Por Gregório de Matos (1696)
8 E que pelo perjuízo,
que a pequena ponte fez,
das dez maiores as três
as chamou Deus a juízo,
e as condenou de improviso
ao fogo voraz, que as coma,
e daqui o Profeta toma
(pois Deus assim a condena)
o fim da gente Agarena,
e seita do vil Mafoma.
9 Continuando a visão,
refere a história sagrada,
que esta audiência acabada
chagou Deus um Rei cristão,
ao qual Ihe entregou na mão
seu império prometido;
logo bem tenho inferido,
que o sarraceno acabado
é o tempo deputado
de ser este império erguido.
10 E pois a gente otomana
vendo esta sua ruína
na luz da espada divina
em tanta armada Austriana:
pode a Nação Lusitana
confiada neste agouro
preparar a palma, e louro,
para o Príncipe Cristão,
que há de empunhar o bastão
do império de Deus vindouro.
11 Pode a Nação Lusitana,
que foi terror do Oriente
confiar, que no Ocidente
o será da Maometana:
pode cortar a espadana
em tal número, e tal soma,
que, quando o tempo a corcoma,
digamos com este exemplo,
que abriu, e fechou seu templo
o Bifronte Deus em Roma.
12 Estes secretos primores
não são da idéia sonhados,
são da escritura tirados,
e dos Santos Escritores:
e se não cito os Doutores,
e poupo esses aparatos,
é, porque basta a insensatos
por rudeza, e por cegueira,
que em prosa o compôs Vieira,
traduziu em versos Matos.
POR OCCASIÃO DO DITO COMETTA REFLETINDO O POETA OS MOVIMENTOS QUE
UNIVERSALMENTE INQUIETAVAM O MUNDO NAQUELA IDADE, O SACODE
GERALMENTE COM ESTA CRIZI.
1 Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
2 Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que o Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
3 Que esteja o francês zombando,
e a Índia padecendo,
Itália olhando, e comendo,
Portugal rindo, e chorando:
e que os esteja enganando,
quem sagaz os inquieta,
sem que nada Ihes prometa!
Será: mas com mais razão,
segundo a minha opinião
efeitos são do cometa.
4 Que esteja Angola de graça,
o Marzagão cai não cai,
o Brasil feito cambrai,
quando Holanda feita caça:
e que jogue a passa-passa
conosco o Turco Maometa,
e que assim nos acometa!
Será, pois é tão ladino:
porém segundo imagino,
efeitos são do cometa.
5 Que venham os Franchinotes
com engano sorrateiro
a levar-nos o dinheiro
por troco de assobiotes:
que as patacas em pipotes
nos levem à fiveleta!
Não sei se nisto me meta!
Porém sem meter-me em rodas,
digo, que estas cousas todas
efeitos são do cometa.
6 Que venham homens estranhos
às direitas, e às esquerdas
trazer-nos as suas perdas,
e levar os nossos ganhos!
e que sejamos tamanhos
ignorantes, que nos meta
em debuxos a gazeta!
Será, que tudo é pior:
mas porém seja, o que for,
efeitos são do cometa.
7 Que havendo tantas maldades,
como exprimentado temos,
tantas novidades vemos,
não havendo novidades:
e que estejam as cidades
todas postas em dieta,
mau é: porém por decreta
permissão do mesmo Deus,
se não são pecados meus,
efeitos são do cometa.
8 Que se vejam sem razão
no extremo, em que se vêem,
um tostão feito um vintém,
e uma pataca um tostão;
e que estas mudanças vão
fabricadas à curveta,
sem que a ventura prometa
nunca nenhuma melhora!
Será: que pois o céu chora,
efeitos são do cometa.
9 Que o Reino em um estaleiro
esteja, e nesta ocasião
haja pão, não haja pão,
haja, não haja dinheiro:
e que se tome em Aveiro
todo o ouro, e prata invecta
por certa via secreta;
eu não sei, como isto é:
porém já que assim se vê,
efeitos são do cometa.
10 Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tendo lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
11 Que andem os oficiais
como fidalgos vestidos,
e que sejam presumidos
os humildes como os mais:
e que sejam presumidos
cavalgar sem a maleta,
e que esteja tão quieta
a cidade, e o povo mudo!
Será: mas sendo assim tudo
efeitos são do cometa.
12 Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.