Por Lima Barreto (1921)
A muita gente um tal programa se afigurou pomposo e inútil para formar enfermeiros práticos no seu ofício. Outros viram no propósito a idéia de substituir as academias de sessenta mil-réis que tanta celeuma causaram e foram, ao que parece, extintas, ou vão ser, com a recente reforma do ensino público.
Não sei ao certo quais os intuitos dos criadores da Escola, pondo no seu programa tão altas disciplinas; mas peço vênia para lembrar que, se eles querem fabricar bons enfermeiros práticos, não devem seguir tal programa. Modéstia à parte, eu possuo um muito melhor e digo isto por dois motivos:
a) não sou médico.
b) nunca fui enfermeiro.
Mas, como curioso, leio essas coisas de enfermaria e conheço algumas escolas dessa profissão da sábia Alemanha, pela leitura de revistas, certamente.
Há uma em Munique muito afamada, cujo programa é o seguinte:
1º ano – 1ª cadeira: geometria analítica e cálculo diferencial e integral; 2ª cadeira: literatura comparada.
2º ano – 1ª cadeira: máquinas motrizes e operatrizes; 2ª cadeira: economia
política.
A outra escola de que tenho lembrança é a que existe em Dresden. O seu programa é mais simples:
1º ano – 1ª cadeira: direito romano; 2ª cadeira: história das religiões.
2º ano – 1ª cadeira: termodinâmica; 2ª cadeira: hidráulica ou jogo de xadrez.
Ambas, ao que dizem, têm dado os melhores resultados e não há motivos para que não as imitemos.
Aí fica a lembrança.
Careta, Rio. 16-10-1915.
DE FORMA QUE...
– Quando o meu primo Augusto me disse que os redatores das seções elegantes dos jornais do Rio eram muito apreciados e amimados pelas moças da alta roda carioca, eu não tive outro pensamento senão fazer-me redator de uma seção dessas para ter tão doces e ternas homenagens do belo sexo. Já andara metido nos jornais da capital da minha província; e, no intuito de adquirir prática, dias depois, criei no jornal de xxx, folha de grande circulação da minha cidade natal, uma seção mundana a que dei o título – “A vida chic”. Essa minha cidade natal não tinha casa de chá, nem Rua do Ouvidor, nem banquetes no Assírio, pois lhe faltava uma Secretaria do Interior para manter um luxuoso restaurant igual ao do porão do Teatro Municipal, de modo que me via, em certas ocasiões, abarbado para encher a seção. Corria aos jornais de modas e aos do Rio e dava conselhos sobre a elegância feminina. Tão estranho era eu a semelhante matéria que, obedecendo aos meus preceitos, as moças da minha cidade vieram a vestir-se do modo mais horroroso possível, porque, é conveniente dizer, para disfarçar a pilhagem que eu fazia nos colegas, embrulhava figurinos e casava mal as cores dos vestuários. O meu sucesso foi, porém, grande; e, animado por ele, parti para aqui. Consegui arranjar um lugar no O Furo – jornal da tarde que se acabava de fundar. Durante dois meses redigi a seção elegante – “A vida chic” – e fiz necrotério, Santa Casa e outras reportagens pouco alegres e smarts. Não recebi carta feminina alguma e não vi nem um ceitil , pois o dinheiro que o jornal rendia, ou o que dava o capitalista comanditário, era pouco para sustentar os vários lares que o gerente mantinha. Bom pai de família... Estava já quase sem dinheiro, quando o distribuidor do O Furo – o Mercadante – convidou-me para redigir o seu jornal do “bicho”, intitulado O Palpite. Ganhava 50$000 por semana e ele mos pagou sempre pontualmente. Acertava sempre no grupo, pois o jornal, nesta e naquela seção, acabava dando, diariamente, todos os vinte e cinco animais da loteria popular. Cartas choviam e certo dia recebi uma, perfumada, em papel de linho, na qual me era pedido um palpite na certeza, dado na seção mais estimada. Dei-o e acertei. Ao dia seguinte, recebi da mesma pessoa um curto bilhete.
– Que dizia?
– “Obrigado. Não sabes de que me salvaste. Amo-te muito. Vem amanhã. Na rua etc., etc.”
– De forma que?...
– De forma que com o palpite no bicho consegui o que não tinha obtido com a seção elegante: um amor.
Careta, Rio, 6-11-1915.
OS OUTROS
Não há prazer maior do que se ouvir pelas ruas, pelos bondes, pelos cafés, as conversas de dois conhecidos.
Tenho um camarada cuja curiosidade pelo pensamento dos estranhos é tal que não há papel caído na rua, contendo algumas linhas escritas que ele não guarde, recomponha, a fim de dar pasto a esse seu vício mental.
Tem no seu museu coisas maravilhosas. Muita vez os missivistas pensam em ter inutilizado uma cartinha amorosa, um bilhete de “facada” e vai um indiscreto como este meu amigo e descobre que em tal dia F. “mordeu” X. em 50$000 ou Z. está apaixonado por H.
Na rua, porém, as coisas se passam mais ao vivo e as pontas de conversa merecem ser registradas, às vezes, por disparatadas, em outras, por profundamente sentenciosas, em outras ainda, por serem excessivamente divertidas.
Em um dia destes que fui levar um amigo até à estação de Maruí, pude ouvir este pedaço de conversa entre dois redondos coronéis roceiros:
– Como deixaste o rapaz?
– Bem.
– Estuda?
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.