Por Camilo Castelo Branco (1862)
Numa dessas noites de exorbitância intelectual, como o auditório me abandonasse, saí do Marrare das Sete Portas e fui ver a Lua, que crispava de cintilantes escamas a superfície prateada do Tejo. Eram onze horas. Num dos bancos que adornam o Cais do Sodré vi sentada uma mulher, que trajava de escuro e apoiava a cabeça entre as mãos, que, ao revérbero dum candeeiro, pareciam de alabastro, amarelecido de anos. Aproximei-me dela, parei com quanta firmeza as pernas me permitiam, e disse-lhe:
- Mulher!
E ela, voltando para mim a face pálida, encarou-me e não respondeu.
- Mulher! - tornei, encostando-me ao peitoril do cais para manter a dignidade e aprumo do discurso. - Que quer? - respondeu ela.
- Que tens tu com as magnificências da noite? Que segredos vens tu dizer às estrelas, que o Criador fizera tuas irmãs na formosura do brilho? Se te despenhaste da tua inocência, que queres tu deste céu que só verte o orvalho consolador no seio das criaturas afligidas sem mancha, das padecentes sem culpa, ou das infames com dinheiro?
Pouco mais ou menos, foi isto o que lhe disse, que me lembre; o restante, a não ser discurso sobre a his-
tória filosofia.
O mais que me lembra é que, às cinco horas da manhã desse dia de Agosto, a mulher do Cais do Sodré ia comigo numa carruagem e respirava o ar balsâmico da estrada de Sintra.
II
- Conta-me a tua história, Marcolina, antes que eu perca a razão, para lhe dar valor. A embriaguez, quando não é insultuosa, é pouco persistente nos sentimentos generosos. Faz-me compadecer de ti e darás à minha vida rumo novo, ou pelo menos uma idéia útil e própria de homem que ainda tem intervalos de encontrarse na consciência. Tu choraste, quando viste árvores e flores; pediste-me que te deixasse morrer lá em cima entre as fragatas da serra; erraste uma vista, de quem se sente morrer de desalento, pela extensão do mar. Quem és tu?, donde caíste até encontrar o primeiro apoio na tua queda sobre o ombro dum homem perdido de razão, que tu recebeste como se encontrasses um teu irmão no despejo e na desgraça? Já sei o teu nome; vejo que foste bela; que a natureza te quer ainda vestir dumas galas que tu expeliste de ti, quando as rasgavas com pedaços do coração. Já tens outra cor; e as lágrimas, em que te nadam os olhos, parece que te querem lavar os estigmas da face. Voarão nesta atmosfera os anjos invisíveis que te conheceram, quando tu eras pura?
Marcolina abraçou-me sem a veemência convulsiva que os dramaturgos mandam nas rubricas. Foi um abraço senhoril, comedido e honesto como nossas avós os davam naqueles jogos e saiam sempre em uma cadeira defronte da minha otomana e disse:
- Nasci no dia em que meu pai morreu nas linhas de Lisboa. Tenho dezoito anos. Meu pai foi empregado na tesouraria, onde ganhava para levar a vida com abundância. Se algum desgosto sentia, era por não ter um filho. Morreu, como lhe disse, no dia em que eu nasci.
Minha mãe ficou muito nova e bonita; mas quase pobre. As economias que meu pai deixara dariam escassamente a subsistência dum ano. Ouvi dizer que a casa estava trastejada com luxo, em que meu pai se esmerava, por ter sido criado no paço, onde meu avô era cirurgião.
A mãe teve muito quem a pretendesse, não tanto por ser bela como por correr fama que tinha dinheiro. Teria eu um ano quando ela casou com um empregado público, mais novo e mais pobre que ela.
Lembro-me da minha infância dos seis anos em diante, e dos meus irmãos, que já eram dois, filhos do meu padrasto; e, quando eu tinha dez anos, já éramos seis irmãos, todos meninas.
Não tenho memória nenhuma de viver em casa mobilada com limpeza. Minha mãe foi vendendo pouco e pouco algumas jóias que tinha para ajudar às despesas, que aumentavam, e aos vícios de seu marido, que também cresciam com a pobreza. O que me lembra muito bem é a indigência, e a fome, e a nudez de minhas irmãs.
Meu padrasto, por causa duma revolução, foi demitido do lugar; e, obrigado pela penúria, fez um roubo, e esteve preso alguns meses. Nunca mais o vi, e não sei ainda hoje se foi degredado, se foi para o Brasil, como minha mãe dizia.
Quando eu tinha doze anos, vivíamos num último andar duma casa na Rua de S. Luís. Minha mãe saía à noite com três de minhas irmãs e recolhia-se muito tarde a fazer a ceia, que era muitas vezes o jantar. Creio que ela andava mendigando. Outras vezes fechava-nos todas na única alcova da casa, e ela ficava na saleta: creio que este facto era mais horrível que pedir esmola.
Aos catorze anos, estando eu sozinha em casa uma noite, fazendo camisas para embarque, ouvi um rangido de botas nas escadas próximas e estremeci. A porta foi aberta de fora com a chave, e eu ergui-me, espavorida, correndo à janela que se abria sobre o telhado. Lembraram-me, naquele instante, palavras que a mãe me tinha dito, e julguei-me perdida.
Quando lancei a vista à porta para me bem convencer da desgraça, vi um homem que caminhava para mim, dizendo que me não assustasse. Eu fui recuando até ao cantinho da casa e encolhi-me a tremer e a chorar.
Parece que o homem teve piedade de mim. Esteve a olhar-me com ar melancólico, sentou-se e limpou o suor da testa.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.