Por Camilo Castelo Branco (1862)
Perguntou-me quantos anos tinha; se minha mãe nada me tinha dito a respeito duma visita; se eu antipatizava com ele; se eu queria sair de tanta pobreza e da companhia de minha mãe, que me vendera e que tencionava viver do preço da minha honra.
Eu respondi soluçando a tais perguntas. O homem, que se mostrava condoído, chegou a chamar-me para junto dele, oferecendo-me uma cadeira. Fui sentar-me com muito medo; mas tranquilizei-me algum tanto quando vi que me não lançava as mãos. Uma vez que ele se inclinou para mim, deitando-me o braço à cintura, ergui-me de salto e ajoelhei, pedindo que me deixasse. Ergueu-me com brandura e disse-me: ‘Esteja sossegada, que eu não lhe faço mal’ - e passados instantes continuou: ‘A sua felicidade não é eu deixá-la; porque amanhã sua mãe a venderá a outro homem que se não compadeça da sua inocência e lhe despreze as lágrimas. A sua posição, menina, é muito desgraçada nesta casa. Eu vinha preparado para encontrá-la bem disposta a ceder ao destino que sua mãe lhe deu; vejo que não é fingida a sua dor. Quer, Marcolina, salvar-se das grandes vergonhas que a esperam? Saia já desta casa, aceite a minha amizade; venha para minha companhia, e depois pensará no que melhor lhe convier para ser menos infeliz. Confesso-lhe que a sua beleza me encanta; mas já não serei capaz de a querer sem que o seu coração a leva a ser minha amiga.’
Continuou a falar neste sentido longo tempo; e a final estando já de pé para sair, lançou-me ao regaço dinheiro em ouro e disse: ‘Quando sua mãe vier, diga-lhe que está pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la com a condição de não a vender. Esse dinheiro é o necessário para um mês; no princípio do mês que vem receberá igual quantia.’ E saiu, beijando-me na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua boca: ‘Pobre menina!’
- Era novo esse sujeito? - interrompi.
- Não, senhor. Teria cinquenta anos.
- Continua. Tua mãe quando chegou...
- Viu o ouro sobre a mesa e fez-se escarlate de infernal alegria. Olhou para mim e disse: ‘Não estás mal comigo?’ Rompi num pranto, que me afogava. Quis ela abraçar-me, chamando-me tola com modos carinhosos, e eu fugi para a alcova onde minhas irmãs estavam assentadas no enxergão.
- Das tuas irmãs, uma já devia ter treze anos nesse tempo.
- Essa não vivia conosco.
- Que destino tinha tido?
-O que minha mãe quisera dar-me. A mãe disse-me que ela estava na Casa Pia; mas, alguns meses depois, soube que ela estava na situação em que estou hoje.
- E está ainda?
- Não, senhor. Morreu de dezasseis anos.
- No hospital?
- Não, senhor, em minha casa.
- E as outras irmãs? - Logo lhe direi.
III
- Minha mãe quis que eu lhe contasse o que se passara entre mim e o Sr. Barão.
- Ah!, era barão, o sujeito?!
- Era barão; mas não o maldiga, que tinha boas qualidades.
- Veremos... Por enquanto, não há razão de queixa. Ora diz o mais.
- Contei à mãe o sucedido; menos o modo como ele me falara dela. Ouviu-me com admiração e disseme: “Se eu soubesse que ele tinha palavra e te dava mesada, saíamos destas águas-furtadas e podíamos viver regaladamente.” Acrescentou a estas palavras um plano vergonhoso que devia enriquecer-me em poucos anos.
Faz-me horror o que lhe ouvi!
No dia seguinte, minha mãe comprou-me um vestido de cassa, um mantelete em segunda mão, um chapéu de palha e outras miudezas. Mandou-me pentear, e vestir, para darmos um passeio. Atravessámos algumas ruas, que eu via pela primeira vez, e entrámos no pátio dum palacete. ‘Onde vamos?’, disse eu. ‘Aqui é que mora o Sr. Barão; é preciso sermos gratas.’ O guarda-portão, que já a conhecia, tinha subido a dar parte ao amo, e voltou quando minha mãe me estava dizendo: ‘Deves mostrar-te muito agradecida ao fidalgo e pede-lhe licença para mudares de casa e alugares outra onde ele possa entrar sem repugnância.’
Fez-me uma mudança espantosa no meu espírito, quando tal ouvi. Não hesitei. Subi as escadas, e minha mãe sentou-se no banco do pátio. Entrei numa sala muito rica e sentei-me à espera. Tinha o rosto banhado de lágrimas. Chegou o barão, e veio ao pé de mim, com ar muito alegre e meigo. ‘Quem a trouxe aqui, Marcolina?’, disse ele. ‘Foi minha mãe, com um recado; mas eu venho dizer-lhe outra coisa.’
Faltou-me o ânimo para continuar; mas, instada pelo barão, e com a odiosa imagem de minha mãe a instigar-me, cobrei forças e pude dizer-lhe que me tirasse da companhia de minha mãe e se compadecesse do meu infortúnio. ‘Agora mesmo’, disse ele. E saiu da sala para entrar noutra, onde mandou chamar minha mãe. Soube, depois, que nessa ocasião se realizou o contrato, com muita generosidade da parte dele no pagamento e pronta anuência dela no separarmo-nos. Neste intervalo, chorei com saudades da minha irmãzinha mais nova, que tinha cinco anos e meio e era linda como um anjo.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.