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#Contos#Literatura Portuguesa

São Cristóvão

Por Eça de Queirós (1912)

Abrenuntio!

Cristóvão ficou imóvel. Também ela, pois, o temia, não o queria mais! Não havia em toda a aldeia já um coração que lembrasse. As crianças fugiam dele. Por que? lentamente afastou os passos, tão triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar. Ao lado o pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debruçado sobre ele, olhou a sua face. Então, pela primeira vez, sentiu a sua fealdade. Decerto o repeliam por ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado com o peso da sua fealdade, Cristóvão para sempre deixou os lugares onde nascera.

X

Longos dias caminhou. O país era deserto, com rochas; grandes despenhadeiros. A sede levou-o a um regato, que cantava entre as pedras. Bebeu, e foi seguindo aquela água clara que fugia. Ao fim de longas marchas encontrou um rio. Colinas suaves, onde branquejavam casas, erguiam-se dos dois lados da corrente serena e muda, orlada de salgueiros. Uma ponte antiga ligava as duas margens – e tendo-a passado avistou, erguidos, recortados na manhã clara, os muros de uma cidade. Quase de repente duas portas, sob uma torre que encimava a muralha, rodaram: - e delas irrompeu uma multidão que fuga, Era gente que trazia às costas as enxergas, as bilhas de água. As crianças, chorando, agarravam-se ás saias das mães; os velhos erguiam os braços, para que esperassem por eles – e por vezes todos se afastavam de algum cavaleiro, que, embuçado no manto, a pluma do chapéu ao vento, se escapava ao galope de um ginete magro. Um fumo, como de fogueiras, subia por trás das muralhas; as ameias não tinham sentinelas; e todo o ar estava cheio do dobrar de finados, badalado nas torres.

A turba que fugia, vendo Cristóvão, corria mais espantada, tropeçando, caindo sob o peso dos fardos; ele estendia os braços para amparar os velhos; o terror crescia: - e em torno de suas pernas, como em volta de torres, a multidão debandava gritando.

Chegou por fim à entrada da cidade. Dois soldados atônitos fecharam as portas. Cristóvão galgou o fosso, transpôs as muralhas. Diante dele abria-se uma rua, com trapos caídos nos enxurros, e todas as portas fechadas sob as tabuletas, que rangiam na haste de ferro ao vento agreste. Um fétido terrível tornava o ar pesado: e dois frades, erguendo o hábito, fugiam de um homem que se espojava no chão, com a face toda verde, a boca escancarada, gritando por água! Cristóvão correu para ele, ergueuo nos braços, levou-o a um chafariz, onde a água jorrava de carrancas. O homem bebeu a largos tragos – as suas pernas inteiriçavam-se, e ficou nos joelhos de Cristóvão morto, já quase decomposto. Mas, de uma casa próxima, gritos soavam; e, erguendo a face, viu uma velha esguedelhada, que da esguia janela, onde restava um pé de flor seca num vaso, chamava por socorro, torcendo os braços. Das janelas vizinhas faces pálidas espreitavam. Mais longe, prantos novos se ergueram; Cristóvão, tendo posto o cadáver no chão, olhava espantado sem compreender a dor que parecia pesar na cidade. De uma taberna. subitamente, saíram soldados bêbados, cambaleando, cantando, com as faces lívidas de uma noite de vinho e orgia. Cristóvão ia interrogá-los – quando um de repente caiu, torcendo-se num agonia. Os outros, subitamente desembriagados, fugiram. E Cristóvão acudia ao agonizante, quando ele ficou hirto, morto. Ao fundo da rua passava uma procissão em que um padre, de túnica branca, erguia um relicário que reluzia, enquanto mulheres, atrás, descalças, desgrenhadas, torciam os braços, clamando para o Céu misericórdia. Os sinos não cessavam o seu dobre a finados: e homens trazendo barricas de breu, acendiam às esquinas fogueiras que subiam ao ar, fazendo estalar o vidro das gelosias.

Um padeiro, mais pálido que uma tocha, abria a uma esquina as tábuas da sua loja. Cristóvão dirigiu-se a ele, e curvando-se, com as mãos os joelhos, perguntou-lhe que mal corria na cidade, e por que soavam tantos prantos. O homem recuara inquieto, perguntando por seu turno se ele viera com saltimbancos para se mostrar. Cristóvão disse que não, e com um gesto mostrou o horizonte distante de onde vinha. Então o homem aconselhou-lhe que fugisse, porque a cidade morria da peste negra.



(continua...)

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