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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

As descrições que começam a chegar do aspecto do distrito fazem estremecer: a perder de vista, a terra seca, exausta, tem uma cor quase negra; não se descobre nenhuma verdura. A água dos poços, salobra e infecta, dá doenças terríveis aos que a bebem. Só se vê gente lívida, de uma magreza de esqueleto, com o tremor da febre, em andrajos. O colmo, que forma os tectos das casas, foi por toda a parte tirado para substituir a forragem do gado de todos os pontos. Milhares e milhares de pessoas vêm emigrando acossadas pela fome, implorando desesperadamente socorro dos empregados do Governo. E começa a aparecer uma doença própria da fome, que é a formação de pústulas na pele!

Nesta crise o governador do estado, o duque de Buckingham, presidiu a um grande meeting em Madras, onde se resolveu pedir auxílio à Inglaterra; a organização administrativa, que obriga cada estado da Índia a prover às suas próprias necessidades, não pode ser respeitada nesta desgraça. E necessário recorrer ao resto da Índia, à Inglaterra, a todo o vasto Império Britânico, e, se for necessário, estender a mão à caridade do mundo»

É justo dizer-se que a imprensa inglesa pede com grande energia que todos os recursos da Inglaterra sejam postos em acção para fornecimento rápido de alimento, ainda que se gastem milhões. Reclama-se que se encham de cereal os depósitos; que se estabeleçam caminhos de ferro de campanha, para levar socorro aos pontos mais remotos; que se formem serviços de transporte de carros puxados por homens; que se promova um vasto sistema de poços artesianos; que se levantem grandes acampamentos-asilos – onde os esfomeados recebam rações; que se inste fortemente com a caridade de todo o império – e, enfim, que se faça tudo o que pode dar o dinheiro! Se a calamidade se pode combater com libras esterlinas, diz-se que se empenhe a luta. Libras esterlinas não faltam!

E que me dizem à campanha do Danúbio? Positivamente, os Turcos são um povo de surpresas. Há dois meses, entusiastas da Rússia diziam-nos: «Vão ver, vão ver, o que é uma guerra rápida e uma lição tremenda! A Rússia vai mandar dois exércitos: um à Ásia, outro ao Danúbio; um conquista a Arménia, outra entra em Constantinopla; e o Império Otomano esfarela-se como um torrão seco!»

E os melhores amigos da Turquia calavam-se, receando bem que esta profecia atrevida se realizasse em quatro semanas...

Com efeito, uma invasão preparada, de há muito apregoada, ornada de proclamações e coberta de bênçãos, começa a mover-se e, como um rio que se bifurca, corre de um lado sobre a Ásia, do outro sobre o Danúbio. E a profecia começa sinistramente a realizar-se! Em quatro semanas o exército russo, com uma tranquilidade de parada e, por assim dizer, a divertir-se, quase que conquista a Arménia. E os entusiastas da Rússia a gritar logo: «Que lhes dizíamos nós? Lá devorámos a Arménia.»

As igrejas de Sampetersburgo ressoavam de te Deum, e o czar começava a fazer a lista dos funcionários que deviam ir administrar a nova conquista e levar às populações arménias as doçuras da tirania russa.

De repente, zás! Sem se saber como, de manhã para a noite, Muktar Paxá aparece – e os Russos vitoriosos, os Russos conquistadores, começam a recuar, a perder terreno, a abandonar posições, a levantar os cercos começados; a retirada transforma-se em debandada; Muktar Paxá, sempre, sem se saber muito bem como, vai-os levando, de derrota em derrota, até os sacudir, com o sabre sobre a ilharga, para lá da fronteira persa! E a Arménia estava livre!

Os entusiastas da Rússia mordiam um pouco o beiço; mas, com o seu aplomb ordinário, recomeçavam: «É verdade, é uma derrota. Mas também, a falar verdade, nós não queríamos a Arménia para nada. A campanha da Arménia era uma diversão. O verdadeiro fim, o objecto da guerra é Constantinopla. A verdadeira luta é aqui no Danúbio, na Bulgária. Vão ver. Vão ver como em duas semanas nós estamos em Constantinopla!»

E os apaixonados da Turquia, ainda os mais ingénuos, pensavam com terror que era bem possível que assim fosse. A Turquia estava tão pobre! O seu exército tão mal comandado! A sua administração tão corrupta! O seu armamento tão incompleto! A sua vitalidade tão debilitada!... Com efeito, a Rússia põe-se em movimento, e a nova profecia começa a ter uma realização maravilhosa. Em duas semanas os Russos atravessam o Danúbio, estabelecem-se na Bulgária, dirigem-se para os Balcãs, passam os Balcãs como numa mágica e começam a preparar a marcha triunfal sobre Constantinopla. «Que lhes dizíamos nós?», exclamam os russófilos. «Lá vão eles. Além de amanhã, o estandarte russo flutuará em Santa Sofia!»

(continua...)

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