Por Coelho Neto (1890)
— É... Levantou-se, tomou a sombrinha e, estendendo a mão breve ao estudante, enquanto lhe apertava os dedos, disse:
— Então até logo. Olha, espera-me junto do botequim. Vamos cear e depois... riu derreando a cabeça, piscando os olhos. Até logo; e, erguendo a voz: Jacinto, adeus, hein!
— Adeus! Já à porta, acenou com os dedos um adeus a Anselmo, depois, apontando o balcão do botequim fechado: Ali!
— Sim, disse o estudante.
— Até logo! — e atirou-lhe um beijo. O estudante, surpreendido com esse rápido incidente de amor, mal pôde concluir a leitura. Já não se preocupava com os proventos nem com o sucesso da opereta, pensando apenas no encontro noturno com tão formosa rapariga, mas a idéia da ceia aterrou-o. Como havia de a levar a um hotel se toda a sua fortuna reduzia-se a uma velha nota de cinco mil réis? Não havia de conduzi-la a uma tasca para empanturrá-la de iscas e de vinho verde, nem era gentil levá-la a bonde para casa. Mulheres como aquela estavam habituadas a iguarias finas, a champanhe e não se moviam senão em carruagens macias. Como se havia de arranjar para aparecer decentemente à atriz que ficara magnetizada pelos seus olhos felinos?
O empresário aceitou a peça prometendo montá-la logo que tivesse ensejo e
Anselmo saiu radiante, feliz nas letras, feliz no amor, antegozando as duas delícias — a noite próxima, sonora de beijos, e o êxito de A Profecia... logo que houvesse ensejo. Quando chegou à casa narrou miudamente a aventura. Ruy Vaz, que conhecia a atriz, quis dissuadi-lo.
— Não te metas com essa mulher, é o diabo. É um escândalo de saias: faz rolos, tem ataques, suicida-se uma vez por mês, um horror! Arranjaste uma complicação, vais ver. Essa mulher vem desorganizar a nossa vida. Estamos aqui tão bem, trabalhando tranqüilamente e vai-se tudo por água abaixo. Já estou a vê-la revolvendo papéis, folheando livros, espalhando notas ou esperneando ali no tapete descomposta, com os tais ataques. Não penses que há despeito da minha parte, falo assim porque conheço a fundo essa ventoinha. Acho melhor que não a tragas para cá.
— Mas se ela quer vir..
— Quer vir! Ora! Quer vir! Mas para onde, se dormimos no mesmo quarto?
— Por isso não: eu falo ao Toledo.
— Pois sim, hás de ver o resultado. É até capaz de fazer-nos perder esta casa, onde estamos tão bem. É assim! Quando começo a pôr ordem na vida... zás! E foi-se para a janela resmungando.
O Toledo cedeu o quarto sem a mínima objeção; apenas retirou da parede os retratos do pai e da mãe e pôs uma vela nova no castiçal. O estudante conseguiu, com alguma lamúria, arrancar dez mil réis ao misantropo para as grandes despesas da ceia.
O dia parecia a Anselmo infindável e, impaciente, às sete e meia da tarde, com quinze mil réis no bolso e a alma radiante, caminhou trauteando a "Canção de Fortúnio" em direção ao Deroche para fazer hora.
Lins lá estava chuchurreando chopes e ouvindo as bravatas de um alentado barbaças que era paginador num jornal. O homem narrava, roxo e inflado, suando, um feito de mocidade. Andava uma noite em serenata, com outros, lá para as bandas da Cidade Nova, quando dois policiais, por birra, lhes tomaram o passo proibindo, com descomposta linguagem, o zangarreio e o descante. Com boas palavras tentaram persuadi-los de que não eram vadios, mas homens pacíficos, de trabalho, que se divertiam ao luar da noite morna, mas os polícias, julgando, pelas falas mansas, que eram poaias, insistiram na proibição e, sem mais aquela, foram desembainhando os rifles. Ele então, em furor de louco, atirou as manoplas à barriga dos intangidos soldados, suspendeu os dois e muito tempo, no ar, esteve a bater um contra o outro até que os sentiu moles; encostou-os, então, a um muro e foi-se pacatamente, fumando. Soube, mais tarde, que os dois policiais, recolhidos de manhã, com as caras amassadas e rubras como dois grandes tomates, estiveram entre a vida e a morte durante um mês, no hospital, bradando, no delírio da febre, contra um gigante, alto como uma torre e armado de cavaquinho, que os esmagava. O gigante era ele. A voz trovejante do paginador, saindo dentre as barbas densas, era soturna e temerosa como a de um oráculo vindo de versuda brenha em escachôos, ecoando. Lins ouvia-o entre assombrado e descrente e pedia mais chopes.
Quando Anselmo entrou o poeta apresentou-o ao paginador que possuía o nome beato de Santos e o colosso, tomando na prensa da destra a mão fraca do estudante, para dar demonstração da sua força, apertou-a. Anselmo, porém, não se deu por sentido, posto que se lhe enchessem os olhos de água.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.