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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

– Não.

– Pois é simples. O povo gosta de homens independentes, daqueles que podem dizer a verdade com todas as letras. Ele já não pode dize-la. Hoje, está cheio de interesses, de cavações, porque gasta o que não ganha.

– De modo que ele é?

– Ele?

– Que é?

– Ele, hoje, não é mais homem; hoje, ele é ex-homem.

Careta, Rio, 25-9-1915.

FUTURA NOTÍCIA

Os jornais, dentro em breve, hão de noticiar o seguinte, com grandes títulos e subtítulos:

“Ontem, pelas primeiras horas da manhã, a casa de detenção foi abalada pela explosão de uma bomba de dinamite. A surpresa que causou, tão inesperado acontecimento, não impediu que o seu pessoal superior não desse imediatamente as necessárias providências.

“Tratando-se de averiguar onde tivera lugar o fato, soube-se logo que se dera a explosão no cubículo em que está alojado, Francisco Manso de Paiva Coimbra , o célebre assassino do general.

“Como é sabido de todos, esse desgraçado rapaz, em 8 de novembro do ano último, na ocasião em que o general Pinheiro penetrava no Hotel dos Estrangeiros, assassinou-o fria e covardemente pelas costas.

‘Preso em flagrante, foi convenientemente processado e aguardava o julgamento que devia ter lugar proximamente.

“O pessoal da detenção não sabe explicar como o criminoso conseguiu ter em seu poder uma bomba de dinamite.

“Há várias versões, mas todas elas nada explicam, antes complicam a situação dos funcionários daquele presídio.

“É ocasião de recordar que não é a primeira vez que tal fato se dá.

“Há tempos, durante o longo sítio que o marechal Hermes decretou, o cabo Ramos, recolhido à Detenção, por ser acusado de ter tentado contra a vida do referido general, então ministro da Guerra, suicidou-se misteriosamente, com o auxílio de uma bomba de dinamite, que ele fez explodir no cubículo em que estava recolhido.

“Até hoje, como agora com o caso de Paiva Coimbra, o fato não foi satisfatoriamente explicado e o seu mistério tem resistido a todas as investigações.

“É de esperar que, daqui em diante, tais acontecimentos não se repitam e esperamos que o pessoal da detenção não permita que os detentos tenham nas suas prisões laboratórios de pirotécnica, de modo a permitir-lhes o fabrico de explosivos violentos.”

Pela adivinhação.

Careta, Rio, 25-9-1915

EXEMPLO A IMITAR

Os conselhos municipais de São Paulo e Belo Horizonte acabam de legislar sobre a obrigatoriedade de serem redigidas em língua vernácula as inscrições de placas, tabuletas, emblemas, rótulos ou denominações de casas comerciais, de diversões, etc.

Os nossos jornais, os daqui, pedem que, à vista de semelhante exemplo, o nosso conselho faça o mesmo e vá até o ponto de exigir que tais emblemas, etc, quando não sejam estritamente sintáticos ou tenham erros ortográficos, mereçam multas e outras punições.

Não há dúvida que a medida merece louvores, mas a nossa língua é tão indisciplinada, que não sei bem como os agentes e guardas fiscais se vão haver para executar a postura.

Supondo mesmo que eles tenham instrução para corrigir ou julgar dos erros das tabuletas, é bem de ver que, à vista dos casos controversos, no que toca ao nosso idioma, eles se vejam em palpos de aranha, para resolver certos casos.

Por exemplo: a Light põe “Larangeiras” com g , mas há quem admita que “Laranjeiras” se deve escrever com “j”. Se a gente for dessa última opinião, pode multar a companhia canadense?

Outra coisa: um ferrador põe na placa o seguinte letreiro: “Ferra-se burros”. Está certo? Está errado? Para uns está, para outros não. Como se há de resolver a multa?

O projeto chama uma comissão de gramáticos e esta é uma espécie de gente que não se entende.

Mas ainda: uma casa de modas escreve na tabuleta: “modas e confecções”. Todos sabem que esta última palavra é um crasso galicismo, mas por ser crasso é que é usual.

Como há de ser imposta a multa? Nova comissão de gramáticos e grossa descompostura, entre todos os especialistas no gênero.

Estou a ver uma barulharia infernal só por causa de uma inovante postura municipal.

Careta, Rio, 9-10-1915.

UMA LEMBRANÇA

Com toda a pompa oficial, na presença de altas autoridades, inclusive sua excelência, o senhor ministro do Interior, a Diretoria de Saúde Pública, em dias da semana passada, inaugurou uma Escola Prática de Enfermeiros.

Consta do seu programa de ensino várias disciplinas da mais alta importância para enfermeiros práticos, como sejam: física, química, anatomia, fisiologia, terapêutica, etc.

(continua...)

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