das pretas carregadas
Com roupa, de que formam as barrelas:
Não serão as mais belas,
Mas hão de ser por força as mais lavadas;
E eu namorado desta, e aqueloutra
De um a lavar me rende o torcer doutra.
Os que amigos meus eram,
Vêm aqui visitar-me;
Amigos, digo, de uma e outra casta:
Oh nunca aqui vieram,
Porque vêm agastar-me,
E nunca deixam cousa, que se gasta.
Outro vem, quando basta,
Fazer nesta varanda
Chacotas, e risadas,
Cousas bem escusadas,
Porque o riso não corre na quitanda,
Corre de cunho a prata,
E amizade sem cunho é patarata.
A casa é espaçosa
Coberta, e retelhada
Com telha antiga de primeiro mundo,
Palha seca, e frondosa
Um tanto refolhada
Da que sendo erva Santa, é vício imundo;
O torrão é fecundo
Para a tal erva Santa:
Porque esta negra terra
Nas produções, que erra,
Cria venenos mais que boa planta:
Comigo a prova ordeno,
Que me criou para mortal veneno.
DEFINIÇÃO DO AMOR.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.