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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

- Escute, homem!... Eu não contei por miúdo o caso do Casco. Você compreende, sabe comoessas coisas passam... O Casco veio, conversamos; eu pedi novecentos e cinqüenta mil réis e porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante emendou, que não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou aí pela quinta, a medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquelas rabulices do Casco!... Por fim, uma tarde, lá gemeu, lá aceitou os novecentos e cinqüenta mil réis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão, copo de vinho. Ficou de aparecer para combinar, tratar da escritura. Não o avistei mais, há quase duas semanas! Naturalmente já virou, já se arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contrato firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda de novecentos e cinqüenta. E eu, que detesto coisas vagas, já andava pensando em encontrar melhor homem!

Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Ele, em negócios, gostava de lisura. Sempre se entendera bem com o Casco. Nem por um condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento, assomado. De modo que desejava as coisas claras, para não surgir desgosto rijo. Não se lavrara escritura, bem! Mas ficara, ou não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?

Gonçalo Mendes Ramires, que findara apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se acalmar, fitou o lavrador, quase severamente:

- Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco decisivamente a palavra deGonçalo Ramires, estava agora aqui a tratar, ou sequer a conversar consigo, Pereira, sobre o arrendamento da Torre?

O Pereira baixou a cabeça. Também era verdade!... Pois, nesse caso, ele abria a sua tenção, claramente. E, como conhecia a propriedade, e apurara o seu cálculo - oferecia ao Fidalgo um conto cento e cinqüenta mil réis, sem porco. Mas não dava para a família nem leite, nem hortaliça, nem fruta. O Fidalgo, homem só, pouco se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de gentes e de aderentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Enfim, esse era o seu princípio. E de resto, para a mesa do Fidalgo e mesmo dos criados, bastavam o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam trato mais jeitoso; mas ele, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por lá passaria e tudo luziria... E quanto às outras condições, aceitava as do antigo arrendamento. E escritura assinada para a outra semana, no sábado... Estava feito?

Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou nervosa e tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira:

- Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!

- E Nosso Senhor lhe ponha virtude - concluiu o Pereira, firmado no imenso guarda-sol para seerguer. - Então no sábado, em Oliveira, para a escritura... Assina V. Exa. ou o Sr. Padre Soeiro? Mas o Fidalgo calculava:

- Não, homem, não pode ser! No sábado, com efeito, estou em Oliveira, mas são os anos damana Maria da Graça...

O Pereira destapou de novo os maus dentes, num riso de estima:

- Ah! e como vai a Sra. D. Maria da Graça? Há que idades a não vejo! Desde o ano passado, na procissão de Passos, em Oliveira... Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José Barrolo? Pessoa excelente também, a valer, o Sr. José Barrolo... E que terra a dele, a Ribeirinha! A melhor propriedade destas vinte léguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavaleiro que lhe está pegada, a Biscaia, não se lhe compara - e como cardo ao pé de couve.

O Fidalgo da Torre descascava um pêssego, sorrindo:

- Do André Cavaleiro nada presta, Pereira! Nem tenra nem alma!

O lavrador pareceu surpreendido. Ele imaginava que o Fidalgo e o Cavaleiro continuavam chegados e amigos... Não em Política! Mas particularmente, como cavalheiros...

- O quê? Eu e o Cavaleiro? Nem como cavalheiro nem como político. Que ele nem é cavalheiro nem político. É apenas cavalo, e ressabiado.

O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:

- Então está entendido, no sábado, na cidade. E, se não faz transtorno ao Fidalgo, passamospelo Tabelião Guedes, e fica o feito arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vai para casa da senhora sua mana...

- Sempre. Apareça você às três horas. Lá conversamos com o Padre Soeiro!

- Também há que idades não encontro o Sr. Padre Soeiro!

- Oh! esse ingrato, agora, raramente aparece na Torre. Sempre em Oliveira, com a mana Graça,que é a menina dos seus encantos... Então nem um cálice de vinho do Porto, Pereira?... Bem, até sábado. Não esqueça o beijinho para o neto.

(continua...)

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