Por Eça de Queirós (1925)
Foi um desgosto para as senhoras. Tinha sido a atrapalhação. Fôra com a chegada do menino ! O Albuquerquezinho havia de perdoar !
— É por culpa minha, — disse Sabina que as deixei fazer pela Joanna.
— Está claro, — exclamou Ricardina — é culpa sua ! Eu bem lhe tinha dito que deixasse os ovos ó Joanna e fizesse a menina as torradas. Mas não,
quer-se sempre regular pela sua cabeça ! Veja onde a levou a sue cabeça ! e aflautando a voz, muito tesa, : olhe o desgosto que soffreu !
A Sabininha, encolhida, sorvia a sua pitada. E Albuquerque, voltando-se para Arthur, com a testa franzida :
É que o amigo, que vem de Coimbra, comprehende, ou são torradas ou é pão secco !
Arthur respondeu, lhuito serio :
— Tem V. Ex.a muita razão, snr. Almirante. Subitnmente o velho calmou-se, passando com satisfação as mãos espalmadas sobre os quatro pel10s da calva. As faces das senhoras illuminaram-se n'um reconhecimento Commovido, e a Sabininha, sem se conter, passou Os dedos magros pelo rosto de Arthur, dizendo enternecida :
— Ai. não podes negar que és filho do mano Manuel. É o mesmo COra.g?ao d'anjo.
E durante um momento -Arthur sentiu-se bem entre aquelles corações antiquados, tão faceis de alegrar, n'aquella casa normecida, a um canto de Villa triste, onde errava Por entre os moveis, a que o longo uso dera quasi uma expressão humana, um cheiro pacato d'alfazenla.
E mesmo o Albuquerquezinhc lhe pareceu tocante, quando, estendenao sobre a mesa o seu braço agaloado d'ouro, lhe declarou com amizade : — Hei-de leval-o ázmaaua a bordo.
— uma grande honra— respondeu sorrindo. Mas tinham dado as dez e meia e as senhoras ergueram-se para ir, com as duas creadas, rezar o terço ao oratorio.
Arthur, acanhado, ficou só na sala triste, defronte do Albuquerquezinho, que de mãos cruzadas sobre o ventre, cahira n'uma somnolencia, que lhe vinha geralmente depois do chá.
Quando as tias voltaram, cabeceando, d'aquelle terço monotono no oratorio, o Albuquerquezinho acordou, compoz as repas da calva e erguendo-se, disse com satisfação :
— Pois, senhoras, passou-se o bocadito da noite. Deram então um castiçal a Arthur, com recomhnendagõeg infinitas : que apagasse a luz antes de adormecer, que não deixasse os phosphoros espalhados por causa dos ratos .
— Eu estou lá ao pé, eu estou lá ao pé — disse o Albuquerque. Eu lá vigiarei. E se o amigo quizer alguma cousa é bater na parede ! Vamos, boas noites !
subiram para o corredor, o Albuquerquezinho adiante, devagar, bocejando, puxando-se pelo corrimão.
— Pois amigo,— disse — não ha nada melhor do que uma somnecazinha depois das torradas. Que ellas hoje estavam más : mas emfim foi dia de hospede. O que o amigo deve vir, 6 caneado. Tres horas de diligencia . . . Ouça lá, as conveniencias são ao fundo do corredor.
E Arthur pasmava de o vêr tão 'sensato, quando o Albuquerquezinho, parando á porta do seu quarto, fez a continencia ao soldado de papel e deu este santo e senha, para entrar a bordo :
— Nelson e Sabininha !
Só no seu quarto, Arthur, sentado na cama, começava a fumar o seu cigarro, quando de fóra a voz de Ricardina fallou pela fechadura :
— Pois tu estás ainda a pé, menino ? Ai, apaga a luz, apaga a luz . . . Dize se estás a fumar ?
— Não, tia Ricardina.
— Ai, filho, pelas chagas de Christo, tem cuidado com o fogo.
Deitou-se desesperado, pensando no que faria para fugir 'bem depressa d'aquella caga embrutecedora, onde nem poderia lêr de noite na cama ou trabalhar, sem que uma das velhas viesse, na sua ronda, fazer-lhe soprar a luz e as imaginações.
Ao outro dia, ao erguer-se, foi abrir a janella. Era uma manhã resplandecente. Em baixo, estendia-se toda uma verdura de pomares e hortas, com tanques aqui e além, onde espelhava a agua ; brancuras de roupa a seccar, casas caiadas, faiscavam ao sol. O quintal das tias, d'onde se subia por tres degraus de pedra para o pateo da creação, era certado d'um muro baixo erriçado de fundos de gar52
rafas. Estava plantado de couves, alfaces, feijões ; pés de roseiras e dhglias faziam um jardinete ao canto ; no fundo, debaixo d'arvores, era o poço, e sobre o seu pedestal, uma estatueta de gesso da Fortuna, com o pé no ar, a cornucopia alta, bran quejava na luz forte.
E Arthur, debruçado, fumava, quando da janella ao lado, sahiu um braço agaloado d'ouro e immediatamente uma voz formidavel retumbou :
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.