Por Eça de Queirós (1925)
Arthur accendeu um cigarro e alli ficou, pensando nas noites de verão em Coimbra, nos luares sobre, o Mondego elegiaco. . . Via-se na ponte, com os olhogl postos na lua, redonda e branca — que áquella hora, contemplavam tambem o pastor na montanha, deitado sobre uma pedra, o marinheiro nos mares calmos, sobre o tombadilho —e ao lado, a voz extactica do Taveira, murmurando : Lua, hostia do Infinito ! »
A sala, dentro, parecia continuar a melancolia da praça e da Villa, com o seu alto armario de pau preto, a mezinha de pés torneados, coberta d'uma colcha de setim, sustentando preciosamente um vaso com flores de cera, e um recanto d'alcova, com um velho divan cavado pelo uso, onde de certo, de dia, as senhoras caturravam fazendo meia. E a voz grossa do Albuquerquezinho, uma voz de major enrouquecida nas manobras, continuava : quadra, dama, az, terno.
Mas Ricardina appareceu emfim azafamada :
— Desculpa, que se te andou a arranjar o quarto. Vires sem prevenir, que desproposito !
Calou-se, cheirando em redor :
— Oh, menino ! pois tu fumas Ai, que peste ! Ai, que peste !
Agarrou um guardanapo, bateu o ar violentamente :
— Ai, deves perder o habito, que o Vasco diz que arrasa a saude e dá más idéas. Puz-te o bahú ao pé da cama. Olha, ahi vem a tia Sabina. Vae com ella, que te vae mostrar o quarto, que eu vou me aqui repimpar e estar um bocado caladinha . , .
Mas não se calou, contando logo os seus acha ques, o mal que a secca esteva fazendo ás terras, os bonitos passeios para os lados do Côvo, a maraVilha da fabrica de vidro
— Fez a paciencia, Albuquerquezinho
— Duas, menina, — disse o velho que baralhava as cartas — duas imperiaes.
— Logo se marca, que a Sabininha tem de lá ir acima . . . Ai, que balburdia, credo ! Pois olha, até estou com dôres de cabeça. do fumo do tabaco. E tambem de sahir dos meus habitos . . .
— Chut ! — bradou o Albuquerquezinho que re começava o quadrilatero.
E Ricardina baixando a voz :
— Vá, mana Sabina, vá-lhe mostrar o quart já que tem pernas.
— Por aqui, menino, por aqui — disse logo bina, levantando-se.
Arthur, atarantado, seguiu-a pela escada ing me, mas quando chegou ao corredor, parou pantado, vendo a uma porta, postado, d'arma hombro, um soldado de papel em tamanho n ral, collado a uma taboa que fôra recortada contornos da figura.
— Que é isto
—É o quarto do Albuquerquezinho, é a nella disse Sabininha com um sorriso en eido.
— Quem é aquelle sujeito — perguntou Arthur. — Ai, é um santo ! Nãc deves fazer caso . . tem a cabecinha desarranjada, não pensa senão em navios e cousas do mar.
— Foi official de marinha
Oh, não ! O Albuquerquezinho era um amigo do mano ; depois de viuvo começou a tresloucar. E como não tinha parentes e não estava doudo declarado para ir para Rilhafoles, trouxemol-o a viver cá para casa ; que o Albuquerquezinho é rico, tem uma fazenda muito boa, ao pé de Santa Euphrasia.
Fallava enternecida, com o seu castiçal na mão, ao lado da enorme sentinella de képi e farda azul, de bigodes napoleonicos. Fôra ella que lhe pnzera na manga os galões d'almirante. Era ella que cosia as velas dos seus navios.
— Ai, coitadinho, é um santo ! só aquella mania das embarcações, que em tudo o mais tem juizo.
Mostrou-lhe então o quarto, pegado ao do Albuquerquezinho. Sobre a commoda tinham posto um grande ramo de rosas e os lengoes da cama eram bordados.
— Tens aqui agua quente , . . E a vista é linda. Arthur deitou um olhar á janella, mag só viu uma vaga negrura, onde fórraas d'arvores, outra torre distante, punham sombras mais densas, e das quaes subia o mesmo coaxar triste d.ag
Mas Sabininha, ao retirar-se, hesitou um momento e quasi com uma supplicagão na voz :
— Não te rias, menino, queria pedir-te uma cousa. Sempre que fallares ao Albuquerquezinho, chama-lhe « snr. almirante b.
Quando Arthur desceu, o chá estava na mesa e Sabina, muito commovida, arranjava sobre o guardanapo a ceia do «menino Elle teve então de contar dos seus estudos de Coimbra, como recebera a noticia da morte do pae, o que tinha rendido o leilão . . .
Mas de repente o Albuquerquezinho arremes sou a torrada que tomara do prato e empertigado na cadeira, fazendo estalar os nós dos dedos, olhou successivamente as duas velhas com rancor. Exigia as torradas quentes, louras, a escorrer de manteiga e encontrando uma secca, rosnou com azedume :
— Se sabem que me faz mal ! Se sabem que me faz muito mal ! E não é uma, são todas que estão seccas. Já é desleixo !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.