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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Estávamos em Setembro e eu já tinha entrouxado as malas para voltar a Coimbra. Fui despedir-me dos sítios onde as horas me tinham sido mais tranquilas, na soledade. Velejei num barquinho rio acima e aproei à ribanceira, de onde se avistava o arruinado e já em parte desfigurado conventinho de extintos franciscanos. À sombra de um arco manuelino, que havia sido a portaria do arrasado templo, meditei nos frades, no convento, no refúgio dos desamparados do mundo, nas lápides profanadas que mãos ímpias arrancaram de sobre as cinzas de muitos corações, extintos com o segredo de sublimes torturas. Meditei, e maldisse a civilização, que fechara os áditos da paz quando a guerra sacudia as suas serpes mais inexorável; maldisse a ilustração, que aluíra a enfermaria dos empestados do vicio, quando a peste ardia mais devoradora. A minha angústia era ainda imensa, porque eu não podia dispensar-me de Deus, e dos homens, que apontavam o caminho do melhor mundo.

"Descendo o rio, lá ficavam ainda os olhos e as saudades nas ruinarias do convento. Desembarquei na ponte, onde minha mãe me estava esperando. Detive-me a passear com ela pelo braço e a referir-lhe as minhas ideias sobre os conventos. A virtuosa senhora rejubilava-se ouvindo-me e dizia, em raptos de contentamento, que eu estava da mão do Senhor e que, apesar do mundo, havia de trilhar sempre os vestígios de meus religiosos avós, alguns dos quais tinham morrido mártires da fé nas pelejas dos soldados de Cristo contra os Maometanos. Ouvia eu aprazivelmente a crónica de meus ascendentes, gloriosamente mortos na África e no Oriente, quando vi ao longe, na estrada do porto, à saída de Matosinhos, em direcção à ponte, uma senhora cavalgando um alentado cavalo, ao lado de um cavaleiro menos cuidadoso das arremetidas garbosas do seu.

"Minha mãe assestou a luneta e murmurou: "Valha-me Nossa Senhora dos Remédios!... Se me não engano..."

""Quem é?", atalhei eu. Minha mãe demorou a resposta. Os cavaleiros, no entanto, avizinharam-se a galope. Antes de conhecê-la, adivinhou-a o coração, que me repuxou à cabeça uma onda de sangue... Era Teodora, Teodora, deslumbrante de formosura, gentil como as magnificas quimeras do pincel inspirado, visão que me não parecia para olhos turvados de verem as fealdades desta vida... Não te espante o ardor desta linguagem. Eu fiz agora pé atrás vinte e quatro anos da minha vida, e senti-me reviver naquele momento... Agora, espera um pouco... Deixa-me tomar fôlego,recordando minha mulher e meus filhinhos."

X

Afonso, passados dois minutos, continuou, demudado já o semblante da jovialidade

com que principiara: "Teodora reconheceu-me. A turbação do meu ânimo era como uma vertigem, e assim mesmo vi-lhe todos os lances dos olhos, todas as linhas alteradas daquele adorável rosto. Fitou-me. Estremeceu; vi-a estremecer na quase paragem convulsiva que fez o cavalo. E eu busquei o apoio do ombro de minha mãe e senti-me comprimido nos braços dela. E a magia satânica do olhar da bela mulher empederniu-me; arrefeci; dai a pouco era fogo vivo a minha fronte; cuidava que a via ainda; e ela tinha passado. Pus então a mão sobre o meu coração e já lá encontrei a de minha mãe.

"Caminhámos para casa e não trocámos palavra. Entrei no meu quarto, lancei-me sobre a cama, abafei o rosto nas almofadas e vinguei-me do meu infortúnio a chorar. Chorei e senti-me desoprimido. Fui ao quarto de minha mãe e achei-a de joelhos orando. Quais lágrimas me deram alivio? Seriam as dela ou as minhas? As dela, que o homem, quando chora, desafoga uma paixão e abafa noutra: a do ódio. Prantos que salvam são os da dor imerecida, os apelos das iniquidades do mundo para o tribunal da Providência. E eu, quando chorava, amaldiçoava e pedia vingança.

"No dia seguinte fui para Coimbra. "Concentrei-me com a visão da ponte de Leça. Não me deixou aquele adorado demónio recair na minha miséria da embriaguez. Para quê - dizia eu -, se tenho de voltar à razão para encontrá-la com a tenaz ardente da tortura?

"Quinze dias depois da minha chegada, abri uma carta marcada em Braga. Oscilaram-me as pernas, e cuidei ouvir dentro do peito o despegar-se-me o coração, uma dor que eu não sei se é comum de todas as organizações, dor que eu tenho tantas vezes experimentado, que já a considero aleijão dos vasos sanguíneos. A carta era de Teodora, as linhas muito poucas, e assim, se bem me lembro: Foi o mau anjo da minha vida que me levou para onde tu estavas, Afonso.”

Faltava-me o inferno de hoje. Não bastava o remorso: era necessária a fatalidade do amor, da paixão. Daqui por diante há-de rasgar-me o peito a desesperação dos réprobos, que Deus lançou de si. Arrasto-me a teus pés a pedir perdão. Não me amaldiçoes tu de hoje em diante. Se tens padecido. perdoa, e Deus te dê o triunfo na bem-aventurança; se te esqueceste, escarnece-me. Que vingança maior? Adeus. Alegrate, que eu desejo a morte e ela virá salvar a minha pobre alma deste miserável corpo.

"Que luta, meu amigo! As horas daquele dia e daquela noite foram uma continuada alternativa de alegria doida e de excruciante agonia! Começava a escreverlhe, e rasgava logo as cartas, envergonhando-me diante de minha própria consciência. A paixão ia tocando as extremas onde principia a perversão moral. Já me queria parecer que não era indignidade nenhuma responder-lhe eu, quer insultando-a, quer atirando-lhe aos pés com o meu coração infame. Ultrajá-la e adorá-la era então a despótica necessidade da minha cabeça alucinada.

(continua...)

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