Por Camilo Castelo Branco (1864)
Publiquei sem assinatura uma das muitas poesias que eu tinha escrito nos arvoredos de Belas, nos tempos em que a imagem lacrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá comigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da Terra. A poesia Unha a religiosa suavidade de um amor que se alivia aos santos enlevos do coração virgem. Os literatos disseram que eu imitava Lamartine e que mesmo o traduzia quase literalmente em algumas estrofes. Ora eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lê-lo, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado comigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus colegas por se darem uns ares de tolice muito por aí fora dos limites razoáveis. Passados tempos, dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, Vertiginosa, escrita depois do meu desastre. Os meus colegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode,.35 declarara que eu taduzira Vitor Hugo. Fui ler depois Vitor Hugo, e lastimei que os soberanos do génio estivessem sujeitos às chufas de todo o mundo, sem excepção dos literatos meus contemporâneos da Universidade.
"Enfadado de uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os trocistas, iniciando-me para isso nas libações homéricas da genebra e conhaque do Troni. A primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou- Me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus sócios de delírio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcástico, irónico, eloquente e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra cor e de haver idealizado quimeras douradas por novas e esplêndidas auroras de outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acometiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, ódio mesmo à luz que me mostrava os espectros da natureza, em que noutro tempo a minha alma toda oração, toda absorvida, se evolava em eflúvios de admiração para o Altíssimo.
"Neste perdimento de dignidade terminei o primeiro ano, com aprovação plena, e resolvi passar as férias em Lisboa."
- Com aprovação plena! -atalhara eu a Afonso de Teive.
"Por que não?", respondeu ele. "As minhas noites eram quase todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e distúrbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Teodora sentava-se em frente da minha mesa e dialogava comigo, ela no tom escarnicador da mulher ovante da sua desonra e eu no acento suplicante de quem já não tem que pedir senão piedade.
"A refugir deste suplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, relia-os sem compreendê-los; mas esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar e expor com clareza, uma ou outra vez, as ideias dos compêndios. Os meus créditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente numa lição. "Pediu-me minha mãe que a visitasse em férias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ela fosse ao Porto passar comigo a estação dos banhos de mar. Anuiu a santa senhora.
"Os meus dias corriam magoados, mas serenos, em Leça da Palmeira, onde se haviam reunido alguns parentes nossos de casas muito distantes umas das outras. Meu tio Fernão concorreu com minha prima Mafalda, que o jovial pai me tinha desenhado sem encarecimento. Fora a minha companheira dos brincos infantis. Viram-na os olhos da minha razão depois à verdadeira luz. Era bela e triste. A seriedade taciturna de Mafalda, se não fosse vaidade de raça, seria um dialogar permanente com o namorado anjo da sua inocência. "Se eu pudesse amá-la!", dizia eu a minha mãe, que se tornara para mim, naqueles dias menos oprimidos, uma segunda consciência. E minha mãe, com a suma delicadeza da sua virtude, pedia a Mafalda que me obrigasse a falar, que me fizesse ler alguns livros recreativos em voz alta. Instado por minha prima, escolhi a leitura da Noite do Castelo ou as Ciúmes do Bardo. Comecei a ler pelo livro; porém, à segunda página, dei de mão insensivelmente ao livro e declamei de cor com tamanho entusiasmo, e com a voz tão vibrante de lágrimas, que minha mãe rompeu em soluços e minha prima empalideceu de assustada da minha intimativa. Aqui tens tu um lance que eu não posso agora relembrar sem rir! O que tudo isto me parece, visto daqui, do alto dos meus tamancos, e através destes óculos de três degraus!
"Minha mãe impediu a continuação da leitura e Mafalda nunca mais desejou ouvirme. Observei mais arrefecida, e menos atenciosa, minha prima, desde aquela explosão de ciúmes, por conta do poeta Castilho. Isto inquietou-me tão de leve que nem a vaidade me magoou.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.