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#ensaio_literari#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

- Belo Senhor! gosto de ti e vou dar-te boa prova disso.

- Que é?...

- Lembra-te sempre do conselho de Fuas, na Rua do Ouvidor!...

- Mas... enfim!.. falas tão sério!...

- Desdenha e perde a tua admirável e extraordinária perfeição imitativa da escrita e daassinatura alheias.

- Ah!... o que fiz hoje...

- O que fizeste hoje foi simples, mas lamentável brinquedo com amigos, e mais tarde o quepoderás fazer será crime. Lembra-te!

E Agostinho Fuas voltou a tomar o braço da bonita atriz da casa da ópera.

O Belo Senhor ficou parado e quase triste.

E mais tarde lembrou-se muito, e lembrou-se em dias sinistros - do conselho de Fuas na Rua do Ouvidor.

Provavelmente hei de ter ocasião de lembrar também a sabedoria do conselho de Agostinho Fuas, dando, embora de passagem, notícia de lamentável crime, e de adversa fortuna à que a maravilhosa habilidade caligráfica levou o Belo Senhor, já infelizmente corrompido.

CAPÍTULO 7

Como o vice-reinado do Conde de Rezende obumbrou a cidade do Rio de Janeiro e nesta a Rua do Ouvidor com sinistras perseguições, e com o terror que espalhou, fala-se da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, e refere-se a uma tradição que não saiu toda dos velhos manuscritos suspeitos de tradições imaginárias. Como e por que Perpétua Mineira veio em 1784 morar à Rua do Ouvidor e aí, não ganhando bastante a costurar, abriu em sua casa saleta de pasto à mineira, acontecendo que depois de certo tempo ela começou a rir fora de propósito, cultivou perpétuas roxas, teve muitos amores, até que se apaixonou pelo Tiradentes, e, enfim, desapareceu na noite de 21 de abril de 1792, depois de ter andado à roda da forca, onde fora morto o seu amante, a procurar uma perpétua, achando somente ensangüentado um pedaço de lenço que reconheceu e guardou.

O último decênio do século passado e os primeiros dez meses do ano de 1801 marcaram obumbrado e sinistro período na história da cidade do Rio de Janeiro, e deixaram triste episódio às Memórias da Rua do Ouvidor.

Em 1789 tinha sido denunciada a conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais, estes presos e a devassa posta em andamento.

Em 1790 (a 4 de junho) começou o vice-reinado do Conde de Rezende para tormento do Rio de

Janeiro. Suspeitoso, aterrador, desapiedado, o Conde de Rezende, ainda depois de enforcado o Tiradentes, e de saídos em desterro os principais chefes da conspiração, isto é, ainda depois de abril de 1792 até o fim do seu vice-reinado, foi cruel opressor do povo, e implacável perseguidor de poetas e de literatos, a alguns dos quais encerrou por longo tempo em negras prisões pelo crime de se reunirem em palestras literárias e científicas, às quais ele atribuía injustamente dissímulos de clubes revolucionários e reincidências em tramas republicanas.

A Rua do Ouvidor sofreu, como toda a cidade, a influência sinistra do governo do Conde de Rezende, obumbrando-se pela desconfiança e pelo terror, e para dar idéia dessa triste situação, preciso lembrar a famosa conspiração chamada do Tiradentes, as perseguições e abusos do vice-rei, e vou fazê-lo, vestindo com as roupas, isto é, com as cores e com os costumes do tempo, uma tradição que colhi nos meus velhos manuscritos.

É a tradição-romance de Perpétua Mineira, que aliás não saiu toda desses manuscritos já suspeitos de fonte imaginária.

Dois amigos meus que tinham sido jovens no primeiro quartel do século atual, e que se presumiam de sabedores de coisas dos fins do último século, informaram-me em anos que me viram atarefado recolhedor de notícias do nosso passado na cidade do Rio de Janeiro, informaram-me, repito, da seguinte historieta:

- Uma mulher moça e bonita, a quem chamavam Perpétua Mineira, vivera durante anos dos vice-reinados de Luís de Vasconcelos e do Conde de Rezende morando na Rua do Ouvidor entre as ruas Direita e Detrás do Carmo (hoje do Carmo), e que em sua casa abrira saleta de pasto, ou de jantar e ceias de cozinha á mineira.

Perpétua, a princípio de costumes irrepreensíveis, tornara-se depois fácil em amar e inconstante em amores, contando entre os seus felizes apaixonados o Tiradentes, e enfim subitamente desaparecera, sem que houvesse dela mais notícia alguma, no mesmo dia em que subiu à forca, seu capitólio da história, aquele impávido conjurado, de quem ela fora amante.

Atiçado e impelido pelo interesse romanesco de tais informações, procurei então com ardor no processo dos inconfidentes de Minas, em publicações, em documentos arquivados, em conversações com amigos fluminenses e mineiros distintos, e curiosos investigadores destas coisas da pátria, alguns vestígios da existência ao menos daquela Perpétua Mineira, que floresceu ou murchara na Rua do Ouvidor.

Perdi o meu tempo.

(continua...)

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