Por Eça de Queirós (1940)
Milhares de pessoas afluem a admirar esta espécie de homem primitivo, que há alguns mil anos era o que havia de mais perfeito na superfície da Terra e era então o rei da Criação! Quem sabe se daqui a alguns mil anos, quando a raça humana, tal qual é hoje, tiver quase desaparecido para dar lugar a uma forma humana mais perfeita, um sábio então não encontrará, nos desertos ou nos bosques, um último homem e não virá expô-lo, em triunfo, nalguma Londres dessa época? E os seres mais perfeitos de então virão contemplar com espanto o seu antepassado, o homem, como nós contemplamos hoje o nosso antepassado, o gorilha!
Segundo os especialistas, o que há de mais extraordinário neste gorilha é que não tem pêlo, o que prova, creio, que a sua raça é justamente a imediata antes do homem...
Realmente, a não ser a sua cor escura, nada o distingue de um homem feio, com uma barba por baixo do queixo. O Sr. Pongo, naturalmente, não está preso: vive num pequeno parque (no Aquário de Westminster) que lhe foi destinado.
A multidão não parece importuná-lo: de resto, todas as medidas estão tomadas para que o não molestem. O sentimento geral, quando a gente o vê, é de pasmo e de melancolia. A sua face, a sua figura, os seus gestos, a maneira de se sentar, de passear encostado à bengala, são tão humanos – ia quase a dizer, tão modernos – que sentimos uma espécie de veneração por aquele avô da raça humana e um certo desdém por nós mesmos, que há alguns mil anos éramos apenas aquilo!.
O que mais o importuna, a meu entender, são as mulheres. As inglesas, que positivamente são doidas, estão apaixonadas, em massa, pelo gorilha. Um jornal, hoje, contava que ontem foi necessário arrancá-lo dos braços de uma senhora, que o devorava de beijos e não o queria largar, declarando que era encantador. O gorilha, que é ainda infante e não chegou à idade do Sentimento, parece apreciar mediocremente estes excessos de ternura. Noutro dia, encheu de bofetadas uma miss que lhe estava a «fazer olho». E esta lição de moralidade e de conveniência, dada por um macaco a uma senhora, aumentou singularmente o meu respeito pelo simpático Pongo.
O único receio do povo de Londres é que ele morra.
Receia-se o Inverno, mas, até agora, dorme bem, almoça o seu beefsteak, janta sopa, roastbeef e sobremesa, fuma três ou quatro charutos por dia, palita os dentes, dorme a sesta – e faz tudo o que faz qualquer inglês, excepto ter uma opinião sobre a questão do Oriente, o que é, penso eu, uma qualidade a seu favor!
VI
Londres, 15 de Agosto de 1877
Devo dar nesta correspondência, como fez a rainha no discurso de encerramento das câmaras, o lugar proeminente à preocupação do dia – a fome na Índia. Uma calamidade, a maior decerto por que tem passado a Índia desde que a Inglaterra a governa e que pode arrastar graves consequências políticas, ameaça o vasto território da presidência de Madras. Dezoito milhões de habitantes têm fome!
O ano passado as colheitas da Índia do Sul falharam, mas então os celeiros estavam bem providos, a população tinha economias, o gado de transporte abundava, o tesouro do Governo não se esvaziava e a catástrofe combateu-se com vantagem; depois, calculava-se que a colheita deste ano seria imensa, e a escassez de que se sofria seria compensada» pela abundância de que se ia gozar. Quando viesse a monção do sudoeste, a chuva cairia, a colheita seria rica, podia-se esperar!
Sucede, porém, que a monção falha, a chuva não vem, a colheita perde-se e a fome declarase. A grande fome é sucedida por uma fome maior, e diante da calamidade os celeiros achamse vazios, as economias da população exaustas, o tesouro do Governo gasto e a esperança perdida. E o que é mais: o ano de sofrimento, com uma alimentação escassa, enfraqueceu a população moralmente e fisicamente; a nova fome encontra os corpos alquebrados e as almas sucumbidas. Isto explica porque já têm morrido nas primeiras semanas de escassez quinhentas mil pessoas!
A presidência de Madras é um vasto território cheio de aldeias: o número dos proletários, dos que não têm nenhuma espécie de propriedade, sobe a cinco milhões: esta parte da população é a primeira, naturalmente, a sucumbir à necessidade. Os que possuem, isto é, os que têm uma pouca de terra ou gado, poderão durante algum tempo fazer face à escassez, sobretudo vendendo as suas jóias, que são na Índia o emprego natural das economias; mas, findo este recurso, morto todo o gado pela falta de pastos, tendo os preços duplicado – estes doze milhões de homens ficam no mesmo estado de miséria que os cinco milhões de proletários, e toda a população, ou tem de ser sustentada pelo Governo ou de morrer irremediavelmente. Mas pode o Governo realmente alimentar dezoito milhões de habitantes com cereal importado? E como há-de transportá-lo para o interior de um território largo como três ou quatro vezes Portugal»? Não há caminhos de ferro, quase todo o transporte é feito em carros de bois, mas, se os homens morrem por falta de pão, os bois estão morrendo rapidamente por falta de pastos. Os transportes escasseiam como o alimento. De sorte que, em certas partes mais retiradas do território, a população – dizem os jornais – tem «fatalmente de ser abandonada à fome». Isto é horrível.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.