Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
VIOLANTE – Mil agradecimentos, dª. Irene, por ter vindo honrar o nosso jantar, que será o do meu noivado.
IRENE – Renovo-lhe os meus parabéns, minha senhora; e o seu noivado quando será, dª. Clemência?! espero ser convidada.
CLEMÊNCIA – Fiz dois votos: o primeiro para que nós duas tenhamos as nossas bodas no mesmo dia; o segundo, para que a titia assista a elas ainda solteira e sem noivo.
VIOLANTE – Esta pobre invejosa não passa de praguenta amalucada: a minha dita lhe tira o sono e faz delirar; em parte devo desculpá-la: o meu casamento, dª. Irene, foi resolvido pelas linhas tortas com que Deus costuma escrever direito; principiou por brinquedo de aposta, e vai acabar em coisa séria. Ah! se eu lhe contasse toda a história...
mas... bem vê que por fim de contas há no nosso sexo certas revoltas do pudor...
IRENE – Oh!... sem dúvida...
BRAZ – E com todas essas revoltas a madrinha casa-se por fim de contas et coetera!
CLEMÊNCIA – Quem sabe? eu hei de ver para crer...
VIOLANTE – O que pretendes é perturbar-me o espírito com temores vãos... ficaste vencida!
CLEMÊNCIA – Confesso; mas espero ficar sem vencedora. (Impaciência de Violante) titia, a que horas devem chegar os seus três pretendentes?
VIOLANTE – Às quatro horas precisas (Consulta o relógio) são apenas três... ainda tenho de esperar um século!
CLEMÊNCIA – E em uma hora transforma-se o mundo. (A Braz) Estou com medo...
BRAZ (A Clemência) – E eu não; confio muito nas misérias humanas.
CENA VI
BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e um
criado, que apresenta em uma salva de prata uma carta a Violante e retira-se
VIOLANTE (A Clemência.) – Vê de quem é essa carta e o que contém.
CLEMÊNCIA (Abre e lê.) – Oh!
CASIMIRO – Que é?
CLEMÊNCIA (Lendo.) – “Minha senhora: cedendo, a meu pesar, a circunstâncias imperiosas, sou obrigado a desistir das minhas pretensões à mão veneranda de v. exa.; se, porém, o destino não me permite ser esposo, serei ao menos sempre de v. exa. o mais humilde criado... dr. Augusto de Melo.” CASIMIRO – E esta?
VIOLANTE – É falso! Como não sei ler, a maldita invejosa abusa da minha ignorância. (Toma a carta e dá-a a Braz.) Braz, lê tu esta carta por fim de contas.
BRAZ (Depois de ler para si.) – Tal e qual, madrinha! E a letra e a firma são do dr. Augusto. Custa a crer... mas este... foi-se! et coetera.
VIOLANTE (Dissimulando mal.) – Por fim de contas, era esse o que menos me agradava dos três.
CLEMÊNCIA – Ah, titia!...
VIOLANTE (Com força.) – Ainda tenho dois.
CENA VII
BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta segunda carta a Violante e vai-se.
MÁRIO – Este criado tem cara de correio de más novas.
VIOLANTE (Confusa dá a carta a Braz.) – Lê tu, meu Braz; lê porém direito...
BRAZ (Abre a carta e lê.) – Et coetera!!! “Excelentíssima: tendo empregado três dias em refletir, como v. exa. me ordenou, cheguei à triste convicção de que me cumpre declarar com o mais profundo respeito e dor acerba que dou o dito por não dito, e sou de v. exa. o servo mais dedicado. – Leopoldo Pereira.” Li muito direito: a madrinha quer arquivar a carta? (Apresentando-a.) VIOLANTE – Deita fora esse papel sujo!
CLEMÊNCIA – A titia deve ter paciência, como eu tive...
VIOLANTE – Não me fales!... ainda me ficou o melhor dos três... por fim de contas o mesmo que eu estava resolvida a preferir... (Senta-se agitada e abana-se forte.) IRENE – Mas de que modo se explica semelhante procedimento?
VIOLANTE – Juro que são intrigas desta pombinha sem fel! (Mostra Clemência e abana-se muito.) Por fim de contas está fazendo muito calor!...
CENA VIII
BRAZ, CASIMIRO, IRENE, MÁRIO, CLEMÊNCIA, VIOLANTE e o criado, que apresenta terceira carta a Violante e vai-se.
CASIMIRO – Terceira carta! Será possível que...
VIOLANTE (Vai dar a carta a Braz, e arrepende-se; dá-a a Irene.) – Dª. Irene, a senhora é uma santa...
MÁRIO – Apoiado, titia!
VIOLANTE – Uma santa menina que não me enganará: leia, leia a senhora.
IRENE (Abre a carta e lê para si.) – Ah! É demais! Não ouso...
VIOLANTE – Leia, ainda que seja a minha sentença de morte.
IRENE (Lendo.) – “Excelentíssima senhora: tenho a honra de participar a v. exa.
que ontem fiz-me examinar por dois médicos, os quais me declararam com hipertrofia do coração, e condenado ao celibato para viver mais alguns anos que consagrarei ao amor platônico do belo sexo; assim, pois, coagido por força maior e maldizendo da minha hipertrofia, peço mil perdões a v. exa....
VIOLANTE (Arrebata e rasga a carta.) – Basta! Muito obrigada pelo seu favor:
por fim de contas... (A Clemência.) foste tu que os endemoninhaste... mas por fim de contas eles são três demônios.
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.