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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Eu já dei, eu já dei! exclamavam todos, excitados.

Fora a irmã do cônego que não tocara no seu cobre acastelado. João Eduardo disse, curvando-se:

- Parece-me que a Sra. D. Josefa não entrou.

- Eu?! gritou ela, furiosa. Olha uma destas! Até fui a primeira! Credo! Duas moedas de cinco réis, por sinal! Que tal está o homem!

- Ah! bem, disse ele então, fui eu que me esqueci! Cá ponho. - E rosnou: beata e ladra!

E a irmã do cônego dizia no entanto baixo à Sra. D. Maria da Assunção:

- Queria ver se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!

- Só quem não está feliz é o senhor pároco, observaram.

Amaro sorriu. Estava distraído, e fatigado; às vezes mesmo esquecia- se de marcar, e Amélia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovelo:

- Olhe que não marcou, senhor pároco.

Tinham já apostado dois ternos; ela ganhara; depois faltou a ambos para quinarem o número

trinta e seis.

Em roda repararam.

- Ora vamos a ver se quinam ambos, disse a Sra. D. Maria da Assunção, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.

Mas o trinta e seis não saía; havia outras quadras nos cartões alheios; Amélia receava que quinasse a Sra. D. Joaquina Gansoso, que se mexia muito na cadeira, pedindo o quarenta e oito. Amaro ria, involuntariamente interessado.

O cônego tirava os números com uma pachorra maliciosa.

- Vá! vá! Ande com isso, senhor cônego! diziam-lhe.

Amélia, debruçada, os olhos vivos, murmurou:

- Dava tudo para que saísse o trinta e seis!

- Sim? Aí o tem... Trinta e seis! disse o cônego.

- Quinamos! gritou ela, triunfante; e, tomando o cartão do pároco e o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito corada.

- Ora Deus os abençoe, disse o cônego, jovial, entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de dez réis.

- Parece milagre! considerou a Sra. D. Maria da Assunção, piedosamente.

Mas tinham dado onze horas; e depois da tumba final as velhas começaram a agasalhar-se. Amélia sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polca. João Eduardo aproximou-se dela, e baixando a voz:

- Muitos parabéns por ter quinado com o senhor pároco. Que entusiasmo! - E como ela ia responder: - Boa noite! disse ele secamente, embrulhando-se no seu xale-manta com despeito.

A Ruça alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam ganindo adeusinhos. O Sr. Artur harpejava a guitarra, cantarolando o Descrido.

Amaro foi para o seu quarto, começou a rezar no Breviário; mas distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de Artur, sobretudo o perfil de Amélia. Sentado à beira da cama, com o Breviário aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mãos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da agulha, o seu buçozinho gracioso...

Sentia a cabeça pesada do jantar do cônego e da monotonia do quino, com uma grande sede além disso das lulas e do vinhito do Porto. Quis beber, mas não tinha água no quarto. Lembrou-se então que na sala de jantar havia uma bilha de Extremoz com água fresca, muito boa, da nascente do Morenal. Calçou as chinelas, tomou o castiçal, subiu devagarinho. Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o e recuou com um ah! Vira num relance Amélia, em saia branca a desfazer o atacador do colete; estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam ver os seus braços brancos, o seio delicioso. Ela deu um pequeno grito, correu para o quarto.

Amaro ficou imóvel, com um suor à raiz dos cabelos. Poderiam suspeitar uma ofensa! Palavras indignadas iam sair decerto através do reposteiro do quarto, que ainda se balouçava agitado!

Mas a voz de Amélia, serena, perguntou de dentro:

- Que queria, senhor pároco?

- Vinha buscar água, balbuciou ele.

- Aquela Ruça! aquela desleixada! Desculpe, senhor pároco, desculpe. Olhe aí ao pé da mesa, a bilha. Achou?

- Achei! achei!

Desceu devagar com o copo cheio: a mão tremia-lhe, a água escorria- lhe pelos dedos.

Deitou-se sem rezar. Alta noite Amélia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em chinelas, fumava, excitado, pelo quarto.

V

Ela, em cima, não dormia também. Sobre a cômoda, dentro de uma bacia, a lamparina extinguiase, com um mau cheiro de morrão de azeite; brancuras de saias caídas no chão destacavam; e os olhos do gato, que não sossegava, reluziam pela escuridão do quarto com uma claridade fosfórica e verde.

Na casa vizinha, uma criança chorava sem cessar. Amélia sentia a mãe embalar-lhe o berço,

cantar-lhe baixo:

Dorme, dorme, meu menino,

Que a tua mãe foi à fonte!

Era a pobre Catarina engomadeira, que o tenente Sousa deixara com um filho no berço, e grávida

(continua...)

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