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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Pereira também riu, com um riso agradado que lhe descobria os maus dentes. Pois o círculo era uma propriedade do Sr. Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor, serviçal... E então, quando lhe calhava como em abril o apoio do Governo, nem Nosso Senhor Jesus Cristo que voltasse à Terra e se propusesse por Vila-Clara desalojava o patrão da Feitosa!

O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental resplandecente, entrava com um prato de ovos estrelados, quando o Fidalgo, que desdobrara o guardanapo, o amarrotou, arremessou com nojo:

- Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar. Não me importa guardanapo roto, ou com passagens, ou com remendos... Mas branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!

E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:

- O quê! Você não almoça, Pereira?...

Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas nessa tarde comia as sopas com o genro nos Bravais, que era festa pelos anos do netinho.

- Bravo! Parabéns, Pereira amigo! Dê lá um beijo meu ao netinho... Mas então ao menos umcopo de vinho verde.

- Entre as comidas, meu Fidalgo, nem água nem vinho.

Gonçalo farejara, arredara os ovos. E reclamou o "jantar da família", sempre muito farto e saboroso na Torre, e começando por essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que ele desde criança adorava e chamava as palanganas. Depois, barrando de manteiga uma bolacha:

- Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz honra ao círculo! Homemexcelente, decerto, respeitável, obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!

O lavrador roçou vagarosamente pelas ventas cabeludas o lenço vermelho, enrolado em bola:

- Sabe as coisas, pensa com acerto...

- Sim! mas pensamento e acerto não lhe saem de dentro do crânio! Depois está muito velho,Pereira! Que idade terá ele? Sessenta?

- Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O avô durou até os cem anos. E aindao conheci na loja...

- Como, na loja?

Então o Pereira, enrolando mais o lenço, estranhou que o Fidalgo não soubesse a história do Sanches Lucena. Pois o avô, o Manuel Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado também com uma moça muito vistosa, muito farfalhuda...

- Bem! - atalhou o Fidalgo. - Isso é honroso para o Sanches Lucena. Gente que engordou, quetrepou... E eu concordo, Pereira, o círculo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha nele terra, raízes, interesses, nome... Mas é preciso que seja também homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes questões, nas crises, se erga, transporte a Câmara!... E depois, Pereira amigo, em Política quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa! Ainda em papel, a lápis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem de berrar em S. Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros a chiar.

O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:

- Aí talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre faltou quem gritasse. Aítalvez o Fidalgo acerte!

Mas o Fidalgo emudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro duma caçoila nova, com raminhos de hortelã. E então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo da mesa as mãos, que meio século de trabalho na terra tornara negras e duras como raízes - e declarou que se atrevera a incomodar o Fidalgo, àquelas horas do almocinho, porque nessa semana começava um corte de madeiras para os lados de Sandim, e desejava, antes que surgissem outros arranjos, conversar com S. Exa. sobre o arrendamento da Torre...

Gonçalo reteve a colher, num pasmo risonho:

- Você queria arrendar a Torre, Pereira?

- Queria conversar com V. Exa.. Como o Relho está despedido...

- Mas eu já tratei como Casco, o José Casco dos Bravais! Ficamos meio apalavrados, há dias...Há mais de uma semana.

O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena, grande pena... Ele só no sábado se inteirara da desavença com o Relho. E, se o Fidalgo não ressalvava o segredo, por quanto ficara o arrendamento?

- Não ressalvo, não, homem! Novecentos e cinqüenta mil réis.

O Pereira tirou da algibeira do colete a caixa de tartaruga, e sorveu detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira. Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Enfim! depois de palavra trocada... Mas era pena, porque ele gostava da propriedade; já pelo S. João pensara em abeirar o Fidalgo; e apesar dos tempos correrem escassos, não andaria longe de oferecer um conto e cinqüenta, mesmo um conto cento e cinqüenta!

Gonçalo esqueceu a sopa, numa emoção que lhe afogueou a face fina, ante um tal acréscimo de renda - e a excelência de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!

- Isso é sério, ó Pereira?

O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com decisão:

- Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para caçoar com V Exa.! Proposta avaler, escritura a fazer... Mas se o arrendamento está tratado...

Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na mesa para se erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:

(continua...)

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